Saturação: raça, arte e a circulação de valor

Ensaios reunidos em livro apresentam debate qualificado sobre a violência colonial e a diversificação racial no campo artístico

Leandro Muniz, Paula Alzugaray

N° Edição: 48

Publicado em: 29/09/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Review

Still de Yo Ma Cracka (2017), de M. Lamar (Foto: Cortesia do artista / New Museum)

Editado pela pesquisadora e ativista C. Riley Snorton e pelo professor Hentyle Yapp, o livro Saturation: Race, Art and The Circulation of Value (Saturação: Raça, Arte e a Circulação de Valor) foi publicado este ano pelo New Museum em associação com a MIT Press. Entre análises, portfólios, relatos e debates, o livro conta com colaborações de pesquisadores como Gayatri Gopinath, Sarah Haley, Denise Ferreira da Silva, Lisa Lowe e artistas como Candice Lin, Jeffrey Gibson, Tina Takemoto e M. Lamar, entre outros. A publicação é dividida em duas partes: The Saturation of Institutional Life: Race, Globality and the Art Market (A Saturação da Vida Institucional: Raça, Globalidade e o Mercado de Arte) e Methods of Racial Matter and Saturation Points (Métodos da Questão Racial e Pontos de Saturação), em um exame rigoroso e complexo de como artistas e pesquisadores racializados ultrapassam, reiteram ou ficam condicionados às expectativas sobre seus corpos e discursos. Saturation é antes de tudo um debate sobre a questão racial nos frames da própria arte. 

O livro atende a uma pesquisa contínua do museu, que desde os anos 1980 investiga os desdobramentos e as consequências do modernismo e da modernidade nas relações entre arte, cultura e sociedade, seguindo outros títulos sobre cultura de massa, internet, transgeneridade, tecnologia e ativismos. Com viés marxista, a compilação busca entender o problema da raça no meio de arte, à luz de questões estruturais da economia e da história, considerando como as diferenças modulam a distribuição de poder na sociedade. 

Segundo o prefácio da diretora do museu, Lisa Phillips, essa pesquisa se reflete na programação, que incluiu, ao longo dos últimos anos, individuais de artistas como Lyle Ashton Harris (1993), Thornton Dial (1993), Faith Ringgold (1998), e Adrian Piper (2000), além de coletivas em torno das ideias de “representatividade e identidade”.

De saída, o livro reconhece que a inclusão de grupos “minoritários” nas instituições de arte – da produção artística aos cargos de poder – ainda que estes tenham aumentado nos últimos anos, é insuficiente. Mas o maior mérito do conjunto de textos é colocar em questão a própria estrutura institucional e epistemológica da arte. A questão racial não pode ser apenas um problema de representação, embora esse seja importante, mas deve estender-se à forma como as instituições operam, para além da previsibilidade de suas convenções.

Para fins de análise, destacamos alguns conceitos elaborados e discutidos ao longo do livro, apontando para a relevância dessa leitura no contexto brasileiro. 

Saturation: Race, Art, and The Circulation of Value (Foto: Cortesia New Museum / MIT Press)

Questionando a supremacia branca
O conceito de saturação é uma síntese feliz de um problema duplo: refere-se à materialidade das cores e pigmentos e à capacidade de uma solução ficar tão carregada, que se torna ineficaz ou imóvel, impedindo a adição de mais material. Também descreve os métodos adotados no livro que apontam para as contradições do debate racial na arte. 

Assim como o conceito de raça é uma construção atrelada ao início do capitalismo, a forma como compreendemos o espectro cromático vem da ótica newtoniana a partir do Tratado sobre Reflexões, Refrações, Inflexões e as Cores da Luz (1704). O astrônomo define a ideia de saturação como o ponto em que as cores puras mais se diferem do branco no círculo cromático. O branco ocupa o centro dessa discussão, correspondendo à visão eurocêntrica e de dominação ocidental sobre outras culturas. Ao partir e questionar a lógica newtoniana que informa nossa compreensão das cores e, por analogia, das raças, Saturation: Race, Art and The Circulation of Value mostra como as metodologias, formas de construção de conhecimento e instituições modelam nossa compreensão, sensibilidade e ação no mundo. 

