Sertão é quando menos se espera

O 36º Panorama da Arte Brasileira apresenta o espaço semidesértico como metáfora de territórios e ações não colonizados e não desbravados

Paula Alzugaray
Deus Apis, seu Rebanho e suas Esposas ou o Mundo Animal (2016-2019), de Gervane de Paula (Foto: Paula Alzugaray)

Na entrada do MAM-SP, o trabalho de Michel Zózimo reúne bandeiras e estandartes de movimentos sociais, fanfarras e blocos carnavalescos. Como um prólogo das narrativas reunidas no 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão, elas anunciam a diversidade de culturas, biomas, corpos e organizações que podem ser reunidas em torno do conceito irradiador da exposição. “O sertão não deve ser entendido como tema, mas como uma forma de enunciar”, diz a curadora Julia Rebouças à seLecT

A cada dois anos, o Panorama da Arte Brasileira busca abarcar a produção artística contemporânea do País. Este ano, o sertão não deve ser entendido, portanto, como uma coordenada geográfica que aproxima os 29 artistas e coletivos participantes, mas como uma assertiva. “Os elementos de uma certa geografia não constituem suficientemente o sertão. Não há empreendimento, monumento ou manifestação que consiga manifestá-lo inteiramente”, diz a curadora. Os enunciados vêm de artistas da Ilha de Marajó (PA); do bairro Nacional, na periferia de Contagem (MG); da caatinga do Piauí; do semi-rido ocupado por seu povo originário, os fulniôs, do Maranhão; e até mesmo de países europeus, onde vivem hoje artistas selecionados para a mostra, como Ana Vaz, natural do DF e  residente em Lisboa. “O Sertão é quando menos se espera”, diz Julia, parafraseando Guimarães Rosa. 

Das fazendas do Centro Oeste, vem o mato-grossense Gervane de Paula, com um trabalho crítico à monocultura agrícola que coloca em risco a biodiversidade. “Deus Apis, suas esposas e seu rebanho ou o mundo animal” (2016-2019) faz referência à divindade da fertilidade. A instalação é formada por um rebanho taurino produzido com peças de artesanato, com chifres e madeira remanescente de cercas e mourões de fazendas. O trabalho instaura uma reflexão sobre a condição paradoxal do gado na cultura brasileira: como pivô de situações de conflito violento e como símbolo de fartura e fecundidade. 

  • Instalação de estandartes, do mato-grossense Michel Zózimo (Foto:Paula Alzugaray)
  • Espaço dedicado a artistas trans, de Vulcânica Pokaropa: visões de um país dividido (Foto: Paula Alzugaray)

Ações coletivas
Ao expressar um paradoxo, o trabalho de Gervane é o que há de mais próximo de uma definição de Brasil. Já a  duplicidade da palavra “cerca” — que, ao mesmo tempo, é o que separa, e o que está próximo —, identificada pela artista mineira Mabe Bethônico, em trabalho de mesmo nome (livro de artista editado pela Ikrek Edições), também é algo que faz pensar em um Brasil cindido. Em reação a esse estado das coisas, a curadoria toma o partido da defesa das ações coletivas, dos ajuntamentos de forças e dos territórios não desbravados, não colonizados. Como o espaço da artista Vulcânica Pokaropa, dedicado a artistas trans, travestis e não-binárias, que ganhou o espaço nobre do museu, a vitrine onde fica a “Aranha” de Louise Bourgeois, invertendo a lógica da “invisibilidade institucional dessa produção”. 

Serviço
36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão
até 15/11
MAM-SP
Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº
mam.org.br

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