Renata Bittencourt dirige o Inhotim

Em entrevista, nova diretora do Inhotim fala sobre a chegada a Brumadinho em contexto pós-tragédia e sobre representação do negro na arte brasileira

Leandro Muniz

Publicado em: 22/04/2019

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

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Renata Bittencourt, a nova diretora executiva de Inhotim (Foto: William Gomes)

Renata Bittencourt foi anunciada na semana passada como a nova diretora executiva do Instituto Inhotim. Entre suas experiências constam importantes contribuições como diretora de processos museais do IBRAM, secretária da Cidadania e da Diversidade Cultural no MinC,  gerente do Núcleo de Educação do Instituto Itaú Cultural, entre outras, além de sólida trajetória acadêmica. Bittencourt realizou mestrado e doutorado pela UNICAMP onde investigou as representações do negro na produção artística do século XIX e XX. Em entrevista à  seLecT, ela comenta sua trajetória, apresenta suas propostas para a instituição e reflete sobre o lugar do negro no meio cultural atual.

seLecT: Poderia comentar sobre sua trajetória acadêmica? Quais desdobramentos de sua pesquisa você vê em sua atuação institucional?
Renata Bittencourt: Desenvolvi investigações sobre a representação do negro na arte brasileira orientada por Jorge Coli, brilhante e generoso como todos desejaríamos ser. O trabalho em instituições culturais públicas e privadas, e também a passagem pelo meio acadêmico me propiciou o encontro com pessoas de fortes convicções acerca da importância da cultura para a vida humana, se constituiu para mim como um valor arraigado. Chegar em Inhotim nesse contexto pós-tragédia estabelece como condição a manutenção dessa perspectiva em primeiro plano, uma vez que a instituição é chamada a contribuir com a regeneração de uma cidade, alquebrada em mais de um sentido.

Parece haver um continuum entre fatos que invocam natureza da fênix. Vivemos em um mesmo ano a celebração de 200 anos de Museus no Brasil e a aniquilação pelo fogo de nossa primeira instituição museológica, tragédia que convidou a sociedade a refletir sobre o papel e a importância das instituições museais. É preciso fortalecer a consciência de nosso corpo social sobre o papel fundamental da memória, da cultura e das artes, e nos fortificarmos como coletividade também a partir daí.
A inserção de Inhotim em Brumadinho neste momento convida ao reconhecimento do caráter fundamental da cultura para as comunidades. Inhotim é o maior empregador da cidade, com 600 pessoas vinculadas direta ou indiretamente, e também o principal impulsionador de um circuito turístico que gera empregos e renda. Para além disso pode se estabelecer como espaço de contato, troca, cura, integração e imaginação de futuros. Apostamos na conquista de novos patrocinadores que compreendam que o apoio à manutenção e operação, de Inhotim, pode dar suporte a todo esse arco de potências. Já contamos com algumas empresas que iniciaram, mantiveram ou ampliaram seu apoio ao Inhotim neste contexto pós-tragédia, como Itaú, Unimed BH, Localiza, Aliança energia, Pirelli, CBMM e Taesa. Procuramos também novos parceiros para a realização de projetos artísticos e socioeducativos que resultam em contribuições para Brumadinho e a cena cultural brasileira.

seLecT: Quais são seus planos iniciais para sua nova gestão como diretora em Inhotim?
Renata Bittencourt: Um aspecto importante do trabalho que desejamos robustecer diz respeito à dimensão educativa da instituição. Em relação ao acervo artístico, temos planos que dependem da mobilização de recursos. Um projeto que vem sendo articulado é o do novo pavilhão da artista Yayoi Kusama, com conclusão prevista para o final de 2020. Há ainda a previsão de inauguração de novas exposições temporárias ainda este ano, e a apresentação de uma escultura em grande escala ao ar livre do norte-americano Robert Irwin. Também estamos envolvidos com o restauro da obra De Lama Lâmina, do artista Matthew Barney, que evidencia um compromisso do Inhotim com a pesquisa em conservação de arte contemporânea.
Os acervos de Inhotim são uma realização estupenda de seu idealizador Bernardo Paz. A própria escolha de uma localização fora dos circuitos previsíveis das capitais foi marca de ousadia em uma história desde sempre ligada ao território que é a ‘casa’ da instituição. A prioridade no momento é reforçar nosso convite para que as pessoas visitem Inhotim sem medo. Um dos convites que fazemos é para a programação musical com curadoria de Antonio Grassi que abre com o show da turnê “Lenine em Trânsito” no dia 27 de abril, segue com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, e demais apresentações. As estradas estão abertas e a cidade espera com carinho a chegada de visitantes. Brumadinho e Inhotim dependem da sensibilização e do envolvimento da sociedade, para que a região siga dinamizada.

seLecT: Como você vê as políticas recentes de exposições como Histórias Afro Atlânticas no MASP e no Instituto Tomie Ohtake ou Territórios, na Pinacoteca do Estado?
Renata Bittencourt: Estes museus moveram diferentes variáveis relacionadas ao conteúdo e ao público, a partir da ênfase que elegeram para aquelas exposições, de modo similar ao que se faz usualmente com mostras que abordam a cultura LGBT, a produção de artistas mulheres, italianos ou judeus. Um dos impactos observados é a modificação temporária da demografia do público visitante, que difere do habitualmente engajado por essas instituições museológicas.

