Rio Lado B

Da Louraça Belzebu de Fausto Fawcett às altas temperaturas do Piscinão de Ramos captadas pelas lentes de Julio Bittencourt, autores exaltam e transformam em poesia a face mundo-cão da Cidade Maravilhosa

Luciana Pareja Norbiato

N° Edição: 29

Publicado em: 26/04/2016

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

(Foto: Cortesia Julio Bittencourt)

Em um ponto animado e de altíssimas temperaturas, no imenso conglomerado urbano às margens da Avenida Brasil, o fotógrafo Julio Bittencourt foi buscar material humano para suas lentes. Mais precisamente, no famoso Piscinão de Ramos, um lago artificial com 26.414 metros quadrados e 30 milhões de litros de água salgada, construído ao lado da Baía de Guanabara, próximo ao Aeroporto do Galeão. Criado em 2001 como alternativa à poluída Praia de Ramos, está fechado para manutenção desde o fim de 2015. Num passado mais glorioso, chegou a receber 60 mil pessoas por fim de semana e foi cenário de novela da Globo, mas seu estado de conservação deteriorou de tal forma que a poluição se equiparou à da praia original, numa evolução em que o descaso do poder público alimentou o descuido da população local. Serviu de inspiração à nova praia artificial do Parque Madureira, inaugurada em outubro passado pela prefeitura do Rio.

O fotógrafo paulistano soube do Piscinão de Ramos por uma reportagem na ocasião de sua inauguração, quando ainda nem sonhava que viria a morar colado ao local. “Fotografei lá durante quatro anos, entre 2009 e 2012. Nos dois primeiros anos, ficava indo e vindo da zona sul, mas perdia muito tempo nos deslocamentos, no trânsito”, conta à seLecT. Na época estava saindo de projetos enfocando os moradores da ocupação do Edifício Prestes Maia (SP) e queria trabalhar em algo mais espontâneo. Uma praia foi o lugar perfeito. “Praia fala muito sobre cultura, é onde as pessoas são iguais. O Piscinão era ainda mais interessante, por não ser propriamente uma praia. A cultura ali é mais real, mais próxima da essência do Brasil.”

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(Foto: Cortesia Julio Bittencourt)

As fotografias de Bittencourt traduzem em imagens voluptuosas essa realidade cheia de contradições. Nelas, pequenas multidões buscam seu lugar ao sol e se misturam sem preconceito, fazendo churrasco, usando descolorante de pelos e trazendo o cachorro a tiracolo. A singularidade do ensaio chamou a atenção do britânico Martin Parr, um dos papas da fotografia litorânea. Tanto que o veterano editou com Bittencourt o livro Ramos, lançado pela extinta Cosac Naify em 2015, assinando o texto de apresentação.

Bittencourt está em cartaz atualmente na Galeria da Gávea, com a expo Kamado, em que clicou cozinhas em uma ilha abandonada no Japão. Enfocando a ausência pelos rastros deixados por ex-habitantes, o ensaio é a antítese de Ramos.

Do Irajá à Copa Cyberpunk
Quem já circula há mais tempo pelas sedutoras incongruências do subúrbio e do submundo carioca é o escritor Fausto Fawcett. O Irajá foi celebrizado na letra do funk Kátia Flávia (1986), “ex-miss Febem, encarnação do mundo-cão, louraça satanás, gostosona e provocante”, e Copacabana – com sua fértil fauna local – é sua menina dos olhos desde os anos 1980.

“Gilberto Gil sempre disse que a Bahia lhe deu régua e compasso pra vida inteira. Gosto de dizer que Copacabana me deu a papelaria inteira, me preparando pra várias overdoses de vivências e surpresas existenciais”, diz Fawcett à seLecT. “Meus textos, meus temas e minha escrita estão ligados à alquimia peculiar de submundos e clandestinidades, escritórios, clínicas, consultórios, praia, montanha, todo tipo de gente, todo tipo de serviço, todo tipo de polícia e bandidagem, e paisagem imobiliária muito concentrada em 4 quilômetros e pouco de Copacabana.” Desse caldo saíram livros antológicos, como Santa Clara Poltergeist (1990) e o mais recente, Favelost (2012), uma distopia cyberpunk em que São Paulo e Rio viram uma só cidade pela continuidade do crescimento desordenado de suas periferias.

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(Foto: Cortesia Julio Bittencourt)

A literatura, que Fawcett tem como seu meio principal, é apenas uma entre as muitas mídias com que trabalha. Dos livros vieram performances que eternizaram musas do submundo, como Regininha Poltergeist. Das artes visuais vieram parceiros como Chelpa Ferro e Vivian Caccuri, com quem divide o palco em shows experimentais. Da música, coautorias como o hino Rio 40 Graus (1992), composto com Fernanda Abreu e Laufer, cujo título presta homenagem ao clássico cinematográfico de Nelson Pereira dos Santos, de 1955. Mas quem nunca largou do seu pé foi mesmo Kátia Flávia, a Godiva do Irajá, que matou o marido contraventor da Baixada Fluminense, fugiu para Copa e será a eterna Garota de Ipanema às avessas de Fausto Fawcett.

