Imersões de Norte a Sul

Desde o Capacete, a 1ª residência artística do Brasil, surgiram espaços voltados para a pesquisa, a criação e a experimentação artística

Luana Fortes e Paula Alzugaray
Experiência da chilena Carolina Oltra no LabVerde, em 2018, compara as redes de relações entre territórios com a organização da natureza debaixo da terra (Foto: Rogério Assis)

NORTE
LABVERDE (desde 2012)
Floresta Amazônica, Manaus, AM | labverde.com
“Estamos interessados em propostas artísticas que entendam a natureza como sujeito, que não sejam uma mera representação da natureza, mas propostas que nos ajudem a entender o que é a natureza em tempos de crise ambiental”, diz Lilian Franji, curadora e diretora do LABVERDE. Articulado sobre a lógica de imersão, o programa criado em 2012 é organizado em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e seleciona artistas por meio de edital aberto para transitar pela Reserva Florestal Adolpho Ducke durante dez dias, sem custos. Durante o período, são feitas expedições guiadas com especialistas das áreas de ciências humanas e naturais, conversas que abordam a Amazônia do ponto de vista tanto biológico quanto político, além de reuniões sobre o desenvolvimento e apresentação de projetos artísticos, que posteriormente ganham um catálogo online. Os artistas são alojados na sede do Inpa, onde também encontram laboratórios, trilhas e auditório, e um barco regional é disponibilizado para proporcionar acesso a comunidades costais e ecossistemas aquáticos. “Não estamos interessados em ser uma residência de produção, mas sim de pesquisa. Portanto, entendemos a residência como parte do processo criativo, ou o pontapé do processo que depois vai ser materializado ou não, no futuro”, diz Franji. “Nosso objetivo é que pesquisas se iniciem durante o programa, as quais podem virar, ou não,
produtos/objetos culturais.”

Na edição de 2018, uma das participantes foi a chilena Carolina Oltra.
A artista realizou intervenções em cinco pontos da reserva florestal, usando cordas vermelhas como meio de replicar o entrelaçamento de raízes sob a terra. Oltra traça um paralelo entre as redes da natureza e as relações entre os territórios do Brasil e do Chile. Com o trabalho, busca novas formas de existir e interagir com o meio ambiente, diante do futuro cada vez mais incerto da floresta amazônica.

Detalhes da Residência São Jerônimo

Residência São Jerônimo (desde 2016)
Belém, PA
Até 2016, Alexandre Sequeira morava na casa de linhas modernistas, construída na década de 1930, onde hoje ocorre a Residência São Jerônimo. A função do espaço mudou quando ele passou a pesquisar o conceito de autoficção poética diante da memória da casa e da cidade de Belém do Pará, hoje assunto de sua tese de doutorado, e decidiu abrir as portas para que artistas residentes pudessem partilhar de seu interesse. “Esta casa está cheia de memória familiar e de um recorte histórico da cidade. Me interessou muito pensar como a memória perdura para além dos seus proprietários, como ganha outras apropriações”, diz Sequeira. O período de permanência de um residente depende de suas pretensões e agendamentos são feitos a partir de uma conversa sobre as relações do interessado com o eixo conceitual da residência. A São Jerônimo acolherá um artista contemplado pelo Prêmio Foco ArtRio 2019.

Dasas da Residência Sacatar, na Ilha de Itaparica (Foto: Acervo Fundação Sacatar)

 

NORDESTE
Sacatar (desde 2001)
Ilha de Itaparica, BA | sacatar.org
Uma das mais conhecidas residências artísticas brasileiras é a do Instituto Sacatar, na Ilha de Itaparica, Baía de Todos os Santos, na Bahia. Direcionado para profissionais de todas as nacionalidades, idades e disciplinas criativas, o projeto interdisciplinar estimula o envolvimento com a comunidade da ilha baiana e seleciona de 20 a 30 artistas anualmente por meio de análise de textos e/ou portfólios e entrevistas. “A razão de existir do Sacatar é exatamente para prover esse espaço-tempo e condição para que o artista possa dar vazão à sua força criativa”, diz Augusto Albuquerque, administrador do instituto. A residência não cobra nada do participante – fora uma taxa de inscrição de US$ 35 – e não tem como contrapartida a produção de um trabalho. “A participação no Sacatar é considerada um prêmio, e a gente entende que essa coisa de prêmio e cobrança não casam muito bem”, diz Albuquerque. “Os artistas, geralmente, já têm tantas pressões no dia a dia que agregar mais uma pressão durante um programa de residência não nos parece muito coerente. Então, não há obrigação de o artista produzir nada. Ele é livre para viver a experiência da melhor maneira possível.”

