Resistência popular

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 18/11/2014

Categoria: Crítica, Review

Bienal Naïfs do Brasil chega à 12ª edição garantindo visibilidade às manifestações não hegemônicas

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Legenda: Obra do artista de Ouro Preto (MG), Cor Jesus, em exposição na Bienal Naïfs realizada pelo Sesc-Piracicaba (foto: Isabella Matheus)

Qual o propósito de destacar uma bienal de arte naïf em meio à produção cada vez mais globalizada? Se no contingente trabalhado pelo mainstream ainda há espaço para indagações locais, é na arte “ingênua” que a forma torna-se inseparável de suas raízes sociais e geográficas, funcionando como testemunho orgânico da vida de uma região. Pela ausência de formação acadêmica dos artistas incluídos sob a denominação naïf (que reflete um ranço iluminista), a crônica cotidiana é traçada no suporte sem aparatos preestabelecidos pelo erudito.

Que não se subestime o nível técnico que alcançam alguns resultados: seja numa composição próxima do concretismo ou numa xilogravura em cores, passando por delicados objetos de cerâmica, as obras muitas vezes chegam a um refinamento digno de qualquer grande galeria de arte contemporânea. Haja vista a absorção de nomes como Mestre Didi e J. Borges pela cena hegemônica, numa fronteira tênue com o naïf, e o trabalho que vem sendo feito pela Galeria Estação, em SP. É preciso, portanto, dar o devido mérito a um projeto contínuo com esse foco, que garante sobrevivência e visibilidade a um fazer artístico que não passa só pelo intelecto e pelos cânones de faculdades, bienais e feiras. O modelo da Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo Sesc-Piracicaba desde 1992, é o de seleção por júri mediante inscrição dos trabalhos pelos próprios artistas. Neste ano, o curador da mostra foi Diógenes Moura, especializado em fotografia. Esse predicado garantiu o ponto alto da 12ª edição: uma pesquisa em fotografia pintada à mão, técnica que está desaparecendo no País, por meio do resgate de exemplares históricos e da trajetória de Mestre Júlio Santos. Ele adaptou a técnica ao Photoshop, barateando a manutenção do seu estúdio.

A pintura de fotos é a tarefa de apagar os contornos “reais” de um retrato para recriar a pessoa como ela quer se ver. Alteram-se o fundo, o cabelo, a roupa, as cores do rosto. Mestre Santos afirma que o interesse pelo recurso quase sumiu. Mas essa história, contada pela Bienal, é a evidência de que uma mostra que se ocupa de manifestações tão genuínas cuida não só desse patrimônio material, mas também salvaguarda a própria visão que o povo tem de si. Como numa foto retocada à mão.

Bienal Naïfs do Brasil / Até 30/11, Sesc-Piracicaba, Rua Ipiranga, 155, Piracicaba – SP

*Review publicado originalmente na edição #20

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