Residência artística Cambridge: vozes plurais

Hoje, o antigo Hotel Cambridge está ocupado por uma população sem teto e recebe artistas que realizam residência

Luciana Pareja Norbiato

N° Edição: 31

Publicado em: 22/09/2016

Categoria: A Revista, Reportagem

Fachada do outrora luxuoso Hotel Cambridge, que atualmente recebe artistas pelo projeto de residência artística realizado dentro da ocupação do MSTC e Grist (Foto: Luciana Pareja Norbiato)

O letreiro onde se lia o nome do edifício não está mais lá: Hotel Cambridge. Em seu lugar, tapumes e pichações. Desde 2010, quando foi desapropriado pela prefeitura de SP por dívidas, o prédio, que já foi um dos endereços mais suntuosos da cidade, com hóspedes como o músico norte-americano Nat King Cole, teve sua decoração de luxo transformada em entulho. Destinado à moradia popular, foi invadido em 2012 por uma população sem-teto, cansada de esperar a efetivação do projeto. Unidos para torná-lo um local residencial de fato, fizeram um mutirão de limpeza e verteram os quartos em apartamentos provisórios, sob a liderança do Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), seguido do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo (Grist). Ali, todo mundo zela pelo bem comum e interage. Há equipe médica, psicólogo, salão de beleza, teatro, cozinha e oficina de costura, além da biblioteca comunitária, onde são realizados eventos.

Inspirada pelas incursões de sua tia, a cineasta Eliane Caffé, durante as filmagens de Era o Hotel Cambridge (2015), a curadora independente Juliana Caffé sentiu que precisava levar as artes visuais para lá. “Durante as filmagens, fui me aproximando das pessoas, principalmente da Carmen Silva, uma das líderes do MSTC. Ela abriu um espaço para mim lá, mas eu não sabia o que fazer. No fim do ano passado, encontrei o curador Yudi Rafael e idealizamos o projeto”, diz Caffé, cocuradora da Residência Artística Cambridge, à seLecT.

A proposta é levar quatro artistas para se relacionarem com o prédio, seus moradores e seu entorno, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. “Escolhemos nomes com projetos experimentais e colaborativos, sem pretensão de produzir obra para o mercado”, conta a cocuradora. O primeiro foi Ícaro Lira, que terminou sua estada em junho, depois de criar grupos de trabalho e ações que fizeram a ponte entre os moradores e o entorno. Segundo Caffé, “com as atividades, as pessoas de fora começaram a ver a ocupação com outros olhos, entendendo a situação de quem luta por moradia”.

“Ícaro fez a ligação de dentro com fora, nós vamos ficar dentro e depois vem a Virginia de Medeiros, que vai levar esse universo para fora com tudo”, diz Rafael Escobar, que entrou na residência em julho com Jaime Lauriano, na primeira parceria da dupla. Ex-colegas de visuais do Centro Universitário Belas-Artes, eles querem usar na ocupação a dinâmica com que se colocam na cena artística. “Nossos trabalhos lidam com relações. A materialidade do trabalho é o índice das relações com pessoas e contextos”, diz Lauriano à seLecT. Nos cerca de quatro meses, eles querem conhecer e conversar com os moradores. “Somos bons de festa, é nossa estratégia de atuação”, brinca Escobar.

Virginia de Medeiros que se cuide. Ela, que pretende morar no prédio durante o período de sua residência, vai ter de encarar os 15 lances de escada para chegar ao quarto que serve aos artistas, no último andar. A vista do terraço, que também é horta comunitária, compensa.

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