Saturação é, portanto, um conceito que discute criticamente a supremacia branca no campo artístico, apontando a exaustão de certos códigos e os limites da própria ideia de representação, tão caro ao debate racial. Ainda na introdução os editores perguntam: “E se adicionarmos mais, isso vai resultar em uma mudança substantiva ou apenas criar condições mais confortáveis para os mesmos modos de operar?” 

Dilemas do excesso e a sociologia da exclusão
Os ensaios de Saturation compreendem a dimensão estrutural do debate sobre “diferenças identitárias”, como raça e gênero, junto a questões de concentração e distribuição de poder econômico e social, postos em perspectiva com problemas como globalização e hierarquias espaciais na geografia das cidades. 

Em Metaphors of Globalization and Dilemmas of Excess (Metáforas das Globalização e Dilemas do Excesso), Lisa Lowe reorienta essa discussão para a geopolítica, dissertando sobre a ideia do excesso como metáfora de modernidade e globalização.  

A aceleração e o excesso do volume de trocas e interdependências alcançam quase todas as esferas da atividade humana, nas últimas três décadas. Mas o consequente paradoxo entre a hibridização e a homogeneização de hábitos, costumes e valores sociopolíticos é equiparado, pela autora, à “dialética da modernidade” de Theodor Adorno, segundo a qual, novos modelos de miséria e destruição avançam em consequência das contradições implícitas nas promessas modernas de progresso e razão científica. 

Embora o comércio e a circulação global de bens, pessoas e valores tenham atingido uma condição sem precedentes no fim do século 20, a origem da globalização estaria nas transformações políticas estruturais da Segunda Guerra Mundial. Ali estão implicados os movimentos de descolonização e, em tendência diretamente inversa, a ascendência dos Estados Unidos como potência global, impondo um “valor positivo” e modernizador como modelo universal de desenvolvimento. 

Se América Latina, Oriente Médio e Sudeste Asiático estiveram entre as áreas de interesse dos EUA durante a Guerra Fria, o Brasil vive hoje a ruína de seu projeto de modernidade. Na discussão proposta, ressalta-se ainda a pontuação de Benjamin, que coloca a ruína como alegoria da dialética da modernidade. “A ruína é uma figura que tematiza a estética e o predicado epistemológico da globalização”, aponta Lowe. 

As implicações mútuas entre globalização, pensamento moderno e diferença racial são aprofundadas pela socióloga brasileira Denise Ferreira da Silva, em conversa com C. Riley Snorton, organizadora da publicação, no texto intitulado Toward the End of Time (Rumo ao Fim do Tempo). Autora de Toward a Global Idea of Race (2008) e diretora do Instituto de Justiça Social da Universidade British Columbia, Denise Ferreira pontua que a diferença racial é montada com ferramentas do texto científico-social, e o que entendemos, rotulamos e chamamos de “modernidade” estrutura-se sobre a violência colonial e racial e sobre os discursos científicos de Galileu e Francis Bacon, baseados sobre a “descoberta” e a “invenção”, no século 16. A despeito da demarcação dessas origens da modernidade e da globalização, Denise Ferreira da Silva afirma que a racialidade “não é uma questão de tempo, está aquém e além do tempo”.

Sua “sociologia da exclusão”, portanto, aplica-se ao tempo presente, quando o pensamento decolonial chega ao museu, e percebe-se que, entre suas funções historicamente primordiais, está a construção do sentimento de pertencimento, entre determinados públicos, e de exclusão, entre outros. 