O programa dura oito semanas e tem início com uma semana de recepção. Nesse momento, os residentes se familiarizam com a ilha, são instruídos sobre como se locomover para ter autonomia durante a sua estada e participam de conversas em espaços culturais em cidades próximas, para que possam estabelecer relações com a comunidade local.

A residência nas falésias da Praia da Arapuca recebe um projeto de pesquisa que discute o circuito local paraibano (Foto: Divulgação)

 

Arapuca Arte Residência (desde 2007)
Projeto Movimento, Conde, PB | @movimentoarapuca
A integração arte e vida/arte e natureza é o conceito da Arapuca Arte Residência, localizada sobre as falésias da Praia da Arapuca, em Conde, município da Região Metropolitana de João Pessoa, na Paraíba, um daqueles lugares que parecem encravados num pedaço do paraíso. O espaço atualmente recebe o Movimento, projeto coletivo e independente que tem a finalidade de colocar em discussão a situação e o lugar que a arte contemporânea ocupa na Paraíba, em relação ao contexto brasileiro. Com curadoria de Valquíria Farias e Conceição Myllena, os trabalhos tiveram início em dezembro de 2018, em encontros mensais, ao longo de três dias de imersões em que o grupo discute, produz e recebe convidados. “Nosso projeto busca fortalecer o circuito local e discutir as políticas públicas, já que não temos uma galeria que abarque essa produção jovem surgida em 2010”, diz Myllena. A Arapuca é uma residência paga, coordenada pelo artista plástico francês Serge Huot, desde 2007. Por lá passaram artistas e curadores brasileiros e franceses, mas esta é a primeira ação independente que acontece no espaço, com apoio logístico para a sua realização. “Fomos influenciados pelo projeto inicial do Capacete, que começou colocando em discussão o circuito local do Rio de Janeiro”, diz Valquíria Farias, diretora da Galeria Casarão 34, equipamento da Fundação Cultural João Pessoa, que visa difundir a produção local em um programa de exposições e ações de formação do artista e do público em geral.

Frame do vídeo Barro Oco de Carlos Mélo, realizado durante a Residência BeloJardim (Foto: Carlos Mélo)

 

Residência Belojardim (desde 2017)
Belo Jardim, PE | @residenciabelojardim
“Aprender com um lugar e construir um processo que seja significativo para as partes envolvidas é uma tarefa complexa, delicada e de longo termo, e estas têm sido as premissas do projeto Residência Belojardim”, escrevem as curadoras Cristiana Tejo e Kiko Mazzucchelli. “Não queremos importar modelos já consolidados mundo afora e bastante populares, mas que não condizem com a realidade de Belo Jardim e do seu circuito artístico; por isso, nos últimos dois anos, temos experimentado formatos de intervenções e perfis de artistas para consolidar a nossa imersão na cidade.”

Marcelo Silveira e Carlos Mélo, “filhos do Agreste pernambucano”, segundo as curadoras, foram os dois artistas convidados em 2017 e 2018. Mélo trabalhou na comunidade quilombola do Barro Branco. Com isso, relacionou-se não apenas com o contexto local, mas tocou em questões que estão na pauta do dia a dia do País, em momento de tomada de consciência da permanência das estruturas coloniais no cotidiano brasileiro. Com Camila Sposati, convidada em 2019, a residência se abre para artistas de outras regiões do Brasil. Ela desenvolve na região o projeto Phonosophia, uma ramificação da instalação apresentada na 3ª Bienal da Bahia, em 2014. Tratava-se de uma versão contemporânea de um Teatro Anatômico, que especulava sobre a anatomia da Terra e remetia aos instrumentos de Walter Smetak e sua influência sobre os músicos e artistas que formariam o núcleo do movimento Tropicália nos anos 1960.

