Rolezinho VIP

Cleusa Garfinkel passa a primeira tarde da SP-Arte com a reportagem da seLecT, comprando obras pra sua coleção pessoal e para doação a museus

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 14/04/2014

Categoria: Da Hora, Mercado de Arte

A colecionadora com obra de Ubi Bava doada ao MAM-SP

A energia da colecionadora de arte Cleusa Garfinkel, primeira-dama de uma grande seguradora, parece inesgotável. Ainda mais quando está num de seus ambientes preferidos: uma feira de arte. Frequentadora assídua dos eventos do gênero ao redor do mundo, ela admite: “o que é colecionar? É um vício. Você pode ter um vício em coca-cola, em outras coisas, e também por arte. Esse é o meu: vou a museus, a feiras, conheço os artistas, ajudo no possível, etc.”

A reportagem de seLecT acompanhou a rodada de compras que a colecionadora fez na primeira tarde da SP-Arte, reservada para os VIPs (veja galeria de imagens). A bordo de botas Chanel e a bolsa-fetiche Birkin, da Hermès (que tem fila de espera para ser comprada), e sem ter almoçado, Cleusa demonstrou pique invejável circulando pelos extensos corredores do prédio da Bienal. Se a feira tem um espectador ideal, é ela: endinheirada, apaixonada por arte e disposta a gastar, ela é a alma (ou o bolso) do negócio. Por onde passa, tem portas e sorrisos abertos: todos querem ser alvo de sua escolha.

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Cleusa recebe as boas-vindas de Fernanda Feitosa

Mas não só seu gosto por obras faz dela uma pessoa querida no meio: é extrovertida, de riso fácil e conversa desde com o garçom do quiosque até com os galeristas da mesma forma espontânea. “Ah, tem que rir, mesmo, ficar fazendo pose, de cara amarrada, para que?”

Talvez o espírito leve seja uma das razões pela qual a colecionadora é também uma das maiores doadoras do país. Todos os anos, sai pela feira com os curadores de dois ou três dos principais museus para escolher uma obra com teto estipulado por ela, além de insistir para que seus amigos colecionadores façam o mesmo. “Todos deveriam fazer doações pra museus. Esse ou aquele, não importa, não custa você ajudar, eu já ajudei muitos artistas.” Apesar de não entrar em valores, pode-se dizer que é generosa. E se a diferença do preço da obra para mais for pequena, ela às vezes até ultrapassa o próprio limite estipulado. “Vou deixar de doar por causa de uma quantia pequena? Claro que autorizo a compra.” Por pequena, entenda-se um valor de quatro dígitos.

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Pausa para um refresco com as amigas Serena Viceli e Marilene Maggioni

Neste ano, os agraciados na SP-Arte foram o Museu de Arte Moderna de São Paulo, com uma obra de Ubi Bava, arrematada com o galerista Ronie Mesquita; a Pinacoteca do Estado de São Paulo, com uma série de Vânia Mignone adquirida de Ricardo Trevisan, da Triângulo; e o Museu de Arte do Rio, que levou para o acervo uma bandeira de dinheiro de Lourival Cuquinha amealhada na galeria pernambucana Amparo 60.

Se a generosidade tem uma devolutiva, é na forma de consultoria: Cleusa aproveita para ouvir os conselhos dos curadores das instituições, no caso Felipe Chaimovich (MAM), Ivo Mesquita (Pinacoteca) e Paulo Herkenhoff (MAR). Das obras que doou para MAM e MAR, comprou uma similar para seu acervo: a outra bandeira de Cuquinha, da paulistana Baró; e um exemplar duplo de Ubi Bava também de Ronie Mesquita. Ter uma obra quase igual a de um acervo de instituição especializada é garantia de valorização da peça.

Graças a essa atitude benemérita ainda rara em solo nacional, Cleusa ganha destaque também entre diretores dessas instituições. “A Cleusa é um exemplo, porque é difícil no Brasil você ter gente que apoia instituições culturais, principalmente de artes plásticas, e ela apoia sistematicamente”, diz Flavia Velloso, ex-coordenadora do Núcleo Contemporâneo do MAM, responsável por iniciar a parceria de doações entre a colecionadora e o museu há cerca de cinco anos.

