Relação como obra

Registros de uma conversa com Maurício Ianês sobre performances que deixam rastros na memória

Paula Alzugaray

N° Edição: 26

Publicado em: 11/11/2015

Categoria: A Revista, Entrevista

O Vínculo (2015), de Maurício Ianês. Durante dois meses o artista colocou-se à disposição das vontades do público da exposição Terra Comunal, no Sesc-Pompeia, SP (Foto: Cortesia do artista)

Duas questões antagônicas surgiram na reunião de pauta da edição 26 da seLecT. De um lado, o impacto da performance no corpo do artista, na forma de marcas ou cicatrizes. Do outro, ações não documentadas que não deixam nenhum tipo de vestígio físico e são guardadas apenas na memória de quem as experimentou.

A apuração da segunda pauta se daria a partir de um caso digno de nota: a total falta de registros da Experiência nº 1 de Flávio de Carvalho, artista e pensador transdisciplinar, que ganhou o título de pioneiro da performance no Brasil ao atravessar uma procissão em sentido contrário, usando um chapéu, em 1931. Movido por interesses antropológicos e psicanalíticos, o artista tinha a intenção de testar os limites de tolerância e agressividade de uma multidão religiosa, mas acabou por realizar a primeira performance brasileira de que se tem notícia. A ação foi autodocumentada em ensaio do livro Experiência nº 2: Uma Possível Teoria e Uma Experiência. Mais tarde, como conclusão de uma série de estudos sobre moda, Carvalho voltaria a desafiar convenções sociais desfilando pelas ruas de São Paulo vestindo seu traje New Look, concebido para o “homem dos trópicos”. A ação, formalizada como Experiência nº 3, foi fartamente documentada pelos meios de comunicação da época. A Experiência nº 1, no entanto, se existiu, não deixou registros materiais.

Antes que pudéssemos iniciar a apuração da pauta que vasculharia as ações não documentadas de Flávio de Carvalho e de outros artistas tão instigantes quanto a espanhola Esther Ferrer e a cubana Tania Bruguera, fomos interceptados pelo declínio de Maurício Ianês em participar da discussão sobre as marcas da performance, questão considerada por ele irrelevante.

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Ianês: “No caso de O Vínculo, minha disponibilidade era uma estratégia para desestabilizar a hierarquia entre artista e público” (Foto: Cortesia do artista)

O artista paulistano Maurício Ianês, que em pelo menos dois grandes projetos, Sem Título – A Bondade dos Outros (2008), realizado na 28ª Bienal de São Paulo, e O Vínculo (2015), no Sesc-Pompeia, pautou seu trabalho sobre a experiência compartilhada com o outro, nos pareceu então que contribuiria para uma reflexão sobre a potência das performances que só deixam rastros na memória. Na conversa que se deu por e-mail, fica o registro do início de uma abordagem ao tema.

seLecT: Oi Maurício, tudo bem? Gostaria de interceder aqui no diálogo iniciado pela Camila a respeito das marcas de performances. Não há de fato nada de espetacular nessa abordagem, que encontramos como um ponto de partida para conversar sobre os efeitos, resultados e índices de trabalhos que têm o corpo como mídia. Acredito que as marcas podem elucidar vários aspectos da sua pesquisa. Porém, se você não se sentir confortável com o tema, podemos pensar em outra forma de interlocução. 

MI: Oi Paula, oi Camila, tudo bem? Por aqui, tudo certo! Quando eu disse que me incomodava com o aspecto “espetacularizante” dessa abordagem, eu me referia a algumas estratégias de leitura de performances que insistem em focar na figura do artista, no seu corpo e mais ainda, no que pode ser “mitificador” (quantos neologismos!) e alienante nesse foco. As marcas de um processo que podem ser índices de uma visão do artista como mártir ou herói, o fetiche dessas marcas, cicatrizes, traços e documentos, o que deixa de lado a ação mesmo e o seu aspecto efêmero e momentâneo, que deixa de levar em conta o momento, o contexto, o público, o sistema comercial e institucional da arte, a instituição, o discurso e o diálogo entre artista, público, instituição e sistema e, claro, seus desdobramentos em uma reflexão política, ética, social e estética através do processo sensível de uma ação. (…) Respondi rapidamente e sem ter elucidado essas questões que permeiam meu trabalho, e esse foi um erro meu, mas, como vocês podem ver, já estamos conversando sobre o tema proposto por vocês e, sim, podemos continuar desde que essas questões sejam levadas em conta. Se não lidarmos com o tema desde já com uma visão crítica, podemos perder um momento histórico de grande importância para as artes em geral, esvaziando a força e o poder de transformação (e por que não de revolução?) que a mídia performance tem. Continuamos a conversa? Beijo grande, Maurício.