“Além de Camila, faremos uma convocatória de projetos para que umx artista local possa também participar”, diz Cris Tejo à seLecT. “A outra novidade desta edição é a implementação do núcleo educativo, coordenado por Mônica Hoff. Compreendemos esse núcleo de uma maneira orgânica que dialoga com todas as partes, em especial com xs artistas, a curadoria e a produção. O núcleo é formado ainda por Rita Vênus (coordenadora local), Vanessa Aparecida e Pierre Tenório, artistas e educadorxs
de Belo Jardim.”

A Usina desativada de Santa Terezinha, no município de Água Preta, na zona da Mata Sul de Pernambuco, onde ocorre a residência da Usina de Arte (Foto: Andrea Rego Barros)

 

Residência Usina de Arte (desde 2015)
Água Preta, Pernambuco | usinadearte.org
O programa de residências artísticas do Centro Cultural Usina de Arte acontece desde 2013, extraoficialmente. Teve início com a participação do artista Hugo França e depois foi estruturado formalmente em 2015 pelo artista e curador do projeto, José Rufino. Por enquanto, acontecem dois tipos de residência. Um deles é feito por meio de convites a artistas e escritores e tem seus pormenores combinados com cada um deles. O outro tipo ocorre por meio de parceria com o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam), do Recife, que tem por objetivo promover a arte contemporânea pernambucana. O museu escolhe quais artistas participarão das residências na Usina de Arte, que acontecem nos espaços apelidados de Casa dos Ladrilhos, Casa Moderna e Casa do Açude, enquanto a Associação Jacuípe, gestora do Centro Cultural, disponibiliza recursos. Os artistas participantes produzem trabalhos para exibição permanente no jardim botânico da Usina de Arte. Residências por meio de convocatória aberta também estão nos planos do espaço e devem abrir em 2020.

A casa-veículo-ateliê Motorhome (Foto: Divulgação)

SUL
Programa Público de Performance Península (desde 2016)
Rio Grande do Sul | pppp.art.br
Iniciativa da Galeria Península, o Programa Público de Performance Península (PPPP) tem como foco estimular práticas performativas contemporâneas por meio de oficinas, grupos de pesquisa e residências artísticas. Um dos projetos é o MOTORHOME, que leva um grupo selecionado via edital para residir em uma espécie de casa-veículo-ateliê que viaja por um mês por cidades do Rio Grande do Sul. O programa propõe um novo formato para o PPPP, que seja mais móvel e permita uma ampla experiência de deslocamento. Os participantes são incentivados a realizar ações públicas que podem ser conversas e oficinas ou performances e caminhadas.

SUDESTE

Grupo de Acompanhamento Rede NAMI no Capacete (Foto: Divulgação)

Capacete (desde 1998)
Rio de Janeiro | capacete.org
O Capacete, a mais antiga das residências artísticas brasileiras, foi criado pelo artista e empresário Helmut Batista num apartamento no bairro carioca do Flamengo, em 1998, e hoje funciona num casarão reformado na Glória, com direito a bar e livraria. Em 2018, foi lançada a publicação comemorativa CAPACETE 20 Anos – Comendo, Bebendo, Pensando, com textos de colaboradores e artistas que já passaram por lá. O Capacete já promoveu residências nos mais diversos formatos com profissionais brasileiros e estrangeiros, sempre pensando no caráter interdisciplinar das atividades culturais.