Contradições do discurso da inclusão
Mas, transformação social exige, de fato, mudanças epistemológicas. Os ensaios reunidos em Saturation partem de questões específicas dos campos da história da arte, da performance e da cultura visual, para estabelecer conexões mais profundas com outros campos, de forma a desconstruir a naturalização do eurocentrismo – e, por extensão, da branquitude –, mostrando os limites inerentes da lógica de inclusão e diversidade, quando os critérios sociais para essa inclusão não são transformados e criticados. 

Os limites epistemológicos das instituições refletem-se na forma como lidam com o debate racial. Consequentemente, a transformação não estaria apenas na inclusão, mas numa mudança de paradigmas de relações e convenções. Em sua fala no debate Institutionalizing Methods: Art History and Performance and Visual Studies (Métodos de Institucionalização: História da Arte e Performance e Estudos Visuais) Jasmine Nichole Cobb discute, por exemplo, como a produção diaspórica questiona não apenas a supremacia das narrativas brancas, mas a hierarquia da visão sobre os outros sentidos na tradição ocidental. 

Instituições, na prática, operam com uma lógica próxima à do capitalismo global, na medida em que sistemas representativos são apenas renovados, mas não reestruturados. O neoliberalismo usa da ideia de “diferença” para fomentar sua lógica capitalista, enquanto se esconde por trás de uma cortina de redistribuição de representatividade. 

A proliferação incessante de bienais, por exemplo, amplia o modelo das feiras universais surgidas do século 19, já não pelo discurso do exótico, mas da diversidade, criando uma convergência entre a circulação globalizada, em especial pelo mercado de arte, e a reiteração da ideia de raça. Ao partir do questionamento da raça no contexto globalizado da arte contemporânea, Saturation aponta para outra imaginação política. 

Mudanças epistemológicas e armadilhas da representação
Ainda que necessária, a ideia de representatividade mostra limites claros por não atingir mudanças estruturais, além da reiteração dos “lugares” e das expectativas sobre os agentes racializados. A essa constatação o livro abre perguntas igualmente inquietantes. Em que medida a identidade do artista importa para a análise da obra? Em que medida a obra carrega a experiência de seus marcadores sociais? Como essas expectativas sobre artistas marcados socialmente nos impedem de compreender experiências ainda não completamente codificadas, assim como replicam a suposta neutralidade da masculinidade e cisgeneridade branca como códigos universais?

É possível perceber, ao longo dos múltiplos pontos de vista dos ensaios do livro, como a disputa em torno das representações das experiências de pessoas racializadas alterna-se entre: reiterar o que se espera, colocando em xeque o olhar da branquitude sobre esses corpos, fazer uma crítica negativa da própria ideia de racialidade, criar imagens positivas da experiência da racialização ou criar uma representação indireta dessa experiência. Por extensão, podemos pensar se a produção – não apenas a circulação – de artistas racializados também está, de fato, propondo mudanças estruturais, e não apenas o preenchimento dos nichos e expectativas criados sobre eles. 

O caso brasileiro
Publicado no contexto norte-americano, o livro pode ter frutos interessantes, quando analisado no Brasil. Os dois países compartilham de crises políticas em governos que têm por base comportamentos xenofóbicos, machistas e cujas medidas de proteção à população contra o novo coronavírus foram ineficazes. Os episódios descritos ao longo das páginas de Saturation, como exposições sobre “negritude” curadas por pessoas brancas, artistas brancos representando o que se imagina de uma cultura negra, artistas negros reiterando uma certa imagem de negritude ou casos de censura e apagamentos, também encontram seu paralelo na cena cultural do Brasil.

Em agosto, o debate sobre raça ressurgiu em torno de uma fala do curador da 34ª Bienal de São Paulo e do texto da antropóloga Lilia Schwarcz sobre o novo filme da cantora pop Beyoncé. As críticas, réplicas e tréplicas foram devidamente realizadas, repercutidas e comentadas, mas mostram que as estruturas mais enraizadas do racismo ainda têm nuances a serem combatidas cotidianamente.

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