Sabedorias ancestrais e linhas delimitadoras 

Trabalhos inéditos de Sebastião Januário são reunidos em rara exposição individual, em São Paulo

Cris Ambrósio

Publicado em: 14/04/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Sebastião Januário em seu ateliê no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação/Zakee Kuduro)

Sebastião Januário fica em cartaz na sede paulistana da galeria Periscópio até o final do mês de abril: Cores Para Esquecer tem curadoria da pesquisadora e artista Camilla Rocha Campos e é o primeiro resultado de um levantamento de quase um ano da obra do artista mineiro. A convite do galerista Rodrigo Mitre, a investigação buscou trabalhos de Januário em diversas coleções e acervos e contou com uma série de visitas ao artista. Uma entrevista em vídeo está em exibição no espaço, assim como várias obras e objetos que vieram diretamente de sua residência, no Rio de Janeiro.

Januário faz parte do circuito de arte desde sua mudança para o Rio, nos anos 1960, desenvolvendo uma carreira em pintura, ilustração e cenografia, que se mantém até hoje, aos 83 anos. No entanto, segundo Camilla Rocha Campos, a historiografia situou o artista em narrativas limitadoras, que ora reproduzem cacoetes ao descrevê-lo dentro dos estereótipos do homem preto interiorano que se aventura em uma produção artística julgada exótica pela sua mera existência, ora destinam atenção para setores da sua obra que vão de encontro a interesses específicos, fechando-se para outros. A curadora escolhe cuidadosamente as palavras para apresentar o trabalho de Januário, nesta que é uma rara exposição do artista em anos. Dessa forma, chama atenção para a responsabilidade ética e teórica que a descrição de um trabalho extenso e ainda em andamento exige. 

As pinturas expostas são, em sua maioria, recentes, e algumas produzidas durante a pandemia. Os blocos de cores vibrantes, rígidos e delineados por pesadas linhas pretas remetem a vitrais de igrejas em sua construção pictórica, mas sem a solenidade que vem ombro a ombro com a arte sacra. As iconografias cristã e católica são assunto de longa data para Januário, como mostram alguns dos trabalhos das décadas de 1970 e 80, embora a curadora enfatize que uma das delimitações a que a obra do artista foi submetida pela historiografia moderna seja a alcunha de “pintura religiosa”. 

Sebastião Januário com Camilla Rocha Campos, curadora da mostra Cores Para Esquecer (Foto: Divulgação/Zakee Kuduro)

Mosaico de referências
Vistas desde a rua, na vila onde fica a galeria, vitrine e parede de entrada da exposição acabam funcionando como um texto em forma de composição visual, mapeando algumas informações cronológicas e biográficas, e argumentando contra as linhas fronteiriças que foram colocadas em volta da sua produção. 

O mosaico de referências abarca a produção artística da mãe, objetos de família, convites de exposições e três objetos intrigantes. Um, a fotografia do seu tio, quem o recebeu na sua chegada ao Rio de Janeiro, o escritor Orlando Djogh Horid, estudioso de alquimia e astrologia, com a inscrição “Prof. Djogh Horid. Único brazileiro que se enterra vivo. Sorocaba – 9 – 11 – 919”. À direita, uma pintura amarelo ouro, com um fundo geométrico e, em primeiro plano, a serpente (Dan, em yorubá), presenteada pelo amigo Abdias Nascimento, que começou a pintar por influência sua; esta pintura em especial, que Nascimento fez em 1972, quando estava exilado nos EUA, era desconhecida até de pessoas próximas a Januário. O terceiro objeto é um desenho feito a caneta esferográfica preta de uma figura humana grávida e com pés de ave, repleta de referências ao candomblé, à umbanda e a mitologias grega e egípcias. Os três elementos remontam a tradições ancestrais, relações de afeto e, sobretudo, ao cotidiano; da mesma forma que a imagética cristã branca também é cotidiana.

Camilla Rocha Campos conta que o nome da exposição, Cores Para Esquecer, faz referência a esse entrecruzamento de repertórios e à existência simultânea de imagens cuja construção histórica às vezes vai de encontro às outras, na obra de um mesmo artista, dentro de um mesmo corpo de interesses e crenças. “Não é propriamente um exercício de ida e vinda, é um exercício de concomitância”, diz a curadora.

Serviço
Cores Para Esquecer – Sebastião Januário; na Galeria Periscópio – Espaço C.A.M.A. (Alameda Lorena, 1257, Casa 4); até 30/4

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