Resíduos do início

Marcos Amaro exibe trabalhos inéditos na individual Aquilo Que Resta, na Luis Maluf Art Gallery

Paula Alzugaray
Detalhe de trabalho de Marcos Amaro (Foto: Divulgação)

Um poema integra “Aquilo que Resta”, individual de Marcos Amaro na Luis Maluf Art Gallery, em São Paulo. Palavras habitam a parede, dividindo o espaço com o conjunto de nove pinturas da produção recente do artista, mas não se fixam a nenhuma delas. Pairam no ar, permeando as zonas densas de matérias variadas que compõem os trabalhos. Nem mesmo nos títulos as palavras pousam, dado que as obras não têm título. As pinturas falam, sim, por meio da robustez de sua abstração.

A assimilação da palavra Resíduo, título de poema de Carlos Drummond de Andrade, ao corpo de obras da exposição, surgiu de um diálogo entre o artista e o curador Marcus de Lontra Costa. Os trabalhos, produzidos em média e pequena escala, se localizam, segundo o curador, “no espaço difuso entre a pintura e a escultura”. Em superfícies grossas e texturas pronunciadas, anunciam marcas de “acontecimentos” físicos: o calor do fogo, a pressão da mão sobre o gesso quando mole, as reações químicas e alquímicas dos encontros. Às matérias clássicas da escultura contemporânea – gesso, cimento, areia, pigmento – somam-se a graxa e o óleo automotivo, matérias residuais de processos anteriores do artista.

Marcos Amaro iniciou a pesquisa artística revolvendo, entre sucatas automotivas, aeronáuticas e objetos sem vida útil, fragmentos de fortes memórias da infância. Foi assim que ele construiu, inicialmente, um trabalho pouco discernível sem um espelhamento com sua própria biografia: aos 17 anos, a perda do pai, o comandante Rolim Amaro, fundador da TAM Linhas Aéreas. “Meu trabalho teve uma primeira fase, eu diria, mais construtiva, procurando uma certa organização, uma certa geometria e hoje ele aceita melhor aquilo que é temporal, efêmero”, diz Amaro. “De certa forma, me desprende do meu passado. Mas são resíduos, na verdade sentimentos, que de alguma forma ainda me importam e que eu tento trabalhar de uma forma bem visceral”.

Se as bibliotecas são autobiográficas, quem dirá as pinturas. Resíduo é aquilo que “de tudo fica um pouco”. Mas não muito.

Serviço
Aquilo que Resta, individual de Marcos Amaro
Luis Maluf Art Gallery
Rua Peixoto Gomide, 1887 – São Paulo
até 8/12/2018
luismaluf.com

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