Sem paternalismo nem vitimização

Na 10ª Bienal de Berlim, 46 artistas desconstroem noções cristalizadas de história da arte oficial, universal, masculina, branca e supostamente culta

Daniela Labra
luz de néon da instalação-inferninho  Mastur Bar (2015-18), de Fabiana Faleiros (Foto: Cortesia da Artista, Timo Ohler)

A Bienal de Berlim foi criada em 1998 e destaca-se por ser algo radical, com edições bem experimentais na forma e conteúdo, fazendo jus à cultura transgressora da cidade. Sua décima edição tem curadoria da sul-africana Gabi Ngcobo, com o provocativo título We Don’t Need Another Hero (Nós não Precisamos de Outro Herói), tomado da canção de Tina Turner, de 1985.

Ngcobo, que foi cocuradora da 32ª Bienal de São Paulo (2016), reuniu um time de curadores jovens e não europeus que investigam questões como crítica pós-colonial e descolonização, narrativas históricas não eurocêntricas, modernidades do Sul global, culturas do continente africano e a diáspora mundial afro. Tais abordagens, junto a um desejo de discutir subjetividades complexas invisibilizadas, modelam o projeto expositivo, que contou com um programa de performances, leituras, workshops e outras atividades, iniciado em 2017. A produ-ção estética do Brasil está representada pelo cocurador Thiago de Paula Souza, a performer e escritora Jota Mombaça, que participou com ações ao vivo e apresenta um ensaio no catálogo, e as artistas Cinthia Marcelle e Fabiana Faleiros.

Cinthia Marcelle ocupa a entrada do setor principal da Bienal, no KW Institute, com 1st Meeting of the Legendaries at KW Institute for Contemporary Art/Berlin Biennale for Contemporary Art, um retrato P&B de 14 pessoas relevantes na história e no funcionamento da instituição, posando tal como numa foto da colecionadora Peggy Guggenheim entre 13 luminares da arte moderna, de 1942. A peça faz analogia às relações de poder entre mecenas, fundos públicos e privados, diretores e artistas, bem como das hierarquias, mitologias e modos de convivência afetivo-profissionais que movem instituições culturais. Ao lado da fotografia, um documento assinado, burocrático, dá o ar oficial à operação de arte. O projeto, iniciado em 2008, já captou “legendários” do CCSP e Parque Lage, entre outros espaços. Cinthia também exibe o vídeo Cruzada, 2010, em que bandas musicais se encontram numa encruzilhada rural, de terra vermelha batida, tocando uma trilha sonora graciosa e cadente. No mesmo edifício, Fabiana Faleiros discute sexualidade, prazer e estereótipos femininos na instalação-inferninho Mastur Bar, ativada periodicamente por performances de teor feminista, erótico e humorado da artista e convidadxs.

Videoinstalação de Mario  Pfeifer, que recria, de modo investigativo-forense, vídeo que viralizou na Alemanha em 2016 (Foto: Cortesia Mario Pfeifer, KOW, Berlin)

 

A exposição segue na Akademie der Künste, ZKU e no Volksbühne Pavillion, reservado para performances. Na AdK, Mario Pfeifer traz Again (De Novo), videoinstalação em dois canais que recria, de modo investigativo-forense, um vídeo que viralizou na Alemanha em 2016, gerando polêmica xenófoba: um iraquiano, ao discutir por um cartão telefônico defeituoso no supermercado, reagiu empunhando uma garrafa contra os empregados do local, sendo rendido por seguranças e amarrado a uma árvore até a polícia chegar. O réu, que possuía distúrbios psíquicos, aguardou o julgamento em liberdade, mas foi encontrado morto uma semana antes de sua inocência ser sentenciada. No ZKU, Tony Cokes propõe a desconstrução da mídia como ação política emancipatória em um conjunto de 11 obras em vídeo, onde, sobre fundos monocromáticos, se leem textos de crítica social de autoria diversa, embalados por música pop, rock e techno. Já Tessa Mars chama atenção com desenhos sobre vulnerabilidade e resiliência feminina na figura de seu alter ego Tessalina como uma entidade mitológica guerreira.

Apesar de internacional, a mostra tem raras obras de escala espetacular em um conjunto político costurado de modo inteligente por proposições de 46 artistas, na maioria não europeus ou brancos, cujos discursos desconstroem noções cristalizadas de história da arte oficial, universal, masculina, branca e supostamente culta. Nas legendas dos trabalhos é notável a falta de indicação de nacionalidade e ano de nascimento dos autores. Tal detalhe quebra um protocolo comum em bienais e desmistifica o apelo multicultural, falsamente inclusivo, que rege tais eventos. A quantidade de não brancos presentes na exposição e atividades colaterais subverteu o cenário corrente no sistema da arte, eurocêntrico e colonizado, pautado por uma agenda inevitavelmente racista – inclusive no Brasil.

Se a Modernidade como projeto civilizatório foi falha e violenta, a fórmula de dominação cultural da cartilha eurocentrada esgotou-se há muito. Portanto, o Ocidente precisa admitir, sem paternalismos ou vitimização, sua ignorância arrogante sobre os processos históricos dos que chamam de outro identitário. Com esse recado, a 10ª Bienal de Berlim traz ensinamentos que vão além do politicamente correto e deve ser vista com atenção na história das exposições recentes de arte contemporânea.

Serviço
10th Berlin Biennale for Contemporary Art – We Don’t Need Another Hero
até 9/9/2018 – encerrada
Akademie der Künste at Hanseatenweg, KW Institute for Contemporary Art, Volksbühne Pavilion e ZK/U Center for
Art and Urbanistics
berlinbiennale.de

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.