Ruína antes de ser construção

Curadoria de Catalina Lozano no Pivô escava séries de trabalhos sobre rachaduras da linguagem e da comunicação

Paula Alzugaray

Publicado em: 19/04/2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Vídeo Lobisomem (2016), de Janaina Wagner (Foto: Pivô/ Everton Ballardin)

Em junho de 2014, no Projeto Gameleira 1971, Lais Myrrha instalou no Pivô uma passarela precária para a visitação da memória da Gameleira, um dos maiores acidentes da construção civil brasileira. O evento, que confirmou a visão de Lévi-Strauss sobre os tristes trópicos brasileiros, foi ruína antes de ser construção. Deixou 117 operários mortos ou desaparecidos sob os escombros da obra pública com projeto de Oscar Niemeyer. Mas foi alçado do esquecimento pela instalação da artista mineira e voltou ao debate público.

A pesquisa de Lais Myrrha sobre demolições, desabamentos e o fracasso do projeto desenvolvimentista brasileiro não integra a mostra Uma História Natural das Ruínas, curadoria da colombiana Catalina Lozano, em cartaz no Pivô. Mas ocupou o mesmo espaço monumental, no térreo do Edifício Copan, em São Paulo, e permanece, como uma aparição benigna, na história dessa pungente instituição cultural paulistana. Aquele trabalho de desvelamento da “falsa memoria de um modernismo vitorioso”, nas palavras da artista, soma-se a outros espectros do progresso e da modernização do período ditatorial brasileiro, como a rodovia Transamazônica, entre outras ruínas.

A fantasmagoria é uma presença constante em Uma História Natural das Ruínas. A começar pela obra que pontua o início do trajeto expositivo, Fantomas, de Daniel Steegman Mangrané, que, segundo a curadora, funciona como um alfabeto suspenso no espaço, sinalizando as diversas investigações sobre a linguagem – ou sobre a ausência da linguagem na comunicação –, assumidas pelos trabalhos dos 15 artistas reunidos na coletiva.

A qualidade espectral encontra-se especialmente na articulação porosa entre ficções, fábulas, narrativas científicas ou enciclopédicas – ou no questionamento da separação entre natureza e cultura, que a curadora afirma ser artificialmente construída pela modernidade –, presentes nos trabalhos de Janaina Wagner (Lobisomem), Louidgi Beltrame (Amanecer Perpetuo) e Isuma (Inuit Knowledge and Climate Change), que demonstra a visão indígena sobre as mudanças climáticas.

Hii horewe pe (2019),
de Sheroanawe Hakihiiwe (Foto: Pivô/ Everton Ballardin)

Ao assumir como um eixo central a revisão de processos de apagamento histórico e a elucidação de estratégias de sobrevivência em contextos pós-coloniais, a mostra é especialmente feliz em tramar, em sua tessitura curatorial, a interação entre narrativas de artistas de origem indígena e não indígena. Traz à tona obras de rara potência, como os desenhos em papel de Sheroanawe Hakihiiwe, de tradição Yanomâmi, ou os desenhos espaciais de Minia Biabiany (Como o Vento Sopra com Enxofre no Céu), natural da colônia francesa de Guadalupe.

Já Reinserción em Circuitos Ecológicos (2019), de Lina Mazenett & David Quiroga, apesar de pecar pela aproximação com Quarta-Feira de Cinzas, de Rivane Neuenschwander e Cao Guimarães, de 2006 – pois promove o retorno de folhas de ouro à terra, transportadas por formigas –, contribui afinal para a escritura de uma história da arte não eurocêntrica ao parecer querer homenagear a série das Inserções em Circuitos Ideológicos (1970) de Cildo Meireles.

Embora finalizada em 17/4, a mostra tem no site do Pivô uma ótima visita guiada pela curadora, o que confere ao projeto a merecida memória para aproveitamento em futuras pesquisas e interlocuções.

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