“Vejo o Capacete como um lugar que sempre se autorrefletiu muito e por isso se modifica bastante. A residência nunca existiu em um modo que se repete ainda hoje”, diz Camila Rocha Campos, diretora artística do espaço desde 2017. “Como definição, a gente não é simples, a gente é complexo”, complementa. O espaço oferece residências de três, seis ou 12 meses, bancadas a partir de economias próprias. Os participantes estrangeiros normalmente vêm a partir de parcerias com instituições internacionais que arcam com os custos da viagem do artista. Para brasileiros, a situação é menos estável e o modelo está em plena reinvenção. “A gente está tentando agora, com colecionadores do Brasil e com a venda de obras doadas, conseguir esse caixa e manter permanentemente artistas brasileiros na nossa residência”, diz Campos. O Capacete tem participado de edições recentes das feiras SP-Arte e ArtRio. Em agosto, também tem início o Programa Continuado do local, em que oito grupos/coletivos do Rio de Janeiro convidados passam a se envolver com as atividades do Capacete e com os residentes que para lá irão, como os seis selecionados via edital aberto.

Retiro D’Anoiva durante uma “santa ceia” (Foto: Divulgação)

 

Retiro D’ANoiva (desde 2018)
Rocinha, Rio de Janeiro, RJ | anoiva.faith
Em abril de 2019, aconteceu a primeira edição do Retiro D’ANoiva, projeto de residência na Comunidade da Rocinha, no Rio, com duração de três semanas. Participaram quatro artistas – três selecionados via edital e um artista local, convidado. O processo seletivo teve três fases, começando em 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, quando os interessados foram convocados para levar seus trabalhos para a Praia da Macumba, em um culto de Oferenda. “Temos vários formatos de cultos, com nomes que fazem paralelos com nomenclaturas das igrejas, como santa ceia e peregrinação”, diz Raoni Azevedo, um dos coordenadores e fundadores do projeto ANoiva – Igreja do Reino da Arte, ao lado de Maxwell Alexandre e Eduardo de Barros. “Chamamos de culto qualquer ação ou evento em nome da Igreja”, diz Maxwell.

Os retiros (leiam-se residências) tiveram início em 2018 de forma espontânea, quando Maxwell começou a receber em casa, na Rocinha, artistas da comunidade e integrantes do projeto ANoiva – que opera dentro da lógica das igrejas pentecostais que dominam corações e mentes na Rocinha. A institucionalização dos retiros surgiu de uma necessidade interna do grupo. “Começaram a chegar críticas de a Igreja ser formada, majoritariamente, por homens hétero cis normativos, fazendo com que outra galera não se sentisse tão confortável”, diz Raoni. “Procuramos então fazer da Igreja um lugar mais aberto.”
Foi quando eles inscreveram o projeto de residência em um edital da Funarte, ativando também redes formadas dentro do sistema de arte contemporânea, depois que Maxwell Alexandre começou a ser representado pela Galeria A Gentil Carioca. A galeria, o Instituto Inclusartiz e o Institito Goethe são apoiadores do projeto, que oferece aos “retirantes” ajuda de custo para moradia e verba para a produção de um trabalho.

O Retiro D’ANoiva assume como eixo conceitual pesquisas com rituais de identidade, estruturas de poder e existência periférica. Seu programa inclui atividades como a tarde na laje, que são conversas com artistas visitantes, como Laura Lima, Vivian Caccuri e Ronald Duarte; as rodas de leitura; a tela crente, que são sessões de projeção de filmes de artista;  peregrinações, que são caminhadas temáticas; e a santa ceia, o projeto
expositivo final.

A artista Ana Lira (de branco), durante residência na Delfina Foundation, em Londres, um projeto em parceria com o Instituto Inclusartiz (Foto: Divulgação)

 

Instituto Inclusartiz (desde 2012)
Rio de Janeiro, RJ | inclusartiz.org
O programa internacional de residências artísticas do Instituto Inclusartiz é endereçado a artistas, escritores, intelectuais e curadores estrangeiros e brasileiros, convidados a passar curtas temporadas em sua sede, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. A colecionadora Frances Reynolds, diretora do projeto, e a curadora Luiza Teixeira de Freitas definem o programa como um intercâmbio cultural interessado em enriquecer as conexões do residente na cidade, junto à comunidade artística e o panorama intelectual do Brasil e do mundo. Ao final do processo, os trabalhos são apresentados ao público, em locais escolhidos pela produção do Inclusartiz, juntamente com o convidado. O instituto viabiliza e estrutura o ambiente de pesquisa, proporcionando todo o suporte necessário para que a criação se desenvolva.

