Retrato vivo do Oriente Médio

Com sua primeira individual no país, o libanês Akram Zaatari fala à seLecT de tecnologia, imigrações e relações pessoais

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 15/09/2016

Categoria: Da Hora, Destaque, Entrevista

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O vídeoartista libanês Akram Zaatari em mostra na Europa neste ano (foto: reprodução)

Existiria Oriente Médio sem Akram Zaatari? Fisicamente sim, mas boa parte da memória afetiva e política da região não teria a mesma atenção. Um dos fundadores em 1997 da Fundação Árabe para a Imagem, um enorme banco de imagens que eternizam o cotidiano dos países árabes e do Norte da África, o libanês de 50 anos é um aficcionado pela artesania fotográfica desde a captação analógica até os incríveis recursos digitais que mudaram sua maneira de produzir suas imagens e vídeos.

Entre seus temas, a homossexualidade e as relações pessoais que se insurgem entre as rígidas normas morais de seu país, a guerra civil e as intricadas questões políticas de sua região subjazem nos retratos que coleciona e produz, como nos filmes que realiza. Cria e recria imagens estáticas e em movimento para dar às imagens o status de crônica de seu tempo. Representado por galerias internacionais e grande nome da arte de seu país, foi um dos artistas libaneses que participaram da Bienal de Veneza de 2013.

  • Arquivo Akram Zaatari. Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Arquivo Akram Zaatari. Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, The End of Time (2013). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Another Resolution (1998-2013). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Dance to the End of Love (2011). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Arquivo Akram Zaatari. Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Arquivo Akram Zaatari. Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Tomorrow Everything Will Be Alright (2010). Vista da exposição Amanhã vai ficar tudo bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari – X-Tube Drawings (2016). Vista da exposição Amanhã vai ficar tudo bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Dance to the End of Love (2011). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Beirut Exploded Views (2014). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Arquivo Akram Zaatari. Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, The End of Time (2013). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Another Resolution (1998-2013). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Beirut Exploded Views (2014). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Another Resolution (1998-2013). Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Arquivo Akram Zaatari. Vista da exposição Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • Akram Zaatari, Red Chewing Gum (2000). Vista da exposição Amanhã vai ficar tudo bem, Galpão VB, 2016 (Foto: Pedro Napolitano Prata - Cortesia da Associação Cultural Videobrasil)
  • O vídeoartista libanês Akram Zaatari em mostra na Europa neste ano (foto: reprodução)

No Brasil, ganha pela primeira vez uma individual no Galpão VB até 3/12, que compreende sua produção desde 1998 até 2014, período em que as tecnologias revolucionaram a forma de trabalhar com imagem. seLecT perguntou a Zaatari sobre sexualidade e política no Líbano, as mudanças em seu trabalho no decorrer da carreira e a atual onda migratória do Oriente Médio. Veja aqui as respostas:

Que paralelo pode ser traçado entre homossexualidade e política no Líbano?

Num mundo ideal, toda pessoa deveria estar em posição de amar ou compartilhar intimidade com quem quer que ele/ela queira, independentemente do gênero. Todos deveriam ser livres para dividir suas preferências pessoais com outros ou não. Não deveria haver pressão para ninguém se esconder, ou pressão para ninguém se revelar. Eu não acredito que essa liberdade deveria ser constrangida de maneira alguma, seja por família, tradições sociais, religião ou pela lei. Mas não vivemos num mundo ideal, e nós, indivíduos, desenvolvemos sim uma posição diante da pressão e de formas de injustiça, ou de poder, que nos impõem um comportamento diferente daquele ao qual tendemos. Consequentemente, num mundo não ideal, onde direitos triviais não são legitimados ou permitidos por lei (como no Líbano), a luta por eles se torna um processo político que envolve a esfera pública no nível de educação, conscientização e legislação. Portanto, o ato de assumir esses direitos se torna um ato de natureza política. Por exemplo, não há casamento civil no Líbano, você só pode se casar de acordo com a religião dentro da qual você nasce. Mas se você se casar na França, Turquia ou Chipre, você pode registrar esse casamento no Líbano sem problema. Ele será reconhecido. É esquizofrênico! No ano passado, quando um casal heterossexual lutou para ter seu casamento civil válido no Líbano, foi como se um assunto particular subitamente se tornasse uma causa que dizia respeito a uma comunidade muito mais ampla, não apenas a eles. E quando eles conseguiram isso, foi como uma vitória política. É ótimo ver essas pessoas investindo tanto do seu tempo melhorando suas condições de vida e as tornando mais fáceis para outras gerações no futuro. Mas isso também é tão triste! É tão triste ver que é preciso gastar tanto do próprio tempo para provar coisas triviais quando gostaríamos de passar mais tempo criando, no trabalho ou trabalhando por outras causas, como o combate à corrupção no Estado, por exemplo! Homossexualidade ainda é punida pela lei (no Líbano), apesar de alguns juízes terem anunciado publicamente que homossexualidade não é crime.

