Retratos, identidades e convenções

A partir de discussões sobre gênero e classe, mostra reitera estigmas identitários sem expandir a reflexão sobre o sujeito e suas representações

Leandro Muniz
Detalhe de Não Eu (2019), pintura de Regina Parra (Foto: Cortesia Galeria Milan)

A coletiva Jamais Me Olharás Lá De Onde Te Vejo, com curadoria do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake, parte da frase do psicanalista francês Jacques Lacan para reunir obras dos artistas Éder Oliveira, Regina Parra e Virginia de Medeiros sob o tema retrato.

Na entrada, a frase “Mais um dia”, apropriada por Parra de uma novela do irlandês Samuel Beckett, brilha em néon vermelho. Na sala de exposição, a artista apresenta uma série de pinturas que interpretam a textura de vídeos analógicos, representando seu próprio corpo em situações de desconforto. Outros dois letreiros com as frases “Nem pior, nem melhor, na mesma” e “Nada de dor ou quase nada”, direcionam a leitura das imagens. Já as pinturas de Éder Oliveira retratam predominantemente homens amazônicos a partir de imagens apropriadas de tabloides, algumas com um filtro vermelho sobre as quais são escritas frases como “A justiça se nega ou a contagem de Clarice?”

Virginia de Medeiros apresenta vídeos nos quais mulheres que integram o Movimento Sem Teto do Centro são retratadas frontalmente, captando suas variações de humor em frente à câmera. O recorte de gênero e classe acaba por ressaltar suas singularidades, em oscilações entre desejo e timidez no momento de serem retratadas. Na expografia, paredes pintadas de vermelho, algumas informações sobre a trajetória da pesquisa da artista e uma instalação sonora composta de uma integrante do bloco Ilú Obá de Min geram um ambiente em que cada figura é individualizada para além de suas classificações identitárias – ainda que o recorte social seja claro.

Mas há algo de convencional nesse conjunto, tanto no modo de apresentação quanto na reiteração da ideia clássica de retrato. Ainda que exista um deslocamento do sujeito representado para grupos racializados ou marcados sexual e socialmente, ou que a experiência apresentada seja de sofrimento e violência, não parece existir na exposição um sujeito que coloca em xeque seu próprio estatuto no
campo da representação.

As classificações de grupos sociais colocam em dúvida se a mostra reitera estigmas identitários ou expande uma reflexão sobre o sujeito e suas representações. Esta não seria uma oportunidade de ampliar as formas de representação e compreensão do sujeito? Talvez, mais que as imagens, as palavras nesta mostra deslocam a ideia de um sujeito centralizado, expõem um mal-estar social generalizado e o desejo por novas formas de convivência

Serviço
Jamais Me Olharás Lá De Onde Te Vejo
Exposição coletiva, até 27/9, Instituto Tomie Ohtake, Av. Faria Lima, 2011  institutotomieohtake.org.br

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