Roger Grasas fala sobre sua obra em Taswir

Tendo a viagem como fio condutor, o fotógrafo espanhol registrou lugares como Arábia Saudita, Barém, Qatar e Emirados Árabes

Núcleo de Pesquisa e Curadoria - Instituto Tomie Ohtake
Fotografias da série Min Turab (2009-2017), de Roger Grasas (Foto: Luana Fortes)

Como parte das atividades vinculadas à exposição Taswir: A Fotografia Árabe Contemporânea, realizadas pelos integrantes do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake, a segunda entrevista foi com o fotógrafo espanhol Roger Grasas, que nasceu em 1970 em Barcelona.

Roger é graduado em Filosofia e Fotografia e é mestre em Estética. Iniciou sua carreira de fotógrafo como fotorrepórter, documentando projetos para ONGs e fundações como a Unesco. Colaborou para publicações como El País, Wired e National Geographic.

Entre 2009 e 2012, viveu em Riyadh, capital da Arábia Saudita, onde iniciou seu primeiro projeto fotográfico de longa duração, ‘Min Turab’, série que desenvolveria até 2017.

‘Min Turab’, expressão árabe que significa “da terra”, faz referência ao petróleo, elemento que demanda milhões de anos para ser produzido no subsolo mas que produz transformações tão velozes na paisagem da superfície. Um recorte de cinco fotos dessa série está em exibição no Tomie Ohtake, e reflete sobre as monarquias petrolíferas da região do Golfo Pérsico como a Arábia Saudita, Barém, Qatar e Emirados Árabes.

Na entrevista, alguns assuntos tratados são a nossa condição de “nômades”, seja por conta de trabalho ou do turismo, e da nossa tendência em cairmos em um “sedentarismo mental”. Roger nos fala da primazia da imagem sobre o real, da sua predisposição por não representar pessoas, sobre a substituição do “instante decisivo”, termo célebre do fotógrafo Henri Cartier Bresson, pela imagem em movimento.

NPC – Você menciona que a viagem é uma condição sine qua non para a sua produção. Você poderia nos contar como se dá a escolha dos lugares visitados e como a descoberta desses lugares influem no seu processo criativo?
RG – De fato, a viagem é o método e o fio condutor do meu projeto artístico. Eu acredito que, no mundo globalizado contemporâneo, capitalismo e tecnologia formaram um perverso binômio em que o ser humano se autoexplora através do trabalho em um contexto geralmente urbano e desnaturado. Isso leva a uma alienação cada vez mais grave.

Eu acho que talvez a viagem seja uma das brechas de que dispomos para nos libertarmos desse estado de crescente estranhamento. Pelo menos no meu caso, isso funciona no que diz respeito à minha criatividade.

É certo que a população mundial se move cada vez mais pelo planeta, mas isso nem sempre significa que, em seus deslocamentos, se chegue a uma liberação ou uma autoconsciência. Sim, os “nômades” pós-modernos são conhecidos por se mover ininterruptamente de um canto ao outro do planeta por causa de seu trabalho ou do turismo. Mas em muitos casos, esse nomadismo global está associado a um certo sedentarismo mental. Movemos nossos corpos dentro de nossa bolha de conforto mental e cultural. Em meus projetos-viagem, tento evitar esse sedentarismo mental fazendo uma “tabula rasa” e me comportando mais como um viajante com a mente em branco do que um turista que vai à caça “fotográfica” de imagens preconcebidas.

Em séries como ‘Atena’, que são consequência de viagens de um tempo relativamente curto – quarenta dias por todo o continente europeu -, os destinos foram escolhidos com base em um processo bastante racional de construção conceitual do projeto antes da viagem. Em seguida, a própria jornada envolve surpresas e mudanças que sempre vêm enriquecer o trabalho através do que chamo deriva, uma forma de deslocamento físico em que o acaso é essencial.

