Regina Silveira: O desencantamento do olhar

Exposição da artista na inauguração da nova sede do Paço das Artes propõe uma reflexão crítica sobre o ato de ver

Leandro Muniz

N° Edição: 46

Publicado em: 15/03/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Lunar (2002), instalação de Regina Silveira no Paço das Artes (Foto: Divulgação / Cinthia Bueno)

Na comemoração dos 50 anos da instituição, o Paço das Artes finalmente conseguiu uma sede fixa em um casarão em Higienópolis e passou a se caracterizar como um museu de arte digital e de obras reprodutíveis, o primeiro do estado de São Paulo com esse escopo. A artista convidada para inauguração da nova sede é Regina Silveira, que doou para o Paço as cinco primeiras obras de sua coleção em formação. Com curadoria da diretora artística Priscila
Arantes, a exposição Limiares reúne trabalhos formados a partir de operações que colocam em xeque a suposta objetividade do olhar.

Frame do vídeo Limiar (2015) de Regina Silveira (Foto: Divulgação)

Na entrada da instituição, no espaço externo, uma escultura de madeira é a representação tridimensional de um banco de jardim, distorcido por anamorfose. Na sala principal, Cascata (2020) é uma plotagem que reproduz as janelas do casarão de modo estilhaçado, provocando uma reflexão crítica sobre o contexto onde está instalada. A duplicação das janelas sobre as próprias janelas, convulsionando a ortogonalidade da arquitetura, coloca em questão as relações entre o real e a representação, e a distorção do banco de jardim pode ser lida como uma desconstrução das narrativas românticas implícitas nesse objeto.

Podemos ainda especular sobre o sentido de inaugurar uma instituição com uma artista cuja obra tem aspecto rigorosamente noturno, no atual momento político do País, em que a cultura vem sofrendo desmontes e restrições ou que a extrema-direita volta à ascensão.

  • Lunar (2002), de Regina Silveira (Foto: Divulgação / Cinthia Bueno)
  • Lunar (2002), de Regina Silveira (Foto: Divulgação / Cinthia Bueno)
  • Lunar (2002), de Regina Silveira (Foto: Divulgação / Cinthia Bueno)

Em Lunar (2002), duas esferas se afastam e se aproximam do espectador em uma projeção. Em Limiar (2015), a palavra luz aparece e desaparece em diversas línguas, vista através de uma fresta, ou seja, de modo incompleto. A sensação sóbria de solidão e desencantamento gerada por esses trabalhos problematiza uma série de questões inter-relacionadas: o paradoxo entre presença física e virtualidade, representação e realidade, o questionamento da racionalidade da arquitetura ou mesmo da ideia de racionalidade em geral. Não à toa, luz e sombra são alguns dos
temas e metáforas centrais da obra.

Ainda que não haja uma relação direta entre os signos articulados na mostra, o modo austero como esses trabalhos são feitos deixa entrever o ceticismo radical que a obra de Regina Silveira propõe. Um ceticismo luminoso, digamos.

Serviço
Limiares, individual de Regina Silveira,
Encerrada, Paço das Artes, Rua Albuquerque Lins 1.345 | pacodasartes.org.br

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