Refúgio na gravura

Os rostos de vendedores de rua são realçados pelo brilho de fundo do cobre e fazem com que arte e vida se misturem na obra de Lourival Cuquinha, cujo objetivo é valorizar o trabalho dos imigrantes

Luciana Pareja Norbiato
Detalhe de Transição de Fase (2014-2016), obra que Lourival Cuquinha realizou com imigrantes no Brasil

Qual o valor de um ser humano? Se ele for refugiado ou imigrante de ex-colônias europeias, o orçamento fica barato. A falta de direitos, a necessidade de adaptação a novos costumes e idiomas, a não oferta de empregos regulamentados, tudo dificulta o dia a dia dessa população. É comum que muitos trabalhem como vendedores ambulantes, tentando burlar a precariedade de sua condição de quase párias, organismos invisíveis no corpo das grandes cidades. Embaralhador frequente dos códigos do circuito da arte com a vida, Lourival Cuquinha tomou os imigrantes como matéria-prima de Transição de Fase (2014-2016). O trabalho faz parte da edição deste ano do Clube da Gravura do MAM e está na curadoria de Cauê Alves, que comemora os 30 anos da iniciativa.

São retratos de cem camelôs imigrantes impressos em pequenas chapas de cobre, com a cabeça fotografada em frente e verso. Se cada associado do Clube recebe um retrato único, na mostra todos os cem aparecem perfilados, o que potencializa o sentido da obra. Sob as fotos, o objeto que o artista comprou de cada camelô, de mesmo preço que a chapa com a impressão: uma camiseta do Brasil, um rádio made in China, um delicado pingente feito à mão, uma caricatura do próprio artista, uma profusão de correntes de prata e ouro e muitos outros objetos, dos mais ordinários aos mais autorais. Suspensos em pilhas de moedas de cinco ou dez centavos pregadas na parede, são o testemunho do valor monetário conferido diariamente ao trabalho dos imigrantes como também da placa em que estão gravadas suas expressões, cores e traços.

Mas nem o valor da obra de arte pode ser medido só pelos materiais de que ela é composta, nem o do trabalho desses vendedores de rua, e aí reside a potência da instalação. É na evidenciação dos rostos realçados pelo brilho de fundo do cobre que arte e vida se misturam na valoração do trabalho (artístico ou corriqueiro) para além da materialidade e do cifrão. É a ação de dar visibilidade a seus agentes e personagens anônimos, cotidianamente ignorados e desvalorizados, que mostra que as relações de troca não são entre dinheiro e produto, mas entre pessoas, sonhos e expectativas.

Transição de Fase traz à sisudez do cubo branco uma lufada de mundo real, de vida em curso, cuja poesia está exatamente na espontaneidade e nas relações humanas acima de toda a coerção do capital. Localizada no último extremo do espaço expositivo, a obra é o grand finale política e tecnicamente radical para a exposição, que passeia pelas possibilidades da gravura contemporânea, do rigor técnico à investigação de seus limites.

Serviço
Clube da Gravura: 30 Anos
Museu de Arte Moderna de São Paulo,
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Até 21/8
www.mam.org.br

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