Foi a ideia de heterogeneidade que foi colocada em pauta ali, e que se estabelece como prioritária para Inhotim na perspectiva do fortalecimento de seus vínculos com o território onde se insere. Somos solidários às famílias e à população e queremos que Inhotim seja um espaço de convívio e encontro, abraçando a diversidade da comunidade, que é espelhada no corpo de colaboradores da instituição. Cerca de 80% das 600 pessoas empregadas pelo Instituto são da região, sendo um contingente herdeiro do legado das comunidades quilombolas da região.

A ação inaugural desse alargamento do relacionamento com a cidade de Brumadinho foi o estabelecimento de gratuidade para todos os residentes em qualquer dia da semana. Nossa primeira semana de cadastramento resultou em cerca de 2.000 registros feitos presencialmente na rodoviária de Brumadinho em meio a atividades educativas, e também via e-mail. Trata-se de um gesto de expansão de diálogo que intenciona avançar para a efetiva participação. Há uma agenda de diálogo com representantes da sociedade, lideranças, quilombolas e responsáveis por projetos culturais da região, e também o desejo de fortalecer o protagonismo dos jovens envolvidos em ações do instituto. Essas são as prioridades da abordagem da questão da diversidade por Inhotim no contexto presente.
Masp, Tomie Ohtake e da Pinacoteca abordaram a questão da diversidade com ênfase no teor daquelas exposições, que combinaram méritos de diferentes ordens. Em ambas foi aberto um valioso espaço para que os públicos pudessem ter mais contato com a produção de artistas negros. Alguns contemporâneos, outros históricos, parte deles nascidos no país, e outros provenientes de outras partes do mundo.

A exposição da Pinacoteca, que teve curadoria de Tadeu Chiarelli, partiu do estudo do acervo do museu, e considerou o legado de aquisições e exposições de Emanoel Araújo durante os anos em que dirigiu a instituição. O partido adotado considerou a história da coleção, ao mesmo tempo em que buscou integrar nomes atuantes na cena contemporânea, conquistando novas aquisições. Não é pouco ter uma exposição que investiga as sensibilidades e o legado de artistas negros brasileiros. Sugeri à curadoria uma parceria com os editores negros da revista O Menelick 2º Ato, que articulou uma interlocução provocadora entre artistas, pensadores e um público de jovens afro-descendentes em um dia de debates, bem como uma edição da publicação especialmente dedicada à exposição.
A exposição Histórias Afro Atlânticas levou um grande número de pessoas negras de diferentes idades a visitar a exposição. Pude contribuir com alguns dos catálogos do MASP com textos abordando artistas como Maria Auxiliadora, Heitor dos Prazeres, Rubem Valentim, Melvin Edwards e Tarsila do Amaral, em publicações que incorporaram outras vozes negras à renovação das reflexões. Foi interessante observar a incorporação de obras ao acervo, ampliando os sentidos da historia da arte narrada pela coleção, e também ver modos de representação de africanos e seus descendentes pela arte no contexto da diáspora.

seLecT: Ainda há uma subrepresentação de artistas negros no mercado e nas instituições, bem como no campo curatorial e da pesquisa teórica. Como você percebe esse cenário e que políticas deveriam ser implantadas para reverter esse quadro?
Renata Bittencourt: Vejo um cenário em transformação, com vozes negras trazendo contribuições momentosas para a criação, a reflexão e a prática. Rosana Paulino, nome importante da arte brasileira contemporânea, é neste momento protagonista de uma linda exposição individual que deixou a Pinacoteca e seguiu para o Museu de Arte do Rio, e já atuou também como curadora em uma exposição do Itaú Cultural. Amanda Carneiro, curadora da exposição de Sonia Gomes no Masp, enriquece nossa reflexão acerca de Rosana com seu artigo publicado na Terremoto. Helio Menezes, curador, teve papel fundamental no desenho da exposição Histórias Afro Atlânticas, premiada como melhor exposição do ano pelo New York Times. A própria revista O Menelick 2o  Ato que se descreve como um projeto editorial de valorização da produção cultural da diáspora negra, traz nomes como Nabor Jr., Luciane Ramos Silva, Alexandre Silva e Christiane Gomes. Renata Felinto, artista e docente, investigou em seu doutorado a presença e a ausência de artistas no elenco de galerias de arte, e também a constituição do público que atende às mostras que esses espaços promovem. Fabiana Lopes, pesquisadora da New York University é hoje curadora adjunta da Bienal do Mercosul. Todos esses nomes estão inseridos em um sistema das artes que parece disposto reconhecer, cada vez mais, a pluralidade como valor essencial.

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