A parceria com o programa de residências da Delfina Foundation, de Londres, é um agregador importante. Brasileiros como Vivian Caccuri e Maxwell Alexandre se beneficiaram de temporadas de um a três meses de trabalho em Londres, em 2018, e, entre junho e agosto último, a pernambucana Ana Lira realizou uma pesquisa sobre experiências vividas em contextos repressivos. O convite a Ana Lira surgiu dentro de um novo projeto do Inclusartiz voltado para artistas do Nordeste brasileiro. “Com o objetivo de dar oportunidade a artistas e curadores do Brasil como um todo, fazendo residências no estrangeiro, o Inclusartiz decidiu dividir o País em regiões”, diz Frances Reynolds. “A primeira região fora do eixo Rio-São Paulo foi o Nordeste. Fizemos um open call, convidando curadores e diretores de museus a propor nomes, e Ana Lira foi selecionada.”

Um dos galpões do JA.CA, que impõe ao artista o desafio de viver numa zona de conflito entre uma reserva natural e uma região de mineração (Foto: Divulgação)

 

JA.CA (desde 2011)
Nova Lima, MG | www.jaca.center
O programa de residências do JA.CA (Jardim Canadá Centro de Arte e Tecnologia), sob a coordenação de Francisca Capovali e Samantha Moreira, tem como objetivo criar condições ideais de trabalho, convívio e troca de experiências
entre pesquisadores e artistas. De periodicidade anual (quando não interrompida por motivos de força maior – leia-se falta de recursos), tem processo de seleção via edital e oferece ao residente hospedagem, passagem, uma serralheria, uma marcenaria, uma biblioteca com 3 mil títulos, uma bolsa mensal de R$ 1,8 mil a R$ 2 mil e verba de produção – R$ 3,5 mil a R$ 5 mil, a depender do projeto. Recebe três artistas por ciclo
durante dois meses.

Francisca e Samantha se conheceram em 2011, fazendo uma residência de artistas-gestores da América Latina no Capacete. “Não havia naquele momento um lugar para pensar e discutir políticas públicas. Gente do circo era muito mais organizada do que o pessoal das artes visuais”, diz Samantha. Em 2011, elas ganharam um prêmio da Funarte (o Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais, voltado para intercâmbios entre espaços independentes e residências temporárias) para criar um programa de formação de redes e gestão de espaços autônomos. “Temas como fluxograma financeiro eram discutidos em torno de uma mesa de cozinha”, conta Samantha. “Fomos criando estratégias pegando coisas emprestadas da gestão corporativa, mas, principalmente, reconhecendo como não queríamos trabalhar.” O processo levou seis meses de viagens e rendeu a publicação Indie.gestão – Práticas para Artistas/Gestores ou Como Assobiar e Chupar Cana ao Mesmo Tempo.

O JA.CA também é fruto desse processo. Seu espaço, um complexo de galpões em 720 metros quadrados de terreno é, em si, um paradoxo. De um lado, tem a Mina Capão Xavier e, do outro, uma reserva florestal. Lá perto também está a Mina de Macacos, que sofreu um acidente que matou cinco pessoas em 2011, e está a ponto de romper novamente. Como lidar com esse contraste e a tensão dessa bomba-relógio? Como lidar com os problemas de 7 mil famílias com o pior IDH da região
noroeste de Belo Horizonte? Os residentes são estimulados a desenvolver ações colaborativas e públicas, em busca de reverberações sobre a realidade do bairro Jardim Canadá. “Mas, quando entendemos que nem todos os artistas residentes tinham um interesse específico por educação e interação com o contexto local, o JA.CA tomou para si essa função”, diz Francisca.

Em projetos educativos com uma escola local, eles reformaram a praça do bairro, fizeram pontos de ônibus, e até casas de cachorro. Em 2012, um programa da Faculdade de Arquitetura da UFMG fez um mapeamento de resíduos sólidos das ruas do Jardim Canadá, e uma Oficina itinerante de cinema foi produzida em parceria com o Rumos Itaú Cultural. “Há muito investimento pessoal. Um misto de investimento pessoal e fomento”, diz Samantha. “Sempre fazemos muita coisa com poucos recursos. Existe um desejo de entender como continuar e fazer o espaço funcionar com
modelos autofinanciáveis.”