seLecT: Oi Maurício, obrigada pela elucidação dos pontos que explicam sua resistência em falar das marcas. Sim, continuamos a conversa! Antes de mais nada, devo evocar Walter Benjamin e sua ideia de que “no rastro, apoderamo-nos da coisa”. E como estamos aqui a produzir material documental e reflexão sobre o tema em uma revista, buscamos seguir rastros para nos apoderar do assunto. Mas entendo, pela sua colocação precisa, que sua atenção está no efêmero e momentâneo. No acontecimento. Vamos então começar pelo efêmero. Me ocorre te perguntar se você já fez uma ação artística sem registro algum. Como fez Flávio de Carvalho com sua Experiência nº 1 não documentada. Uma segunda questão importante que atravessa o seu relato do dia 26/8 é a relação com o público. E aqui me lembro de outro artista, neste caso um escritor, que, ao ser convidado para realizar uma conferência na Documenta 13, inventou para si um personagem. Autre, o personagem de Enrique Vila-Matas, tinha dois problemas: a comunicação e a fuga. Com isso, programou uma Conferência para Ninguém, a ser realizada “em um lugar remoto, mais além do último bosque dos arredores de Kassel”. Bjs Paula

MI: Olá Paula, vamos lá! Se eu já fiz alguma ação que não tenha deixado traços ou documentos… Sim, já fiz. Muitas ações e performances que fiz no começo da minha carreira não foram documentadas, além de algumas outras mais recentes. Algumas dessas ações sem documento foram pensadas expressamente para não terem registro mesmo, ou registros “fracos”, no sentido de deixar claro que daquela obra o que importava de fato era a vivência. Isso gera muitas complicações, principalmente numa época de trânsito de imagens que acabam sendo mais relevantes que o momento. Uma dessas complicações é que, ao contrário da performance que você cita da Documenta – uma performance para ninguém –, a ação acaba não tendo reverberações dentro do sistema da arte, tão dependente da espetacularização (financeira e simbólica) das imagens e da figura histórica fetichizada do artista – o artista como “guru”, o ego do artista como produto etc.

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O Vínculo, de Maurício Ianês (Foto: Cortesia do artista)

seLecT: A julgar por ações recentes suas, uma performance para ninguém parece ser precisamente o revés do seu trabalho, concorda? Gostaria de ouvir o seu relato sobre seu diálogo com público, instituição e sistema nessas duas performances específicas, que, como te comentei quando te visitei no seu espaço de livre-arbítrio no Sesc, parecem ser opostas e complementares (na primeira, você depende da generosidade do público e, na segunda, coloca-se à disposição dos desejos dos outros). Um abraço, Paula

MI: Sim, uma performance para ninguém é o oposto do que eu procuro com meu trabalho. Tenho procurado descentralizar o papel do artista, da instituição e do sistema da arte, na tentativa de re-situar a obra de arte em um lugar mais amplo, sem hierarquias, através de uma linguagem de uso comum que não seja verticalizada, mas, ao contrário, horizontalizada, inclusive no seu desdobramento temporal. De certa forma, as ações que você citou (Sem Título, 28ª Bienal, e O Vínculo, Sesc-Pompeia) se desdobram e ecoam para além do seu limite espacial e temporal. As relações criadas lá foram em muitos casos perpetuadas para um diálogo que invade a minha vida e a vida dos participantes: relações que acabam transformando e gerando reflexões não só sobre arte, mas sobre a sociedade e as relações individuais fora do contexto da arte. Essas são marcas imateriais muito mais relevantes para o meu trabalho e a minha reflexão, e têm uma potência transformadora muito forte. No caso de O Vínculo, a minha disponibilidade era uma estratégia para desestabilizar a hierarquia entre artista e público. Uma vez que isso era alcançado, eu mudava de atitude e me recolocava em uma situação de equilíbrio dentro da ação, de modo que todos, inclusive eu, teríamos o mesmo poder. Além disso, o poder da instituição, no caso o Sesc, era continuamente questionado, muitas vezes de formas radicais. Como a ação previa a criação de um espaço autônomo (auto+nomos – nomos=lei em grego), este era de fato um espaço sem leis, e as regras eram criadas de acordo com as necessidades das relações ali estabelecidas, através do diálogo com o público. Até onde eu sei, essa situação também gerou marcas bastante fortes na instituição. (…) Em geral, tenho uma relação bastante clara com a questão dos traços e documentos: na maioria das minhas ações, os registros têm valor como documento histórico, mas não como produto artístico de mercado. A obra deu-se na relação, não nos seus traços. Algumas obras, no entanto, geram traços que a meu ver possibilitam uma reflexão que vai além da vivência presente, e estas então são classificadas como obras independentes. Estarei on line a maior parte da tarde. Se você quiser me perguntar mais coisas, estarei disponível. Beijo grande, obrigado! Mau.

seLecT: Obrigada pelo diálogo, que acredito ter chegado a um ponto final, por ora. Como você sugere ilustrar nossa conversa? Talvez registros de O Vínculo? bjs Paula

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