Sem receitas prontas

A seLecT #46 adota como tema o alimento em uma edição que aborda problemas como fome e silenciamento de vozes

Paula Alzugaray
Frame do vídeo Alfaboca (2004) de Ivana Vollaro em colaboração com Lenora de Barros que é capa da seLecT #46

A alimentação é um direito fundamental previsto na Constituição do Brasil desde 2010 e, ainda que o direito humano à alimentação adequada e saudável também esteja contemplado na Declaração Universal dos Direitos Humanos desde 1948, a fome entalha as feições do mundo contemporâneo. Existem hoje mais de 820 milhões de pessoas com subnutrição. Segundo dados publicados no Mundo Codificado desta edição, o Brasil enfrenta o paradoxo da fome e da má alimentação. O açúcar, cujo consumo pelo brasileiro é 50% superior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde, não é vilão apenas da saúde, mas da história social do País.

Tema da curadoria de Luana Fortes, o açúcar foi pivô da colonização portuguesa, cúmplice da escravidão e símbolo da perpetuação da desigualdade social. Esse é o argumento que permeia as obras dos artistas Ayrson Heráclito, Tiago Sant’Ana, Ieda Oliveira, Denilson Baniwa e Caetano Dias, aqui reunidos.

Na edição em que seLecT adota como tema o alimento, espocam discussões sobre os grandes problemas brasileiros: a fome, o racismo, o desrespeito aos direitos dos povos indígenas, o silenciamento de suas vozes. A citada curadoria inclui A Primeira Missa no Brasil (2019), em que o artista indígena contemporâneo Denilson Baniwa produz uma releitura da tela de Victor Meirelles (1861), rompendo com a ideia de que as populações indígenas teriam sido meros espectadores da colonização europeia. A missa de Baniwa trata da ameaça do agronegócio, utilizando como ícone da ferida exposta brasileira um produto que se apropria da identidade indígena de forma exploratória: o açúcar Guarani. Sobre a necessidade de revisão dessas hierarquias e estruturas de poder na política e na arte, faz-se indispensável ainda a leitura da crítica que Ana Letícia Fialho e Ilana Goldstein produziram sobre a exposição Heranças de um Brasil Profundo, no Museu Afro Brasil.

Na história, ou na arte contemporânea, questões de gênero também são frequentemente associadas à alimentação. Em análise comparativa de duas cenas de mercados de frutas, pintadas na Itália do século 16 e no Brasil do século 19, a pesquisadora e curadora Mariana Leme destaca a insubordinação da artista brasileira Francisca Manoela Valadão, questionando a ideia do artista brasileiro oitocentista como um importador passivo de bens culturais. E, no portfólio dedicado à série Baldios, de Débora Bolsoni, Leandro Muniz aponta para o embaralhamento de signos de masculinidade e feminilidade na associação entre materiais da construção civil e da confeitaria.

Compreendemos que a comida é uma questão política de primeira instância quando sabemos que 90% de todos os alimentos consumidos no mundo são provenientes de somente 20 espécies de seres vivos, enquanto existem cerca de 30 mil espécies de vegetais comestíveis, dos quais pelo menos 10 mil são nativas do Brasil. Sobre a urgência de uma agroecologia feminista nos fala a artista educadora Renata Peixe-Boi, que afirma a íntima relação do alimento e a defesa do território, especialmente para as comunidades da Amazônia.    

Sem receitas prontas de como combater a má qualidade da alimentação e a má política que se pratica hoje no Brasil, convidamos artistas contemporâneos a propor receitas críticas sobre a arte e a sociedade. A partir do Pudim Arte Brasileira, obra-receita elaborada por Regina Silveira em 1977, Carmela Gross, Paulo Bruscky, a dupla Muntadas e Miralda, a dupla Jorge Menna Barreto e Joelson Bugila e a própria Regina Silveira propõem projetos especiais que invadem o cardápio de pautas proposto nesta edição.

Devore a seLecT #46 sem moderação.

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