A Bolsa Pampulha (MG) não oferece alojamento, mas cerca o artista com um time de profissionais reconhecidos nas artes visuais (Foto: Divulgação)

 

Bolsa Pampulha (desde 2003)
Belo Horizonte, MG | bolsapampulha.art.br
As residências da Bolsa Pampulha têm duração de seis meses. Embora não ofereçam alojamento, nutrem o residente com um programa de acompanhamento composto de profissionais convidados e reconhecidos na área das artes visuais, e oferecem bolsas de R$ 2 mil mensais, além de um prêmio de R$ 5 mil para a produção de um trabalho. Em contrapartida, o edital solicita a doação de uma obra acordada com o artista para o acervo do Museu da Pampulha.

A Bolsa Pampulha foi criada, em 2003, por Adriano Pedrosa, quando era curador do Museu de Arte da Pampulha, com o objetivo de estimular a produção e a pesquisa em artes visuais na capital mineira. Após um intervalo de três anos, volta a acontecer no biênio 2018/2019 sob a coordenação do JA.CA, com gestão feita exclusivamente por mulheres e o projeto de intensificar o convívio entre artistas residentes, artistas visitantes e curadores visitantes. Isso acontece em três imersões programadas ao
longo dos seis meses de cada edição.

Casa Sete, em São Bernardo do Campo (Foto: Divulgação)

Casa Sete (desde 2019)
São Bernardo do Campo, SP | @ateliecasasete
Fazendo seu début este ano está a Casa Sete, em São Bernardo do Campo, na região do ABC Paulista. A nova residência recebeu inscrições de quaisquer vertentes culturais para a sua primeira chamada aberta até julho de 2019. Com objetivo de promover e amplificar as atividades culturais da região do Grande ABC, a Casa Sete oferece dois ateliês, sem moradia, para uso por seis meses. Os custos do espaço são bancados a partir de uma campanha de financiamento coletivo pelo Catarse e, portanto, dependem do quanto conseguem arrecadar para arcar com as despesas corriqueiras. Caso a campanha não fature nada, cada residente arcará com um valor mensal de R$ 500. A Casa Sete também pretende sediar cursos e uma feira mensal para custear gastos.

Kaaysá, no Litoral Norte de São Paulo, enfoca arte e natureza e tem estrutura de pousada (Foto: Divulgação)

Kaaysá Art Residency (desde 2015)
Boiçucanga, SP | kaaysa.com
Com nome em tupi-guarani, que significa “aquele que vive na mata perto do mar”, a Kaaysá oferece uma imersão na Mata Atlântica do Litoral Norte de São Paulo a artistas, curadores, arquitetos, músicos e outros profissionais. O espaço, que antes funcionava como pousada, tem infraestrutura bastante elaborada, dispondo de 36 alojamentos e, para uso colaborativo, de ateliê, estúdio audiovisual, laboratório de fotografia, biblioteca e marcenaria.
A Kaaysá oferece quatro tipos de programa com custos diversos, incluindo viagens em grupo, experiência para pessoas de outras áreas, residência personalizada pelo artista e um programa selecionado por comitê. De acordo com a diretora Lourdina Jean Rabieh, os preços são negociáveis e a intenção é encontrar outras maneiras para bancar a participação de artistas brasileiros. “É tudo feito à mão, não é uma coisa rígida. A gente acaba convidando e os artistas acabam colaborando de outras maneiras”, diz Rabieh. Em junho de 2019, o espaço convidou o grupo de artistas Moisés Patrício, Alex Hornest, Fabio Biofa, Alex Kaleb Romano, Gabriela Lotaif, Sheyla Ayó e Ana Squilanti para um residência acerca dos temas Coexistência, Corpo Selvagem e Encantamento.

