Sem fronteiras

Conceitos do pós-modernismo e do feminismo radical pautam a exposição No Man’s Land, na Rubell Family Collection, em Miami

Paula Alzugaray
Wigs (Porfólio) (1994), litogravuras da norteamericana Lorna Simpson (Foto: Cortesia Rubell Family Collection)

Além de extremamente feliz e bem-humorado, o título da exposição que reúne mais de cem obras de artistas mulheres, pertencentes à Rubell Family Collection, está intimamente alinhado com os conceitos centrais do discurso feminista.

A expressão no man’s land remonta à Primeira Guerra Mundial, quando o termo definia o território situado entre os fronts de armadas inimigas entrincheiradas. Essa área – de passagem proibida e altamente perigosa – é um dos elementos centrais do clássico Paths of Glory (Glória Feita de Sangue, Stanley Kubrick, 1957). Na língua inglesa, o termo também é utilizado para definir locais em que o controle foi abandonado, após ou durante um conflito armado. A tradução para o português seria ‘terra sem lei’, território que não pertence a ninguém.

Prière de Toucher (2000), fotografia da britânica Sarah Lucas (Foto: Cortesia Rubell Family Collection)

Prière de Toucher (2000), fotografia da britânica Sarah Lucas (Foto: Cortesia Rubell Family Collection)

Uma boa dose de ironia subversiva envolve a utilização de um termo associado a territórios “masculinos” como título de uma exposição de obras de artistas mulheres. Demonstra, de entrada, a vontade de quebrar paradigmas – ou de estilhaçar vitrines, ao modo das Sufragistas inglesas do início do século 20. Mas a curadora Tami Katz-Freiman não fica por aí. Ao apontar outro clichê – a associação entre terra e feminilidade –, ela evoca um argumento do feminismo radical. “O termo no man’s land é baseado na ideia de fronteira, em outros atos relacionados a circuncisão e exclusão”, escreve ela no catálogo da exposição. “De forma significativa, a origem etimológica da palavra gênero é também relacionada a atos de partilhar, classificar, categorizar – e, portanto, em criar limites e obstáculos. (…) Essa interseção entre as noções de gênero, fronteiras e classificação levou os artistas associados à primeira onda do feminismo radical a estabelecer uma nova forma de discurso que transcendeu fronteiras baseadas em gêneros e desconstruiu estruturas da linguagem e da cultura.”

Justin Bond (1993), foto da norteamericana Catherine Opie (Foto: Cortesia Rubell Family Collection)

Justin Bond (1993), foto da norteamericana Catherine Opie (Foto: Cortesia Rubell Family Collection)

O recorte da coleção está pautado por princípios que conceituam os pensamentos feministas, mas também definem o pós-modernismo: a transgressão de fronteiras entre diferentes domínios e a dissolução de hierarquias. Dessa forma, além de estilhaçar conceitos, a curadora Katz-Freiman inverte sentidos. Na exposição distribuída em toda a extensão da Rubell Family Collection, em Miami, até 28 de maio, o termo No Man’s Land tem seu sentido alterado para área livre, aberta, twillight zone.

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