Residência moderna

Sem aludir a uma modernidade em ruínas, a primeira empreitada da nova Luciana Brito Galeria deu bons resultados

Mario Gioia
Imagem do novo espaço que abriga Luciana Brito Galeria (Foto: Cortesia Galeria Luciana Brito)

Em recentes intervenções, o teórico norte-americano Hal Foster tem sublinhado a dificuldade da arquitetura de museus e instituições em lidar com a videoarte e com a performance, entre outras manifestações, no que se refere à conservação, exibição e outros procedimentos básicos desses centros. Assim, a tipologia de tais espaços parece sempre defasada diante das novas configurações da arte contemporânea. Outro dado importante no circuito atual das artes visuais é a discussão de novas proposições e modelos da galeria de arte, que cada vez mais deixa de ser só um cubo branco, com trabalhos e peças pendurados em suas paredes, e passa a ser uma incubadora de produções mais experimentais, menos comerciais. Em São Paulo, o Situ, da Leme, e o CLab, da Blau Projects, têm desenvolvido projetos bem-sucedidos nessa linha, entre outros programas.

Por isso, é elogiável a mudança da Luciana Brito Galeria – que tem em seu elenco nomes como Marina Abramović, Allan McCollum e Alex Katz – do hoje aborrecido bairro de Vila Olímpia para os Jardins, não se resumindo a uma mera nova localização. A ousadia também se explica porque o novo lócus do estabelecimento é uma casa modernista tombada, a Residência Castor Delgado Perez, projeto de Rino Levi (1901-1965) datado de 1958. Além das restrições e cuidados imprescindíveis a um patrimônio da cidade, uma nova orientação conceitual e expositiva do lugar se impõe. Apenas nos fundos do terreno há um espaço que lembra a antiga galeria e, por isso, muito do que será agora exposto terá de criar diálogos com o espaço, suas memórias e sua emblemática arquitetura.

A primeira empreitada deu bons resultados. Residência Moderna, coletiva que seguiria até o fim de maio na Luciana Brito, contou com obras de 11 artistas representados pela galeria que, em sua maioria, criaram trabalhos específicos. Um dos dados interessantes é que a ocupação de um antigo espaço doméstico, de linhas modernas, não fomentou peças que aludissem apenas a uma modernidade desmanchada, a uma urbanidade em ruínas, tão presentes em mostras de escopo similar.

Por isso, um tom mais solar parece preencher as antigas dependências residenciais. Pois a luz é central no projeto arquitetônico de Levi, com um destacado paisagismo de Burle Marx (1909-1994), e faz com que a circulação pelos variados espaços seja fluida. Também se desenharam com interesse embates entre o público e o privado, o ostensivo e o introspectivo, o tecnológico e o vernacular, por exemplo, estando patentes tanto nas próprias obras de arte como na relação delas com as linhas arquitetônicas desse lugar – a frisar o excelente trabalho de renovação feito pelo Piratininga Arquitetos Associados. Entre os destaques, podem ser citados o fotográfico de Caio Reisewitz e Rochelle Costi, além dos tridimensionais de Héctor Zamora, Pablo Lobato e Tiago Tebet. Em junho, a veterana Regina Silveira tem individual na nova galeria.

Serviço
Luciana Brito Galeria
Av. 9 de julho, 5.162, São Paulo
www.lucianabritogaleria.com.br

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