Residência Paulo Reis, do Ateliê Fidalga (SP), tem um caráter local e global, ao ter estrutura caseira e fazer intercâmibios com instituições internacionais (Foto: Sandra Cinto)

Residência Paulo Reis (Desde 2011)
São Paulo, SP | ateliefidalga.com.br
Quando desembarcou em São Paulo de uma longa viagem de cerca de 32 horas, desde Tóquio, a japonesa Misa Funai encontrou em seu quarto uma cesta de frutas com um bilhetinho de boas-vindas, escrito à mão. Ao longo de um mês de estada na cidade, Funai visitou mercados, feiras livres, ocupações do MST, e aprendeu um pouco sobre a cultura brasileira em conversas durante o almoço na cozinha do Ateliê Fidalga. Construir pontes sobre pilares de afetividade e aproximar pessoas é o projeto da Residência Paulo Reis, do Ateliê Fidalga, que nasceu “para manter acesa a chama do legado” do curador Paulo Reis (1960-2011), empenhado em construir pontes entre Brasil, Portugal e Espanha.

“Não é uma residência focada em produção, mas um intercâmbio de lugares para os artistas abrirem seus horizontes e criar uma rede de projetos, relações e cabeças pensantes”, diz a artista Sandra Cinto, organizadora da residência ao lado do artista Albano Afonso. O programa é inteiramente bancado pelos artistas, que rejeitam apoio institucional, a fim de evitar o engessamento de sua proposta, e defender seu caráter orgânico e caseiro. Não oferece passagem aérea nem bolsa, mas faz o artista se sentir literalmente em casa, com hospedagem, roupa lavada, traslado do aeroporto, meia pensão alimentar, uma publicação do resultado da residência no final do processo e uma rede de amigos, integrantes dos grupos de estudos do Ateliê Fidalga, dispostos a ajudá-los a navegar em uma cidade complexa como São Paulo. Cozinhar juntos, ir ao Ceagesp de madrugada comprar peixe e depois assá-lo em um “churrasco do mar”, comer pastel na feira e visitar ocupações no Centro de São Paulo são programas clássicos da Residência Paulo Reis, que, desde 2011, já recebeu 50 artistas de 13 países.

A única contrapartida pedida é que o visitante faça uma palestra sobre o seu trabalho para o grupo de estudos que os artistas coordenam semanalmente no Ateliê Fidalga. “Estamos começando a indicar artistas e curadores brasileiros para intercâmbios com instituições estrangeiras”, conta Sandra. Renata Cruz e Josué Mattos estiveram no programa de residências do Aomori Contemporary Art Centre, no Japão.

Trabalho em processo durante a Residência Para Coletivos do Lanchonete <> Lanchonete na Casa do Povo (SP), que tem como proposta reinventar noções de comunidade (Foto: Divulgação)

 

Residência Para Coletivos (2015)
São Paulo | casadopovo.org.br
Desde 2015, a Casa do Povo realiza, via chamada aberta, a Residência Para Coletivos, em conformidade com sua proposta de revisitar e reinventar noções de comunidade, cultura e memória. Em 2018, a convocatória teve como provocação a sentença “faça o que você já faz”. Em vez de procurar projetos que artificialmente tentem se enquadrar no modelo de trabalho da Casa, a residência procura grupos que já possuem alguma forma de agenciamento coletivo, para que desenvolvam propostas por um ou dois meses na cidade de São Paulo, em diálogo com o espaço localizado no bairro do Bom Retiro.

Para além do edital aberto para inscrições, a Casa do Povo também viabilizou a vinda do Lanchonete <> Lanchonete, espaço mobilizado pela artista Thelma Vilas Boas que funciona como cozinha comunitária e política na região da Pequena África, no Rio de Janeiro. A partir de um edital do Proac inscrito pela Casa do Povo, e de uma vaquinha para verba complementar, Vilas Boas veio a São Paulo por dez dias, trazendo cinco crianças participantes do projeto carioca. “A gente ficou pensando se deveriam vir adultos ou se deveriam vir crianças. Quando a Lanchonete surgiu como um espaço aberto de produção de conhecimento e inteligência, eu não sabia que o talento dela seria acolher mais as crianças. Foram as crianças que me avisaram”, diz Thelma Vilas Boas.