“Não nego o orgulho de ter recolocado no mapa do imaginário pop nacional, mesmo por um tempo, Copacabana, que andava ali pelos anos 1980 esquecida ou reduzida a um estereótipo de decadência que fiz questão de dizer que era apenas uma camuflagem para o imenso point urbano e humano que acontece no bairro. Outra coisa foi uma gostosona bandida na boca do povo, maldita querida e fêmea cheia de poder – e poder marginal – na boca do povo”, diz. Em 2016, a música faz 30 anos e a personagem deve virar filme. Fawcett lança livro novo, Cachorrada Doentia.

Da Belle Époque à Sapucaí
Divas underground são frequentadoras assíduas das páginas da literatura carioca há mais de cem anos. Nos contos do escritor e jornalista João do Rio (1881-1921), elas são acompanhadas por janotas, mas também por traficantes e cafetões, mães de santo e escravos, e transitam com sex-appeal pela região portuária e do Centro, na belle époque carioca. Na virada do século 19 para o 20, João do Rio chocava os eruditos com o calor das ruas, temperado pela homossexualidade, o dandismo exacerbado e a cor da miscigenação. Por suas incursões do grand monde aos antros do porto, soube traduzir esse universo em textos jornalísticos como “As Religiões do Rio” (1904) e “A Alma Encantadora das Ruas” (1908). Em contos como História de Gente Alegre, lançou um olhar afiado sobre as relações sorrateiras entre o povão e as elites deleitando-se às escondidas nos prazeres obscuros dos antros do Centro. Em 2016, nos 135 anos de seu nascimento, uma caixa recém-lançada pela Editora Carambaia traz três facetas de sua produção: crônica, teatro e folhetim.

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(Foto: Cortesia Julio Bittencourt)

Outro ilustre frequentador do Centro e da região portuária foi Oswaldo Goeldi (1895-1961). A partir dos anos 1920, o artista enredava a narrativa sombria de suas gravuras entre os peixes e o mar do Leblon – então um areal isolado, onde o artista morava num quarto de fundos – e as noites boêmias na Lapa, retratando proscritos e prostitutas. “Não era um cara abandonado, solitário, mas se identificava com esses personagens”, diz Lani Goeldi, sobrinha-neta do artista. No aniversário de 55 anos de sua morte, ela prepara Repaginando a História, livro sobre os bastidores da vida de Goeldi, com lançamento previsto para o fim do ano. Uma exposição em Belém – onde o artista nascido no Rio morou em criança –, marcando também os 400 anos da cidade, e um documentário em cinco capítulos estão entre as homenagens.

A inspiração também veio do outro lado da Floresta da Tijuca para Nelson Rodrigues (1912-1980). Mais precisamente, da infância passada na Aldeia Campista, na época uma cercania afastada num enclave entre os atuais Vila Isabel, Andaraí e Irajá (zona norte). As taras e vícios de uma sociedade dividida entre o pretenso cosmopolitismo de capital da República e o moralismo rigoroso do subúrbio ganharam status mítico por sua dramaturgia mordaz, recheada por pactos de morte, adultérios, subornos e casamentos de fachada, em peças como A Falecida (1953) e romances como Asfalto Selvagem (1959) – cuja protagonista, Engraçadinha, mora em Vaz Lobo, região de Madureira, onde hoje fica uma nova e tórrida praia artificial dos subúrbios.

Acima, Perigo no Mar (1955), de Oswaldo Goeldi (Foto: Lani Goeldi/Associação Artística e Cultural Oswaldo Goeldi)

Acima, Perigo no Mar (1955), de Oswaldo Goeldi (Foto: Lani Goeldi/Associação Artística e Cultural Oswaldo Goeldi)

Alegoria de todas as histórias do Brasil e do Rio, a Marquês de Sapucaí não poderia ficar de fora dessa breve antologia dos cânticos aos submundos. Afinal, a Marquês já serviu de palco para o elogio da discrepância de classes, com o enredo Ratos e Urubus: Larguem Minha Fantasia, da Beija-Flor, vice-campeã em 1989. O autor da ousadia foi Joãosinho Trinta (1933-2011), que com os versos Sou na vida um mendigo, da folia eu sou rei traduziu o paradoxo do Carnaval, festa de luxo feita pelo cidadão de baixa renda. Num dos carros alegóricos, uma réplica do Cristo Redentor daria as costas a um cortejo de mendigos saltitantes, mas teve de ser coberta com plástico preto pela proibição da Igreja Católica. Saiu embrulhada, mas com uma placa dizendo “Mesmo proibido, Olhai por nós”. É dessas contradições de uma terra abençoada por Deus, mas deixada à mercê dos homens, que vem se nutrindo, ao longo dos anos, o panteão maldito da arte.

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