Rituais sem mitos: Lygia Clark, 101 anos

Uma exposição e um portal com acervo digitalizado e abundante base de dados dão continuidade às comemorações do centenário de Lygia Clark

Da Redação

Publicado em: 16/11/2021

Categoria: Da Hora, Reportagem

Estruturação do Self com os objetos relacionais (1976), de Lygia Clark (Cortesia Associação Cultural Lygia Clark)

Em 1964, quando tomou entre as mãos um elemento cultuado como verdadeiro ícone da autonomia do objeto na arte moderna, convertendo-o em suporte para uma experiência efêmera, Lygia Clark começava a preparar o seu atentado ao caráter objetual da arte. O elemento em questão era a fita de Moebius, figura geométrica favorita do escultor suíço Max Bill, que por sua vez, foi uma espécie de mito precursor da arte concreta no Brasil, nos anos 1950. “Há um único tipo de duração: o ato. O ato é o que produz Caminhando. Não há nada antes, nada depois”, escreveu Lygia em “1965: Concerning the Magic of the Object”, a respeito da obra constituída pela instrução de como fazer você mesmo sua fita de Moebius com papel e tesoura.

Pensamento mudo, anos 1970 (Associação Cultural Lygia Clark)

Lygia Clark literalmente picota a tradição artística vigente em seu tempo. Primeiro, explode os limites da pintura, com os Espaços e Superfícies Moduladas (anos 1950); depois, dá mobilidade à escultura, com os Bichos, os Trepantes e as Obras Moles (anos 1960); para, por fim, com os objetos relacionais (anos 1970), retirar-se (em exílio voluntário) do mundo da arte, substituindo o termo “obra de arte” por “proposição” e começar a abrir caminho para o progressivo do objeto artístico.

Superficie modulada No 2, 1958 , de Lygia Clark (Cortesia Jaime Acioli)

Pensar em Lygia como um mito talvez seja trair o que ela própria plantou. “Rituais sem mitos”, era como ela chamava suas proposições. Mas aquela que implodiu mitos é hoje uma referência máxima não só da história da arte brasileira, mas para o contexto da arte contemporânea internacional. Cem anos após o seu nascimento, Lygia deve se tornar uma descoberta fundamental e formadora para as novas gerações. Contribuem para essa ocasião, duas parcerias da Associação Cultural Lygia Clark: o  lançamento do portal bilíngue www.lygiaclark.org.br, realizado com o apoio do Itaú Cultural, e a exposição Lygia Clark (1920-1988) 100 anos, na Pinakotheke Cultural, com a curadoria de Max Perlingeiro.

Quebra da moldura, 1954, de Lygia Clark (Cortesia: Jaime Acioli)

O portal, lançado em 23/10, dia em que a artista completaria 101 anos, reúne um material precioso. São mais de 7 mil documentos, entre obras, material audiovisual fac-símiles completos de catálogos, críticas em periódicos, cartas, textos da artista – publicados e inéditos, e projetos não-realizados. Ou seja, é muito mais que um catalogue raisonée – publicação técnica sobre a obra completa de um artista –, porque o conteúdo vai muito além do acervo. Entre os projetos não executados, por exemplo, estão disponíveis Convite à Viagem, Descarregue e O Homem no Centro dos Acontecimentos. Em uma próxima etapa, serão adicionadas ao portal pesquisas acadêmicas sobre a obra de Lygia Clark.

“O mais importante é fazer a entrega do material completo de forma gratuita”, diz Alessandra Clark à seLecT. “As pessoas não tinham muito acesso às obras literárias, através delas, é possível ver a evolução do raciocínio da artista. Haverá muito mais interesse der museus, curadores e estudantes, a partir da leitura de Lygia. O valor imaterial é o nome dela na boca do povo”.

Sem titulo, 1952, de Lygia Clark (Coleção João Sattamini_Jaime Acioli)

A neta da artista conta que a reunião do acervo e sua democratização em um acervo digital foi “o projeto da vida da Associação”, criada em 2001. Outra função central do projeto administrado pela família é a certificação de obras. O sistema de certificação já garantiu a autenticidade de quase 900 obras em 20 anos. “Muita coisa começou a ser certificada nos últimos anos, desde a exposição no MoMA-NY, em 2014”, diz Alessandra. É muito interessante, por exemplo, um mapa mundi no portal, com a sinalização das coleções públicas – e às vezes privadas –, em que os trabalhos se encontram. Entre as descobertas recentes de obras de coleções particulares recentemente certificadas, por exemplo, está a série de pinturas “Escadas” (1947).

Escada – Versão única, 1950, de Lygia Clark (Cortesia: Rafael Salim)

Revisitar Lygia Clark

As Escadas foram pintadas no começo de tudo, quando Lygia trabalhou com Burle Marx, no final dos anos 1940, no Rio. Duas delas estão em exposição na mostra que a Pinakotheke Cultural inaugura esta semana em São Paulo, recém-chegada da montagem na sede de Botafogo, no Rio. “Por falar em obras inéditas, descobrimos o paradeiro daquela Escada que você falou mais de uma vez de sua predileção, que estava com o seu amigo Hoco Martins Pereira, e o retrato de sua cunhada Berta Clark, entre muitas outras”, escreve Marx Perlingeiro no livro da exposição, em linguagem epistolar, se dirigindo à própria Lygia.

Com obras raras e inéditas, a mostra é composta por 17 segmentos que obedecem a um percurso cronológico de 1947 a 1973. Acompanha a exposição um livro de 316 páginas, com uma seleção da correspondência pessoal entre Lygia e amigos artistas e intelectuais, textos críticos também inéditos, como o interessantíssimo artigo de Yve-Alain Bois, em que o critico afirma que seu primeiro artigo publicado foi um ensaio curto justamente sobre la Clark, em 1968. “Claro que se falava muito sobre a possibilidade de uma ‘arte revolucionária’, mas, graças ao pouco que eu já conhecia da concepção fenomenológica de arte de Lygia, não conseguia aceitar a ideia de uma arte engajada, que deixasse o observador em um estado de consumo passivo. A arte política, para ser eficiente, tinha de permitir um papel diferente”, escreve hoje Alain Bois.

Estruturacao do Self com os Objetos Relacionais, Lygia Clark, 1976 (Associação Cultural Lygia Clark)

Numa amostra de como Lygia irriga a arte, a dança e a poesia contemporânea, uma sala especial exibe a videoinstalação “DSÍ – embodyment” (2021), com performance de Carolyna Aguiar, e direção de Leticia Monte e Ana Vitória. Na videoinstalação, o espectador é convidado a “experienciar estados inaugurais do corpo fragmentário em sua perspectiva pulsante de vida e morte”, explicam Ana Vitória e Leticia Monte.

 

Serviço

Lygia Clark (1920-1988) 100 anos

Pinakotheke Cultural, São Paulo

de 15 de novembro de 2021 a 15 de janeiro de 2022

Portal

www.lygiaclark.org.br

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