Regina Vater: a mulher mutante

Na afirmação do corpo, obra pioneira de Regina Vater engaja-se em debate renovado sobre o feminismo

Paula Alzugaray
Escultura interativa Mulher Mutante (1969-2017) (Foto: Paula Alzugaray)

Tina América (1976) é uma referência quando se discute feminismo por meio da arte brasileira. Hoje, quando a demanda de posicionamento político da arte é total, essa obra ganha dupla exposição, em duas grandes instituições. Ela é uma das peças-chave da mostra Oxalá Que Dê Bom Tempo, panorâmica da obra de Regina Vater, no MAC Niterói, até 18/2/18. No Masp, onde integra Histórias da Sexualidade, Tina América ganha voz no núcleo Performatividades de Gênero, engajando-se em um debate renovado sobre o feminismo. Lida à luz da teoria queer de Judith Butler, as 12 personagens femininas interpretadas por Vater desafiariam noções normativas de sexualidade e identidade de gênero por meio da performance.

Tina América foi realizada por Vater ao mudar-se para os Estados Unidos, com o prêmio de viagem ao estrangeiro do Salão de Arte Moderna de 1972. Essa obra contém uma energia de libertação que começou a ser gestada no fim dos anos 1960, quando a artista, vivendo no Rio de Janeiro, sob o regime militar, realizou a série Nós, como forma de protesto e representação do estado psicológico da sociedade brasileira.

Tina América (1976), performance fotográfica registrada com apenas um rolo de filme (Foto: Maria da Graça)

 

A força libertária que a levou a “desatar nós e reatar laços” em pinturas, gravuras e uma performance na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, aparece também em Mulher Mutante (1969), escultura interativa apresentada na 10ª Bienal de São Paulo. A obra, que havia sido perdida, foi reeditada pelo MAC-Niterói. “Na versão original eram várias obras, todas iguais, com as quais o público podia interagir com o corpo feminino de diferentes maneiras”, diz Raphael Cardoso, cocurador da mostra Oxalá Que Dê Bom Tempo, ao lado de Pablo León de La Barra.

O corpo deitado, sensual e colorido, era uma crítica. “Pelo fato de ela ser um objeto manipulável fica clara a sua condição de dependência de um agente ativo externo. A mulher como propriedade do outro é uma situação que até hoje se perpetua”, diz Regina Vater à seLecT.

Silk-screen da série Tropicália, 1968 (Foto: Luiz Ferreira)

 

No entanto, no atual momento histórico, algumas teorias feministas depois, Mulher Mutante (1969-2017) expressa um pioneirismo nos assuntos relacionados à performatividade de gênero. Afinal, com seus membros móveis, é um objeto que performa e não se cristaliza em uma só forma. “Esta é uma leitura que só vem enriquecer a obra, e a partir dela talvez tenha vindo a se desenvolver na Tina América”, reconhece Vater.

A mulher sem cabeça
Mulher Mutante foi realizada na época em que Regina Vater trabalhava na série de gravuras Tropicália (1968-1969). “Em Tropicália, o corpo feminino aparecia sem cabeça, inserido na paisagem tropical, numa estética quase pop”, diz. “Ali era onde eu procurava exprimir nossa vitalidade ensolarada, inspirada em nossa estética popular, digerindo e regurgitando Wesselmann, a quem eu muito admirava. Alguém falou, na ocasião de minha mostra na Petit Galerie, que não ter cabeça era um testemunho ao fato de as mulheres daquela época serem proibidas de pensar.”

Nova versão da capa pensada para o álbum Tropicália ou Panis et Circensis (1968), de Caetano Veloso e companhia, realizada com Bruno Faria a partir da memória da versão original desaparecida (Foto: Paula Alzugaray)

 

Capa do disco de Chico Buarque, Calabar (1973), censurada durante o regime militar brasileiro (Foto: Paula Alzugaray)

Dessa série resultou um desenho pensado para a capa do álbum Tropicália ou Panis et Circensis (1968), de Caetano Veloso e companhia, que acabou sendo preterido por uma versão de Rubens Gerchman. Esta é mais uma obra desaparecida que volta à luz, em nova versão realizada conjuntamente com Bruno Faria, com quem desenhou uma nova capa para o álbum a partir da memória guardada da versão original. O trabalho integra a mostra Versão Oficial, de Bruno Faria, no terraço do MAC-Niterói, concomitantemente à mostra Oxalá Que Dê Bom Tempo.

Outra capa de disco de autoria de Regina Vater que não circulou, desta vez por censura ao conteúdo político e musical do vinil, foi Calabar, de Chico Buarque. Essa obra foi também resgatada por Bruno Faria e integra a instalação Introdução à História da Arte Brasileira, composta de 88 vinis.

Detalhe do livro de artista X-Range, publicado originalmente em 1977 e reeditado pela Ikrek (Foto: Divulgação)

 

À boa onda de resgates junta-se a primeira apresentação, em 35 anos, da videoinstalação Vide o Dolorido (1983), com imagens gravadas na comunidade do Cantagalo, no Rio, e também a reedição do livro de artista X-Range, pela Ikrek. Publicado originalmente, em 1977, pela Galeria Artemúltiple, de Buenos Aires, o livro é composto de fotografias do ambiente doméstico de artistas como Hélio Oiticica, John Cage, Lygia Clark e Vito Acconci. “Nada melhor que a casa de um indivíduo para conter as marcas de sua existência, pois essa casa/ninho em que ele vive torna-se um cosmo em miniatura”, escreveu a artista em 1977.

X-Range seria a semente de um novo corpo de obras, voltado para a afetividade, as relações humanas e o meio ambiente. Uma dimensão delicadamente explorada na série fotográfica Comigo Ninguém Pode (1981), em que a planta que, segundo a artista, “funciona como um avatar do povo brasileiro – se corta, ela renasce” – é documentada como a guardiã das portas das casas da zona norte à zona sul, do Rio de Janeiro a São Paulo. 

Vater volta-se para as relações humanas na série de fotografias Comigo Ninguém Pode (1981) (Foto: Cortesia MAC Niterói, Galeria Jaqueline Martins)

 

Serviço
Oxalá que Dê Bom Tempo – Regina Vater
MAC-Niterói
Mirante da Boa Viagem, s/nº – Niterói
Até 18/02
culturaniteroi.com.br/macniteroi/

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