Em trabalhos de longa duração como ‘Min Turab’ ou ‘Ha Aretz’ – desenvolvidos durante sete ou oito anos cada um –, a escolha dos destinos tem quase sempre a ver com aspectos ligados à minha vida pessoal ou profissional. ‘Min Turab’, por exemplo, foi resultado de eu estar trabalhando como fotógrafo oficial da família real do reino da Arábia Saudita. Quando cheguei ao país, fiquei fascinado por essa sensação de estar vivendo simultaneamente no século XXI e na Idade Média. Decidi embarcar em um trabalho sobre o petróleo, um elemento formado no subsolo cuja criação demanda à natureza milhões de anos e que, quando nós humanos o extraímos para a superfície, isso causa uma mudança radical na paisagem em um tempo extremamente curto.

NPC – Estar em constante trânsito influi na escolha de seus equipamentos? Com quais câmeras você usualmente trabalha?
RG – Ao longo dos anos, aprendi a simplificar o equipamento. Eu trabalho com dois equipamentos, ambos de fotografia digital. A escolha depende da viagem e das condições ou características do local a ser fotografado. O equipamento padrão é uma Canon 5D com diferentes objetivas Canon, de uma 20mm a uma 70-200mm. Para projetos em que a paisagem e a arquitetura são o mais importante, eu tenho um equipamento digital Hasselblad H5D com objetivas de 40mm e 80mm.

NPC – Em sua representação dos espaços pós-modernos, são recorrentes as explorações do excessivo, do luxuoso, do fake e do trompe-l’oeil. Como você entende esses elementos?
RG – Se não fizermos algo, a nossa civilização viajará rapidamente rumo a um mundo cada vez mais complexo, sofisticado e distante da natureza. A tensão entre o natural e o artificial é um dos eixos centrais da minha produção. Nesse sentido, os espaços pós-modernos me permitem falar sobre esse futuro que já é o presente. É por isso que o meu trabalho representa tanto as zonas urbanas periféricas, os lugares internodais e as zonas difusas que separam o urbano do rural. A pós-modernidade criou esses espaços chamados “não lugares”, onde o ser humano não tem uma conexão com a história ou a memória; lugares de passagem, desumanizados, pensados para uso e consumo, mas onde passamos a maior parte da vida (estradas, aeroportos, shoppings, parques temáticos, etc.). Esses espaços são um bom terreno para minhas fotografias porque eu acho que eles falam muito sobre uma sociedade contemporânea baseada mais na exploração e no rendimento do que em uma harmonia entre o humano e a natureza. O luxo é uma das patologias do presente, é uma necessidade criada a partir de imagens. E aqui está o núcleo da minha tese: vivemos em um mundo onde a imagem (em seu sentido mais amplo) já ganhou mais presença e importância do que a própria realidade. Estamos imersos no mundo do simulacro, onde a imagem do real já é mais real do que a própria realidade. Nesse sentido, o fake talvez seja outra das manifestações de uma sociedade doente onde a verdade não tem mais valor.

NPC – Há ironia ou isenção na forma como você trata desses temas?
RG – De fato, em minha produção há sempre certo grau de ironia e senso de humor. Isso também está presente na série ‘Min Turab’, que lança uma crítica sutil a certos processos de evolução das monarquias petrolíferas da região do Golfo, que resultaram, sob meu ponto de vista, de numerosos paradoxos ou contradições.

A série ‘Atena’ trazia uma crítica mais direta e voltada para o papel da Europa no contexto mundial e, especificamente, no que se refere à hipocrisia de algumas instituições europeias que, sob a pretensão de valores do Ocidente, não escondem mais do que o egoísmo de um capitalismo financeiro explorador e decadente. No entanto, essa crítica foi realizada indiretamente, através do documento fotográfico de algumas paisagens deprimentes que remetiam a um continente inquietante e desorientado.

NPC – O contraste das cores chama especial atenção em seu trabalho. Como se dá o processo de tratamento e revelação de suas imagens?
RG – No caso específico de ‘Min Turab’, a cor tem uma profundidade especial, uma vez que eu a associo metaforicamente à pós-modernidade, em oposição aos tons do deserto, à paisagem primária que ocupa noventa por cento da península Arábica e que poderia ser representada formalmente como uma tela quase monocromática de tons ocres. Se a tradição e história dessa região do Oriente Médio é monocromática, o presente é policromático e saturado. No nível de pós-produção e tratamento das imagens, não houve nenhuma distorção ou manipulação digital significativa. Em alguns casos, uma ligeira saturação cromática e uma sutil mudança de tom para enfatizar esse diálogo entre cromático e neutro.