O grupo montou um espaço de trabalho na Casa do Povo para mostrar a quem os visitasse o que costumam produzir na Lanchonete <> Lanchonete e ficaram hospedados na Ocupação 9 de Julho. “Quando procurei a liderança da Ocupação, já tinha acontecido a prisão da Preta (a ativista Janice Ferreira Silva, filha de Carmen Silva, líder do Movimento Sem Teto do Centro), e eu achei que, mais do que um momento de aprender, era um momento de dizermos para o mundo que a gente apoia o movimento e que esse é um modelo vital de construção de cidade, de coletividade, de novas ideias, de riqueza”, diz Vilas Boas. “Existia uma ideia preliminar de produzir objetos a partir da coleta de materiais pelas ruas da cidade, mas, no meio da residência, eles perceberam que o mais relevante da experiência era poder vivenciá-la e, depois, compartilhar suas lembranças quando voltassem para o Rio. A maravilha de conhecer o mundo foi muito maior do que ficar pensando na produção de um objeto ou de alguma coisa. A maior impressão é sempre celular, atômica.”

Residência Adelina para América Latina (Foto: Divulgação)

Residência Adelina para América Latina (desde 2017)
São Paulo, SP | adelina.org.br
O programa de residências para jovens artistas latino-americanos é um dos eixos centrais do Instituto Adelina, desde que o espaço foi criado, em 2017, como galeria de arte. A educação é o outro eixo estratégico do instituto, que tem como objetivo reforçar relações com o circuito de arte contemporânea da América Latina. O espaço físico das residências compreende ateliês, cozinha, espaço para debates e exposições, e seu programa prevê dois meses com acompanhamento de um curador, mentorias com profissionais das artes visuais e dinâmicas de ateliê aberto para exibição de processos e obras. A cada edição, quatro artistas são selecionados por um júri profissional. Eles recebem passagens aéreas ou terrestres, hospedagem em quarto ou apartamento localizado no bairro de Perdizes, perto da Adelina, uma ajuda de custo de R$ 3 mil e um prêmio também de R$ 3 mil para a produção de obras. A seleção da segunda temporada (2019-2020) aconteceu por um júri presidido por Josué Mattos, curador da residência, e recebe artistas da Argentina, de El Salvador e do Brasil.

Fachada da Residência Artística Faap, o primeiro programa criado em São Paulo, em edifício histórico do Centro (Foto: Divulgação)

Residência Artística Faap (2005)
São Paulo | faap.br/residenciaartistica
Localizado na Praça do Patriarca, no Centro de São Paulo, o Edifício Lutetia foi o ponto de partida para que a residência artística da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) começasse. O prédio, que pertence à universidade, foi projetado por Ramos de Azevedo, na década de 1920, e tombado em 1992 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). “Um dos objetivos da criação da residência foi ocupar o Prédio Lutetia, que é da Faap há muito tempo e estava alugado para escritórios, e a partir de 2000 começou a ser repensado”, diz Marcos Moraes, coordenador do programa.

“O principal aspecto era o de dar ao espaço uma função que também fosse uma medida de ocupação do Centro. Era o início de uma discussão maior de uma das ondas de tentativa de trabalhar e ocupar o Centro”, prossegue Moraes. Em 2004, então, o coordenador começou uma conversa com Lisette Lagnado, que foi curadora da 27ª Bienal de São Paulo, e assim teve início uma parceria que possibilitou que artistas que viessem participar da exposição internacional ficassem também na residência da Faap.

Um dos principais diferenciais do projeto é sua integração com o programa de aulas do curso de Artes Visuais da fundação. Os alunos do curso têm por dois semestres uma disciplina chamada Seminário de Investigações Contemporâneas, em que os artistas residentes vão à sala de aula para falar sobre suas produções e experiências em São Paulo. “A residência, de uma forma ou de outra, acaba trazendo uma contribuição para o artista, para a Faap, para os alunos e para a comunidade em geral”, acredita Moraes. O programa também inclui o evento Open Studio, em que os residentes abrem seus ateliês ao público. Para participar, inscrições são feitas pela internet, é cobrada uma taxa de inscrição de R$ 125 e os interessados arcam com os gastos de transporte e alimentação.

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