Sarcástico, mas inteligente

Manifestos políticos e artísticos são interpretados por Cate Blanchett em filme de Julian Rosefeldt

Márion Strecker
Cate Blanchett no papel da mãe conservadora reza o manifesto I Am For an Art (1961), de Claes Oldenburg (Foto: Divulgação)

O que tem o Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels a ver com manifestos dada, situacionistas, futuristas, surrealistas ou da arte conceitual? Nada, exceto o sentido de urgência e a vontade de convencimento. Seus autores têm uma visão crítica do presente e idealizam o futuro.

Muitos manifestos têm caráter revolucionário e estão repletos de exageros. Manifestos artísticos frequentemente abusam de metáforas, com função retórica, e são escritos de maneira poética. Servem também para surpreender, fazer rir e estimular a imaginação do leitor ou ouvinte.

Lido em seu tempo, um manifesto em geral faz mais sentido, pelo contexto. Lido muito tempo depois por uma grande atriz, interpretando personagem que em nada se relaciona com o original, bem, aí pode resultar em puro sarcasmo.

O longa-metragem Manifesto, de Julian Rosenfeldt, estreou no Brasil durante a Mostra de Cinema de São Paulo, em outubro. Antes de virar filme, vinha sendo apresentado como instalação, com grandes telões em sala escura, cada um exibindo um personagem. Muitas cenas parecem ridicularizar os textos que lhe deram origem, arrancando risadas da plateia.

Exemplo: uma tradicional mãe de família está à mesa com os filhos e o marido, todos de olhos fechados e mãos unidas, simbolizando a submissão do homem diante de seu Criador. A mãe, muito rígida, dá início à reza antes do jantar. Em vez de uma oração, ela recita o Manifesto de Claes Oldenburg chamado Sou a Favor de uma Arte (1961).

“Sou a favor de uma arte que seja mítico-erótico-política, que vá além de sentar sua bunda num museu”, começa o texto. E prossegue: “Sou a favor de uma arte que tome suas formas das linhas da própria vida, que gire e se estenda e acumule e cuspa e goteje, e seja densa e tosca e franca e doce e estúpida, como a própria vida”. Quando um filho expressa discretamente estranhamento, é logo reprimido pelo olhar da mãe.

Cate Blanchett dá um show de interpretação nos 13 papéis que representa, entre eles o de uma apresentadora de telejornal, uma artista de marionetes, uma operadora de máquina que revira sucata, um sem-teto ou uma oradora de funeral.

Os textos são radicais e muito interessantes, como o Manifesto Dada, de Tristan Tzara, os Manifestos do Surrealismo, de André Breton, e os textos de Lars von Trier que embasam o movimento cinematográfico Dogma 95.

Só faltou Cate Blanchett ler o Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade: “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. | Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. | Tupi or not tupi, that is the question”.

Manifesto (2015), longa-metragem de Julian Rosefeldt, com Cate Blanchett. julianrosefeldt.com 

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