NPC – É possível notar uma ausência de figuras humanas em seus trabalhos. Como essa ausência se relaciona com a sua leitura dessa paisagem?
RG – Em minha produção, a figura humana não é a protagonista. A presença humana é geralmente colateral e vem para adicionar alguma camada de significado, mas eu estou mais interessado no rastro humano do que no próprio humano. Nesse sentido, poderíamos dizer que falo do humano abstrato a partir do que foi construído pelos humanos em particular. Eu sou um fotógrafo de paisagem que pretende investigar a humanidade a partir da fotografia da ausência do humano.

NPC – Algumas de suas imagens nos dão a sensação de estarmos vendo uma foto antes da foto oficial, isto é, a foto daquilo que ainda não deveria aparecer. Mas o rigor dos enquadramentos e das linhas verticais não nos permite pensar em fotos espontâneas ou “acidentais”. Vou citar como exemplo um trabalho no qual vemos cadeiras e sofás vazios próximos a um mar azul exuberante (Doha, Qatar, 2012), o que nos faz imaginar quem ainda iria se sentar ali.
RG – Com a tecnologia digital, o que denominamos hoje de pós-fotografia perdeu o “instante decisivo” do célebre Cartier-Bresson. Partimos daquele instante único que continha em si mesmo toda a verdade e a emoção do antes e do depois para idolatrar a imagem em movimento ou a rajada fotográfica. Já não fazemos fotos individuais tiradas do devir do tempo, e sim fazemos vídeos em uma pretensão universal de possuir mais e melhor.

As minhas fotos não se baseiam na ideia do instantâneo extraordinário porque nelas eu quase sempre eliminei a ideia de ação. Nada se move. E se nada se move, que diferença faz um segundo antes ou um segundo depois… É o instante eterno, esse instante que dura para sempre e no qual o silêncio preenche toda a imagem. Em um mundo super saturado pelo ruído e pela informação, prefiro gerar imagens silenciosas e estáticas nas quais, em vez de buscar o espetacular, prefiro sentar e me dedicar à observação do ordinário que, em sua extração, se converte em extraordinário.

NPC – A série ‘Min Turab’ está entre a linguagem documental e a fotografia do autor. Quais são suas influências?
RG – Totalmente. Minha produção oscila entre o trabalho documental e a fotografia artística. Talvez se possa dizer que em meu trabalho há um documento porque é uma representação mais ou menos fiel e objetiva da realidade; e é uma obra de autor porque parte de pressupostos estéticos e conceituais próprios e independentes, alheios às demandas comerciais.

Minhas referências são variadas, mas o mais claro e direto é a escola de paisagistas norte-americanos que, no final dos anos 70, se reuniram em torno da amostra ‘New Topographics’: Robert Adams, Stephen Shore, Lewis Baltz, Frank Gohlke etc. Estes autores propuseram pela primeira vez na história da fotografia uma busca pela representação da paisagem real em oposição à paisagem ideal, rompendo com os preconceitos clássicos de paisagismo ligado ao romantismo.

NPC – Não deixo de notar, sobretudo nas fotos de ambientes internos, um certo diálogo com as imagens do fotógrafo italiano Luigi Ghirri, pelo seu interesse na paisagem ordinária, pela imagem da imagem e em priorizar o rastro do humano ao invés do próprio corpo humano.
RG – É certo que existe uma conexão com o trabalho de Ghirri. Por exemplo, a frontalidade com que o mestre italiano fotografou suas paisagens também está muito presente na minha maneira de ver a paisagem e o território. Essa frontalidade dilui a emoção do autor para enfatizar, através de um ponto de vista mais neutro, a percepção da fotografia pelo espectador. Em sua obra há também um interesse pela ressonância entre o antigo e o novo, a história e o presente. Na Espanha, tenho especial admiração pelo trabalho de Manolo Laguillo e Jordi Bernadó.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.