Sapas e outras bichas

Há quatro anos, em setembro de 2017, era fechada antecipadamente, pelo Santander Cultural em Porto Alegre, a exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira

Daniela Rosendo

N° Edição: 52

Publicado em: 23/05/2022

Categoria: A Revista, Colunas Móveis

Still do vídeo ALKA DOMO, 2017, de Sebatián Calfuqueo, artista chileno que integra os coletivos feministas Mapuche Rangiñtulelewfü e Yene Revista, e está na 34a Bienal de São Paulo
Sob inúmeros ataques conservadores – dignos do obscurantismo que vem crescendo nos últimos anos e que, no Brasil de 2021, já ocupa institucionalmente espaços de poder configurando uma teocracia –, a mostra sofreu novo ataque em 2018, quando foi levada ao Rio de Janeiro, após imensa mobilização para o financiamento coletivo que viabilizou a nova montagem. Meu corpo ainda lembra de algumas sensações que tive naquela época, especialmente pela forma como a série de Bia Leite, intitulada Criança Viada, me tocou. Fiquei tentando entender o que era aquele desconforto, sem conseguir alcançar com exatidão o que ele trazia à tona. Em princípio, eu não me encontrava nessa representação. Fui uma menina que soube do que gostar e como performar no mundo cis-heteronormativo. Os meus desvios à norma eram bem tolerados, pois ainda que não gostasse tanto assim de rosa nem de brincar com bonecas, eu correspondia bem ao ideal de feminilidade. Aliás, em alguns momentos eu me adequava tanto a ele que era, inclusive, repreendida por isso: eu adorava me maquiar, mas me chamavam a atenção quando passava batom escuro e forte nas minhas experimentações de dança. Na medida em que fui aprendendo o que era aceitável ou não aos olhos dos outros, muitas vezes me auto-censurei, sem precisar da advertência.

Já em 2020, no dia 12 de outubro, um grande amigo e colega da Filosofia, Fabio A. G. Oliveira, publicou Carta Aberta Para Quem Foi Uma Criança Viada, cuja leitura despertou empatia tanto por ele quanto por tantas outras crianças viadas. Talvez tenha, inclusive, tocado na minha própria criança. Na minha memória, foi só no início da adolescência que percebi não gostar apenas de meninos (como indicava a orientação heteronormativa), mas de meninas também. Mesmo assim, levei muitos anos para entender a minha sexualidade e me identificar como bissexual. Pelo sim, pelo não, independentemente de onde sou sensível a esse sofrimento, dói demais ler que “Ser uma criança viada era ser uma criança silenciosa e preferencialmente solitária”, como relatou Fabio, mesmo que hoje, orgulhosamente, afirme que “a criança viada que fui hoje é uma bicha”. Fabio e eu nos conhecemos em 2014, por iniciativa dele, que me contatou. Nos unimos pelo ecofeminismo – tema sobre o qual nos dedicamos –, mas isso não se restringe ao interesse por uma teoria estritamente acadêmica. Isso acontece porque os ecofeminismos são, de fato, um conjunto de teorias que articulam as questões de gênero e ambientais, às vezes incluindo também os animalismos e as discussões interespécies, mas não se limitam a isso. Ecofeminismos dizem respeito também às práticas contra a opressão, seja esta direcionada a humanos, à natureza ou, por vezes, a animais. Por isso, faz sentido falarmos em práxis ecofeministas, ou seja, de modo que as formas de pensar e agir no mundo estejam em constante diálogo, uma refletindo e impactando a outra reciprocamente.

ECOFEMINISMO QUEER E DECOLONIAL
Por meio da lente ecofeminista, conseguimos compreender que todas as formas de opressão estão conectadas pela mesma lógica da dominação, isto é, um raciocínio que visa justificar uma opressão que, na verdade, é injustificável. Isso é feito escolhendo uma característica de um grupo, que falta a outro, alegando que é ela que garante a superioridade. É assim que o machismo justifica a relação hierárquica superior dos homens em relação às mulheres. Essa lógica opera nos diversos “ismos” de dominação: racismo, sexismo, capacitismo, heterossexismo, cissexismo, especismo etc. Logo, se as opressões estão interconectadas, a superação também exige essa compreensão interseccional. Nenhuma teoria ou prática é efetivamente emancipatória se continua empurrando algum grupo de indivíduos para o lado de baixo do dualismo ou, indo além, se sustenta o próprio dualismo.

É aí que entra o alerta do ecofeminismo queer. É insuficiente, por exemplo, defender que não há superioridade de um dos lados dos diversos dualismos em detrimento do outro: homem/mulher, branco/negro, hétero/homo, humano/animal, cultura/natureza, razão/emoção etc. Tanto ecofeministas queer quanto feministas decoloniais têm mostrado quão necessário é superar a projeção cis-heteronormativa sobre humanos, animais e natureza, ampliar o próprio sujeito dos feminismos e questionar categorias construídas socialmente, como gênero, sexo, raça. Os ecofeminismos não podem parar no reconhecimento de que mulheres (tacitamente referindo-se às cisgêneras) são as que mais sofrem com os impactos dos problemas ambientais ou do protagonismo das mulheres por justiça socioambiental no Sul global.

É a partir dessa ampliação que um projeto ético-político ecofeminista, queer e decolonial pode contribuir com a superação das opressões e a construção de uma sociedade justa, na qual a diversidade – não só a sexual e de gênero, mas amplamente plural – não ceda espaço ao pensamento e às práticas autoritárias da monocultura. Nessa sociedade ainda utópica, as possibilidades biográficas são plurais, porquanto singulares. Cada indivíduo, seja humano ou não, poderá usufruir da liberdade de ser e estar no mundo com a possibilidade do seu pleno florescimento, sem medo de ser feliz. Enquanto as teorias e as práticas individuais e coletivas, que vão fissurando as estruturas do patriarcado capitalista, nos impulsionam em direção ao futuro utópico, que a arte continue sendo a expressão das existências plurais e fonte para a criatividade que o exercício da imaginação nos exige neste momento histórico.

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