Repercussão de classe

Curadores visitantes e professores da EAV Parque Lage escrevem carta de repúdio à rescisão do contrato pela Secretaria de Estado da Cultura

Luciana Pareja Norbiato

A rescisão do contrato com a OS Oca Lage por parte da Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro deixou muita gente indignada, a começar por curadores visitantes e professores da EAV Parque Lage. Beatriz Lemos, Bernardo de Souza, Bernardo Mosqueira, Daniela Labra, Daniel Jablonski, Luisa Duarte, Marta Mestre e Pablo Lafuente escreveram uma carta de repúdio, assinada por um contingente de personalidades do mundo das artes visuais. O abaixo-assinado está aberto a todos no site da Avaaz.

Procurados por seLecT, Paulo Miyada, Cristiana Tejo e Adriano Pedrosa repercutiram a medida, tomada de forma amigável, mas unilateral por parte do orgão do governo estadual. Miyada, curador do Instituto Tomie Ohtake, afirmou que “é uma lástima nossa dificuldade em combinar a empolgação que abunda no Brasil diante de novos princípios, eventos e iniciativas com a capacidade de dar continuidade aos projetos iniciados, sustentar gestões e ideias por mais de dez, 15 anos. Não é nem possível mensurar o desperdício de energia e recursos que se dá quando um projeto ainda em fase de implantação e crescimento é interrompido dessa maneira”.

A curadora independente Cristiana Tejo afirmou para seLecT: “Eu lamento que neste momento de grande fragilidade econômica e política do país, as instituições de arte estejam sendo tão abaladas. O modelo de OS é novo no Brasil e ainda está sendo consolidado, aperfeiçoado. Ainda não temos muitos dados para opinar se este modelo é ruim ou não. Entretanto, mesmo que instituições como o Parque Lage e a Casa França-Brasil não dependam da OS para existir, este tipo de situação instabiliza os processos institucionais e interrompe irresponsavelmente os projetos pedagógico e programático de profissionais de grande experiência e renome internacionais.”

Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, disse que “é lastimável a recisão do contrato entre o Estado do Rio e a Oca Lage, a OS que ainda administra a Escola de Artes Visuais do Parque Lage e a Casa França Brasil, pouco mais de um ano após terem iniciados os trabalhos com seus novos diretores, Lisette Lagnado e Pablo Léon de la Barra. Muito esforço e trabalho foi colocado nesse projeto, e eu acompanhei um pouco o processo. Entretanto, a recisão foi amigável, e, ainda que traumática, é compreensível na situação das finanças do Estado – se a área da saúde pública passa por dificuldades, é de se esperar que a cultura também sofra. Espero que as instituições possam reencontrar seus rumos rapidamente.”

Abaixo está a íntegra da carta divulgada pelos curadores e professores da escola de artes visuais:

“Manifestamos nosso mais absoluto repúdio à decisão da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro de rescindir o contrato em curso com a atual administração da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e da Casa França-Brasil, pondo, abruptamente, um fim ao programa artístico e pedagógico que vem sendo desenvolvido há dois anos por Márcio Botner, Lisette Lagnado e Pablo Léon de la Barra à frente dessas instituições. Torna-se, portanto, imperiosa a articulação de um posicionamento público contrário ao esfacelamento de uma das mais relevantes, corajosas e promissoras iniciativas na esfera artística nacional.

Diante do avassalador empobrecimento do Governo de Estado do Rio de Janeiro e da crise generalizada que atravessa o país e suas instituições culturais, a decisão da Secretaria de Estado de Cultura sinaliza uma ideia equivocada de gestão pública com a qual não podemos compactuar. Gestos de apagamento unilaterais revelam posturas autoritárias, um constante voltar à estaca zero, anulando assim não apenas as possibilidades de construção de novos cenários para a cultura do país como também abrindo um grave precedente para que não mais se possa confiar na possibilidade de ações conduzidas pela sociedade civil. Muita coisa ainda pode e deve ser feita para a atual gestão encontrar seu ponto de equilíbrio, mas para que possamos cobrar desta OS (Organização Social) aprimoramentos, é preciso antes exigir do Governo que permita a ela dar consequência ao trabalho iniciado. Só é possível fazer críticas a uma gestão julgando-a pelo que fez, e não pelo que deixou de fazer, especialmente se em função da ausência dos meios previamente contratados.

A importância histórica da EAV Parque Lage e da Casa Franca-Brasil na vida cultural brasileira exige – particularmente em tempos de recrudescimento de posicionamentos políticos conservadores – dirigentes capazes de fazer face não apenas às dificuldades econômicas como também aos desafios de ordem política e intelectual que ameaçam a formação de um público crítico comprometido com a transformação cultural de nossa sociedade. Defendemos a manutenção de um programa educativo e cultural que entende as práticas artísticas como derivadas de um mundo contemporâneo complexo, em permanente transformação, o qual exige ações e articulações culturais que estabeleçam visões transdisciplinares, buscando assim constituir uma escola de arte livre, democrática e transgressora – algo, senão inédito, raro em um País marcado por instituições de ensino artístico caracterizadas pelo academicismo, pela burocracia e pelo distanciamento de realidades externas ao mundo da arte stricto sensu.

Para levar a cabo tais programas, confiamos nas experiências profissionais e no trabalho realizado à frente da EAV Parque Lage e da Casa França-Brasil por Márcio Botner, Lisette Lagnado e Pablo Léon de la Barra. Suas atuações no campo da arte desconhecem fronteiras, privilegiam o livre-trânsito e o livre-pensamento, e demonstram sobrada capacidade de interlocução local, nacional e internacional, qualidades estas que, acreditamos, sejam fundamentais em momentos de crise, tal qual este que ora assombra as contas do Estado do Rio de Janeiro.

Esta chamada pública foi organizada por um grupo de cidadãos, artistas e trabalhadores da cultura que acreditam ser papel do Estado a manutenção de experiências institucionais que entendam as relações entre cultura e sociedade como resultado da diversidade e da heterogeneidade, e que saibam preservar a abertura ao diálogo. Esperamos, portanto, que as recentes decisões da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro possam ser revistas em favor da continuidade do atual projeto artístico e pedagógico da EAV Parque Lage e da Casa França-Brasil.”

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