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O diretor da Pinacoteca, Ivo Mesquita, escolhe a obra doada por Cleusa

Quem reitera a opinião é Ivo Mesquita, diretor da Pinacoteca. “A Cleusa nos ofereceu um presente super generoso e nos disse para escolher. Mostramos a obra [de Vânia Mignone] para ela, que adorou, e ficamos todos super felizes. Não tínhamos nenhuma obra dessa artista, é a primeira obra da Mignone que entra para o acervo da Pinacoteca. É um trabalho importante, porque a Vânia começou fazendo xilogravura, e ele tem essa qualidade, de retomar sua produção inicial”, diz o curador.

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Ricardo Trevisan, da Casa Triângulo, teve um tríptico de Albano Afonso e uma série de Vânia Mignone comprados pela colecionadora

Outro fator que conta é o local de destino da obra. O tríptico From the Series Landscape Crystallisation, July 2013, Rio de Janeiro, 2014, de Albano Afonso, foi escolhido para ir para a fazenda da colecionadora, com seu enfoque em mata fechada. Por ser predominantemente branco, um pequeno quadro-instalação de Waltercio Caldas, adquirido do galerista norte-americano Christopher Grimes, tem por destino sua casa em Miami. “Estou comprando muita obra branca para lá”, diz Cleusa, que não compra por impulso, namora as obras por um tempo até definir o arremate. “Eu já tinha visto esse trabalho na Arco.”

No entanto, nem tudo que deseja há tempos ela chega a comprar. Um dos espelhos de Michelangelo Pistoletto, Louvre (Ragazza), de posse da italiana Galleria Continua é sonho de consumo da colecionadora há várias feiras. Orçado em R$ 660 mil, o trabalho de grandes dimensões (2,50 x 1,50 m), não chega a ser uma aquisição impossível. “Não é que a obra esteja totalmente fora das minhas possibilidades, até poderia comprar, mas tem coisas que é bom a gente deixar pra depois, pra continuar querendo.”

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O curador Paulo Herkenhoff, Lourival Cuquinha e Cleusa

Se a SP-Arte tem suas excentricidades, Cleusa também participa. Foi ela quem cortou a barba, adornada com uma série de moedas, que Lourival Cuquinha manteve por quatro anos, a preço que ultrapassa em pouco a dezena de milhar. “Corta logo, Cleusa, isso aqui está pesado”, pedia o artista no stand da Baró Galeria. Ao lado de uma esfuziante Maria Baró e do curador do MAR, Paulo Herkenhoff, a colecionadora empunhou a tesoura e livrou o artista pernambucano de seu fardo – além de acrescentar valores ao seu saldo na feira, comprando sua barba e duas bandeiras.

“Desde meus outros trabalhos que Cleusa já comprou (ela é dona de uma seguradora, né), vejo que ela entende essa ideia de especulação de dinheiro, de mercado que minha obra aborda. Minha obra é crítica, sim, mas meio por dentro, ela se alimenta dessa especulação do mercado de arte e ao mesmo tempo evidencia esse mecanismo. Como se fosse situacionista também, como se você pichasse um outdoor pra se aproveitar da visualidade que ele tem”, diz Cuquinha.

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A colecionadora e Eliana Finkelstein, da Galeria Vermelho

De fato, a colecionadora tem olho afiado e faz suas próprias escolhas em matéria de arte, buriladas por uma intensa atuação no meio. “Se um artista está fazendo uma exposição e não tem um vinho, uma castanha para a abertura, eu ajudo. Várias exposições fora do país, às vezes no MoMA, às vezes na Arco, por exemplo, eu ajudo, quando é de artista brasileiro. ‘Sponsor’ é isso, afinal, não?” Leva em conta também o fator de valorização da obra, acompanhando a carreira de artistas que a interessam para ver a constância de seus trabalhos. “Não vou investir em artista que não tem um compromisso com sua obra.”

Mas o que pauta suas escolhas definitivamente é a capacidade da arte de agir sobre o espectador. “A arte eleva, é algo com que cada dia se aprende mais, e quanto mais instigante é a obra, mais você quer conhecer. Arte você não compra pra enfeitar, você compra porque o artista tenta passar algo.” Viciada e apaixonada, Cleusa foi vista pela reportagem de seLecT circulando pela feira ainda na quinta e na sexta. Será que estará por lá também neste sábado e domingo?

*Fotos de Paulo D’Alessandro

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