Então, para responder a você, realidades políticas não são similares entre as culturas. Sim, afirmar sua homossexualidade num contexto onde religião, sociedade e o Estado a proíbem é uma atitude de natureza política. Não deveria haver repressão contra tal posição.

Em que sentido sua vida particular é material para o seu trabalho, assim como seu trabalho é uma forma de trazer à vida questões internas? Como sua vida alimenta seu trabalho?

Não vivemos num vácuo, longe do que vemos ou do que passamos na vida. Em outros termos, somos produtos de nossas próprias experiências. Somos marcados por elas e elas contam quem somos, não apenas socialmente, mas também política e emocionalmente. Nossas experiências modelam nossos interesses, medos e desejos. Mas não faço filmes diretamente sobre minhas situações. Seria muito pretensioso achar que vale a pena compartilhar as coisas que vivo com o público em geral. Mas as coisas pelas quais passo, ou experiências que outros vivem a minha volta, dão forma às minhas posições, minha visão política, e meu trabalho é naturalmente influenciado por elas. Me interessa fazer crônicas do que acontece ao meu redor, e com sorte isso um dia será um tipo de registro histórico do lugar onde eu vivo. Mas não posso afirmar que estou desligando meus sentidos enquanto escrevo. Não posso alegar que coloco meus próprios desejos de lado enquanto pesquiso ou produzo um trabalho. Desejo é um elemento essencial no meu trabalho. Não estou falando apenas de desejo sexual, e também não o excluo. Desejo é muito mais amplo que o sexual. Desejo é o que mantém a humanidade avançando. Desejo é esperança de um futuro melhor. Desejo é Natureza. Desejo é Justiça! Algo de que sentimos tanta falta nesse mundo, não é?

A exposição em São Paulo abrange um grande período de tempo. O que mudou do início para agora?

Todos nós mudamos com o passar do tempo. E eu mudei consideravelmente, embora sempre haja algo que continua igual. O trabalho mais antigo da exibição chama-se Another Resolution, 1998, e é baseado em fotografias de crianças em poses erotizadas. Filmei adultos reencenando as mesmas poses com minha câmera de vídeo. Em 1998, era impossível para mim mostrá-lo com 12 projeções em looping, mas agora posso. Então quando eu exibo essa obra hoje, parece tão diferente de quando eu exibi em 1998, com duas projeções encarando uma à outra. A tecnologia mudou tremendamente e o vídeo quase desapareceu com a fotografia e o filme, enquanto a tecnologia digital assumiu tudo e borrou as fronteiras entre registros óticos como fotografia, vídeo e filme. Surgiram também diferenças com relação a métodos de trabalho. Dos anos 1990 até 2008 eu costumava eu mesmo filmar, e às vezes também editar. Hoje eu uso equipes de filmagem e não edito mais meu próprio trabalho. Agora que estou usando câmeras mais sofisticadas não posso mais segurar a câmera e estar ao mesmo tempo disponível e criativo no set.   

Da mesma forma, meu interesse em fotografia, que impulsionou a criação da Fundação Árabe para a Imagem em 1997, expandiu para incluir as recentes fotos digitais em movimento, que eu vejo como uma extensão natural da fotografia. Esse é o assunto do trabalho Dance to the End of Love (2011), que também está na exposição e é inteiramente baseado em clipes curtos de YouTubers em diferentes países árabes.

