Segredos favoritos e mentiras sinceras

Marcia Tiburi, Gustavo Von Ha, José Rufino e Ricardo Lísias respondem à pergunta feita pela #select32

Cristina Ricupero e Luciana Pareja Norbiato
Gustavo von Ha (Foto: Gustavo von Ha)

Estamos rodeados de enigmas. Na literatura brasileira, o segredo que ninguém desvendou é o de Capitu, dos “olhos de ressaca”. Seu criador, Machado de Assis, terminou Dom Casmurro mantendo a dúvida: ela teria ou não traído Bentinho, o marido, com Escobar, seu melhor amigo? Na história mundial, já se publicou uma infinidade de livros sobre o assassinato do presidente norte-americano John F. Kennedy. Teria sido obra do “lobo solitário” Lee Harvey Oswald? Ou de uma conspiração comandada por Fidel Castro ou a União Soviética? No Brasil, exemplos não faltam. Quem escreveu a Carta-Testamento que Getúlio deixou ao se suicidar? Por que Jânio Quadros renunciou à Presidência da República menos de oito meses depois da posse?

Segredos se sustentam sobre a linha tênue que separa realidade e invenção. Qual o mistério do qual você gostaria de conhecer a explicação? Qual é o seu segredo favorito, seja pessoal ou histórico, verdadeiro ou fictício?

 

Gustavo von Ha
Artista
A aura é algo inexplicável, um segredo em si mesma. Ela envolve uma obra de arte dando a ela um caráter único. Sendo assim, ela constitui parte dos segredos que envolvem os procedimentos e os processos artísticos. Desvendá-los problematiza todo o sistema artístico. Existe uma aura mítica em torno do processo e eu busco revelá-la porque desmitificar a arte e o próprio papel do artista nos dias de hoje significa esclarecer o que está em jogo nessa história que está sendo escrita. O que legitima um artista e uma “obra” num mundo em que tudo se torna apenas uma imagem? Uma cópia só tem significado de cópia dentro de uma narrativa histórica baseada em originais. Fora desse contexto, tanto a cópia quanto o original perdem completamente o sentido de comparação. Nesse ponto, o papel do falsificador me interessa, porque ele põe em xeque todo o sistema artístico e ainda brinca com a aura de uma obra “única” e “original”. Pois, aqui, a aura pode ser replicada ou mesmo transposta. Nessa operação, ele revela parte desse segredo… A cópia de um Jackson Pollock não é um Jackson Pollock, é, na verdade, sua antítese. Essa individual no MAC-USP (Inventário; arte outra) revela vários segredos sobre a construção de uma narrativa histórica e como a entendemos a partir de cânones mitificados pela história e pela crítica de arte. Quem escreveu essa história e por quê? Qual o segredo que define a realidade em que a gente se encontra?

 

Marcia Tiburi
Filósofa e escritora
Um dos navios que aportaram no Brasil em 1500 trazia em seu fundo um caixão enviado por um mercador romeno que enriquecera com o tráfico de pessoas. O caixão devia ser lançado ao mar, pois temiam que permanecesse em solo europeu. Como inevitavelmente acontece em momentos macabros da história, o responsável pela carga morreu misteriosamente e o caixão ficou esquecido por muito tempo. Foi reaberto no DOI-Codi, em São Paulo, em setembro de 1970. Muitos especulam sobre quem estivesse deitado ali, outros dizem que já não havia corpo. Desde então, o caixão tornou-se um símbolo de poder e vida eterna, sendo disputado por vários cidadãos brasileiros nas últimas décadas. Para assegurar o poder de seu sortilégio, que implica nada mais que permanecer no poder, é preciso dormir nele todas as noites e, pela manhã, ter o pescoço de uma mulher bela, recatada e do lar como alimento. Assim se garante que ninguém suspeitará do que realmente está acontecendo.

Marcia Tiburi (Foto: Divulgação)

Marcia Tiburi (Foto: Divulgação)

 

José Rufino
Artista e escritor
Quando estou envolvido em processo de criação de uma obra muito complexa, que envolve em sua formulação a ação demorada de muitas pessoas, soluções técnicas complicadas e outros condicionantes que não dependem de mim, acontece um fenômeno que jamais compartilhei. Minha mente cria um tipo de sabotagem e começa a alimentar outra obra, como uma antítese, uma obra inimiga daquela que está sendo construída. Para que o processo em curso, em produção real, não seja destruído, estabelece-se uma batalha mental entre as duas obras e ambas terminam ganhando, pois uma estimula a outra. Isso aconteceu, por exemplo, durante a construção das instalações Plasmatio, Faustus e Ulysses. Cada uma, portanto, tem sua obra-antítese, uma natimorta vagando por aí, que somente eu consigo perceber.

José Rufino (Foto: Adriano Franco)

José Rufino (Foto: Adriano Franco)

 

Ricardo Lísias
Escritor
Acho que meu segredo não vai surpreender muito: faz tempo que não escrevo ficção. Tudo o que descrevi no romance Divórcio (publicado em 2013, supostamente baseado em seu processo de separação) é verdadeiro. Tem razão o jornalista que insinuou que eu só falo que se trata de ficção para não ser processado. Por falar em processo, o que eu e meus advogados fizemos quanto ao inquérito movido contra mim pelo Ministério Público foi só tergiversação. As pessoas que me acusaram de falsificar documentos estavam corretas (o autor incluiu uma decisão judicial fictícia em seu romance Delegado Tobias, que foi investigada como fraude pelo Ministério Público). Da próxima vez vou confessar logo. Por fim, admito que o conto Autoficção (em que o autor se representa como artista visual), publicado no ano passado, é só uma apresentação para o meu novo trabalho: vou realmente expor na Galeria Fortes Vilaça uma série de colagens autobiográficas. Esse texto, inclusive, serve de convite: apareçam!

Ricardo Lísias (Foto: Divulgação)

Ricardo Lísias (Foto: Divulgação)

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