Saberes ancestrais

A cordelista Auritha Tabajara diz escrever com as vozes da terra, da água, do vento, da chuva e dos animais

Nina Rahe

N° Edição: 49

Publicado em: 20/04/2021

Categoria: A Revista, Destaque, leitura

Fragmento do texto de Auritha Tabajara

Durante três anos e seis meses, enquanto fazia magistério, Auritha Tabajara não perdeu uma única aula. Nesse período, todos os dias, ela ia transformando o conteúdo das disciplinas a que assistia em literatura de cordel. O resultado do processo está no livro Magistério Indígena em Verso e Prosa, que foi publicado em 2007 e adotado pela Secretaria de Educação do Estado do Ceará como obra obrigatória nas escolas públicas.
Mas a paixão por contar histórias, de acordo com a escritora, vem de muito antes, quando ainda estava na barriga da mãe. A afirmação é justificada pelo fato de sua avó ser parteira e uma das maiores contadoras de histórias do povo Tabajara. Foi ela, inclusive, quem escolheu o nome ancestral Auritha para chamar a neta, batizada oficialmente como Francisca Aurilene Gomes. E não só: por ouvir da matriarca a constatação de que “tudo passa”, a autora cresceu com a ideia de que, para que as outras gerações conheçam sua história, não é suficiente apenas escrever, mas necessário também publicar. Talvez por isso, desde que lançou seu primeiro livro, não tenha parado mais. Além dos folhetos Toda Luta e História do Povo Tabajara (2008), Diário de Auritha (2009), A Sagrada Pedra Encantada (2019) e A Grandeza Tabajara (2019), ela está para publicar o livro A Lenda do Jurerê, escrito em 2020, e conta com uma série de textos em antologias indígenas, como nas revistas Maria Firmino dos Reis e Acrobata.

Concluir Corações na Aldeia, Pés no Mundo, seu segundo livro, que lhe rendeu o título de primeira escritora cordelista indígena, Auritha relembra, não foi nada simples. “Cordel é simples de ler e entender, mas não é nada fácil para escrever”, diz. “As pessoas não acreditavam que poderia fazer sucesso.” O lançamento só aconteceu com o incentivo de Daniel Munduruku, da Editora UKa, que sugeriu imprimir uma tiragem de mil exemplares como teste, para entender a aceitação do livro, que hoje está esgotado e ainda sem previsão para uma segunda edição.
Adaptar-se a São Paulo, cidade onde passou a viver em 2009, também foi uma tarefa árdua. O ritmo acelerado da cidade bloqueava a escrita da cordelista, que estava acostumada a produzir sentada na areia ou na raiz de uma árvore. A dificuldade de encontrar trabalhos formais, ainda, marcaram os 11 anos em que viveu na metrópole, onde por muito tempo foi cuidadora de idosos movida pelo desejo de ouvir histórias diferentes das que aprendeu em sua aldeia.
Auritha costuma dizer que a mulher indígena escreve com várias vozes: da terra, da natureza, da água, dos pássaros, do vento, da chuva, dos animais. As vozes ancestrais que, durante a pandemia, momento em que precisou retornar à sua aldeia – a 370 quilômetros da capital cearense –, se tornaram ainda mais próximas.

Texto de Auritha Tabajara

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