Entre 1998 e 2014, meu interesse e minha concepção da preservação fotográfica também mudaram. Agora já não creio que tomar uma fotografia de seu dono pelo bem de sua preservação é a única solução. Acredito totalmente em fazer uma imagem, em extrair dela algo que não lhe é inerente. Há outras soluções criativas que nos permitem preservar uma fotografia ao mesmo tempo em que ela permanece em seu tecido social de origem.  

Como você vê a atual imigração massiva da população do Oriente Médio, fugindo da guerra e violência em seus países? Como essa situação influencia seu trabalho?

A imigração massiva que testemunhamos hoje não é a primeira e não será a última. Ondas de pessoas imigraram depois dos massacres de 1860 no Líbano, depois da fome da Primeira Guerra Mundial e nos anos 1980, no auge das Guerras Civis Libanesas. Essa é a razão parcial da existência das comunidades libanesas no Brasil. Muitos imigraram na esperança de uma vida melhor muito longe! E agora a imigração continua com as guerras na Síria, Iraque, Iêmen, Sudão e outros países africanos. Na Segunda Guerra Mundial, os europeus fugiram do Norte para o Sul mediterrâneo. Nos séculos 18 e 19, era comum europeus virem morar no Sul do Oriente Médio. A imigração grega para Alexandria, por exemplo, atingiu seu ápice em 1940 com a Segunda Guerra Mundial. Armênios vieram morar no Líbano, e o Oriente Médio escapou do genocídio de 1917. A história universal é uma sequência contínua de migrações, imigrações e deslocamentos forçados. Não posso afirmar que a imigração atual ou a crise dos refugiados tenha impactado diretamente o meu trabalho porque eu levo um bom tempo para refletir sobre as situações ao meu redor. A tragédia síria definitivamente influenciará meu trabalho futuro. Eu ainda não sei como. Preciso compreender o que está acontecendo na Síria, e para isso eu preciso ver o fim do conflito. Não sou um artista que reflete sobre a atualidade. Ao contrário, eu diria que trabalho com o tempo que me possibilita distância para refletir sobre uma situação. Prefiro fazer isso quando os conflitos são passado. De qualquer maneira, o conflito na Síria não irá impactar apenas meu trabalho, ele certamente irá incidir sobre a consciência mundial, ou seja, sobre a incapacidade de o mundo lidar com isso.        

Seu trabalho explora constantemente uma base estética vintage, trazendo uma sensação de álbum de família. Ao mesmo tempo, você tem um diário no qual registra o cotidiano em seu país no meio da Guerra Civil. Como você constroi os aspectos visuais de seu trabalho?

Não estou certo sobre o que você quer dizer com estética vintage. Trabalho sobre documentos fotográficos, muito frequentemente do passado, anos 1940 e 1950, mas não estou interessado em sua “estética vintage”. Estou interessado em como eles testemunham certas tradições da prática. Parte do meu trabalho é escrever uma história da prática fotográfica na minha região, e não posso fazer isso sem documentos fotográficos. Com o tempo eu aprendi a olhar para todos os aspectos de uma fotografia, não apenas as imagens registradas nela. Eu aprendi a aprender a partir da observação do verso de uma foto, de sua espessura, da erosão ou dano contidos nela. Tudo isso contribui para o conhecimento da prática de produzir fotografia, e claro que o álbum de família é uma parte importante disso. Tirei fotos quando criança como muitos de minha geração, exatamente como as crianças hoje usam os celulares dos pais para tirarem fotos. Eu estava interessado em registrar banalidades, ou seja, eu também estava fazendo crônicas em meus diários, mas aquilo não era arte! Precisei usá-los num diferente corpo de trabalho, reinscrevê-los numa forma artística. É por isso que as fotos que tirei em Saida em 1982, por exemplo, foram retrabalhadas/reproduzidas e datadas como 2006 ou 2009.

A questão da estética é difícil de responder, ainda que a estética esteja lá. Não pertenço à tradição moderna e meu trabalho não é dirigido para uma pesquisa formal ou estética. Estou mais interessado em história e em escrever e reescrever imagens, às vezes realizando-as por meio de filmes e outras instalações espaciais.   

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