Rosa Luz contra as milícias ideológicas

Caso de terrorismo digital envolve a artista, rapper e ativista trans Rosa Luz, enquanto projeto de lei contra fake news tramita no Senado

Paula Alzugaray

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: Da Hora, Destaque

E Se a Arte Fosse Travesti? (2016), obra de Rosa Luz

A história recente do Brasil está repleta de casos de campanhas de ódio e intolerância dirigidas a artistas, na internet. Durante uma pandemia, quando se espera que a empatia e a solidariedade possam falar mais alto, o discurso do ódio impregnado de fake news se institucionaliza – ao que tudo indica, patrocinado pelo governo federal. O mais recente caso de terrorismo digital envolve Rosa Luz, artista visual, cantora de rap e ativista da visibilidade LGBTQIA+.

É difícil detectar qual teria sido o ovo da serpente, o elemento precipitador do fato de uma pequena, mas extremamente raivosa, parcela da sociedade brasileira, acometida por um estranho complexo de polícia ideológica, se sentir à vontade para começar a externar e a banalizar seus instintos mais bárbaros, buscando impor à outra parcela da população –segundo pesquisas de opinião, a maioria – sua visão obtusa de mundo. 

Alguns anos antes que as milícias digitais fomentassem algo da ordem e da grandeza das deep fakes, uma performance apresentada em um importante museu paulistano se transformou em uma fogueira de proporções medievais. Todos se lembram bem de quando um fragmento de gravação – um vídeo amador com a imagem de uma criança tocando o tornozelo de um artista – foi retirado de contexto e atirado aos leões de plantão na internet. Há três anos, a performance La Bête mobilizou meia dúzia de desocupados histéricos na porta do MAM SP, mas incitou uma campanha de vulto e fúria consideravelmente maiores, nas redes sociais.  

Hoje sabemos mais sobre a cultura do ódio alimentada no Brasil do que sabíamos no momento daquele 35º Panorama da Arte Brasileira. Um projeto de lei sobre fake news tramita neste momento no Senado, enfrentando a oposição de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Sabemos também que a milícia ideológica das redes reserva a maior parte de sua munição contra a arte e os artistas. Mas sabemos bem porque: simplesmente pelo fato de a arte ser uma ferramenta afiada na construção de um espaço civilizatório para enfrentar o mar de barbárie difamação. 

Neste tempo de peste, quando desigualdades sociais e econômicas se confirmam determinantes para o risco de morte e infecção pela doença causada pelo novo coronavírus, e a letalidade das polícias permanece ativa sobre a população negra e pobre, a cultura do ódio tem encontrado munição para aperfeiçoar seus métodos truculentos.

Nos porões da internet
Em 10/5, Rosa Luz postou o single de um novo rap que compôs sobre o racismo na música brasileira, ilustrado com uma pintura em que posa com a cabeça de um homem branco decapitado nas mãos, que rapidamente foi associado ao presidente Bolsonaro, nas redes. O sangue na própria face e na cabeça masculina indicam que a cena muito possivelmente tenha se seguido a uma luta de vida ou morte. 

Presume-se que a batalha travada simbolicamente entre Rosa Luz e o homem branco de feições similares ao atual mandatário do poder nacional é a mesma que a cada ano enfrenta os patamares recordes de assassinatos de pessoas trans. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2019, 124 foram mortas com requintes de crueldade, mantendo o Brasil na liderança da transfobia mundial. A imagem da pintura, no entanto, representa uma sucessão de batalhas que, felizmente, Rosa Luz tem vencido, desde que encontrou na arte e na música seu caminho de empoderamento e de questionamento do racismo e da violência. 

Natural de Gama, cidade-satélite de Brasília, aos 17 anos Rosa Luz se assumiu mulher e entrou no curso de Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília. Ao mesmo tempo em que construía uma imagem pública no canal Barraco da Rosa, no YouTube, onde produzia palestras de arte e ativismo, ela produzia um trabalho conceitual, com a série fotográfica Mulher Trans Eliminada – Ou O Brasil É O País Que Mais Mata Travestis E Transsexuais No Mundo!. Em 2018, seu autorretrato E Se a Arte Fosse Travesti? (2015) foi capa da edição # 38 da seLecT, dedicada ao tema gênero, e em 2019, Luz integrou o 36º Panorama da Arte Brasileira, no MAM SP, com curadoria de Julia Rebouças. 

“Participar das exposições nas instituições citadas era o que a Rosa Luz de 17 anos sonhava”, declarou ela em entrevista à revista Zum, em janeiro de 2020. “Foi tanta violência institucional e perrengue pra sobreviver na vida que a Rosa Luz de 24 anos está mais preocupada em ter qualidade de vida, sem precisar da validação de qualquer instituição”. Do debate em que participou na SP-Arte, em 2018, sobre arte e gênero, derivou o vídeo Por Que Tão Branca?, uma crítica à ausência de diversidade no mundo das artes visuais no Brasil, em “herança da colonização”. 

Rosa Luz, que sempre fez a diferença pelo tom e contundência de sua crítica, atribui a reação massiva à imagem da pintura publicada em maio (que credita à sua irmã) a uma inversão de narrativa. “Em um momento politico em que o presidente dissemina fake news e discursos de ódio, basta uma pequena alternância de poder para percebermos que o Brasil é um país que foi ensinado a odiar corpos trans, negros e LGBTQIA+s que se posicionam”, afirmou em um vídeo postado quinta feira, 25/6. Bilíngue português-inglês, o vídeo foi produzido inicialmente para buscar ajuda junto a organismos internacionais de defesa dos direitos humanos. Graças ao apoio recebido da Front Line Defenders, Rosa Luz voltou à ativa nas redes. 

A campanha difamatória que recebeu e as ameaças de morte sofridas – muitas reproduzidas no vídeo – formam um espetáculo de horrores, que trazem à tona o estado de deterioração mental e afetiva em que se encontra a sociedade brasileira. Evoca a lembrança de Marielle, Amarildo, João Pedro, Ágatha e tantas pessoas trans, ou não, cujo desaparecimento não foi esclarecido e cujos responsáveis não foram identificados e punidos e de tantos artistas aterrorizados por inimigos secretos. Como Schwartz, ameaçado de morte 150 vezes e difamado por memes que circulavam pelas páginas do então deputado Jair Bolsonaro – mas que o artista conseguiu retirar do ar, como disse em entrevista à jornalista Márion Strecker para a seLecT #42. 

Ameaçadas, as vítimas do terrorismo político do Brasil contemporâneo são incitadas a suicídios simbólicos – apagando seus perfis e desaparecendo das redes sociais –, ou são difamadas pela falsa notícia de terem cometido suicídio, como aconteceu com Wagner Schwartz. Situações extremas que afinal só confirmam o que o filósofo Vladimir Safatle chamou de um “estado suicidário” do governo. Isto é, um poder estruturado sobre “um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos”. 

Se tivesse acontecido um mês depois, a degola do homem branco pelas mãos de Rosa Luz poderia ter sido assimilada ao contexto das manifestações globais do movimento Black Lives Matter, ressuscitadas face o assassinato de mais um homem negro por um policial branco, nos Estados Unidos – o que fez rolar muitas cabeças de estátuas e símbolos do passado colonial, em várias cidades do mundo. 

Contra a “banalização do mal”, parafraseando Hannah Arendt, e a disseminação desse padrão nefasto na realidade brasileira, hoje se aparelham e se organizam os artistas em lutas democráticas, nas redes e ruas, portanto a bandeira do anti-fascismo. Esse é o assunto de uma próxima reportagem.

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