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Os estádios, cada vez mais exemplares de uma arquitetura espetacular, são o território ambivalente onde o público projeta paixões e as corporações novos negócios

Giselle Beiguelman

Publicado em: 15/04/2013

Categoria: A Revista, Reportagem

O Estádio Nacional Mané Garrincha, em construção em Brasília, sediará o primeiro jogo da Copa das Confederações (Foto: Divulgação)

O futebol é o maior show da terra e o espetáculo tem endereço certo: o estádio. Especialmente nas últimas décadas, quando a arquitetura dos estádios vem, ela mesma, se constituindo um espetáculo à parte. O último projeto anunciado na área é o Rock Stadium, que o escritório MZ Architects projetou para os Emirados Árabes. Se alguém duvidava que dava para fazer algo mais radical do que o já feito no Japão, em Munique e Pequim, vai ter de colocar as barbas de molho. Trata-se de um estádio de 200 mil metros quadrados, para 40 mil torcedores, plantado e camuflado no meio do deserto. Parece um tesouro encravado nas profundezas da areia, da qual emerge como em um filme de ficção científica.

A magia do estádio não é difícil de compreender. Basicamente, é o lugar onde dezenas de milhares, quando não centenas, de pessoas se reúnem para celebrar seu amor à camisa de seus times. Quem nunca se comoveu com a foto de um estádio lotado, com as arquibancadas pintadas com as cores do seu time? Quem nunca sorriu ou chorou com um gol cavado, roubado ou dado à sua seleção? Quem nunca pensou no que sente o goleiro diante do pênalti? Ninguém. Futebol é a alegria do povo e, duela a quién duela, povo somos todos nós. Não à toa estádios, sejam olímpicos, desportivos ou apenas futebolísticos, marcaram momentos importantes nas trajetórias de governos ditatoriais no auge do totalitarismo. Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas são exemplos que confirmam qualquer tese sobre essa relação. Mas estádios não servem apenas para as encenações de poderes ditatoriais. São, cada vez mais, elementos fundamentais nos processos de transformação do esporte em máquinas complexas que envolvem inúmeras indústrias e setores econômicos. Do circuito da moda às empreiteiras, passando pela especulação imobiliária e as empresas de comunicação e marketing, difícil encontrar um nicho que não seja agregável à bola de neve do esporte contemporâneo.

As Olimpíadas de Barcelona (1992) são o marco dessa história e se converteram em referência para todas as candidaturas que lhe seguiram, com exceção de Atlanta, em 1996. Passados mais de dez anos, o “modelo Barcelona” tem sido alvo de uma série de estudos apontando seus erros – a falta de investimento em moradias populares, o vazio de vida na área da Vila Olímpica, a subordinação da política urbana à indústria do turismo e às empresas – e acertos, como sua renovação arquitetônica, o planejamento integrado e a reurbanização do seu litoral.

Olimpíadas e Copas do Mundo, por todos esses ingredientes, são eventos cobiçados, disputados por potenciais países-sede e acompanhados com atenção por Estados e corporações, tendo a arquitetura e o urbanismo como catalisadores de todo o sistema. É emblemático nesse sentido o caso de Pequim, que, do anúncio, em 2001, de que seria a cidade-sede da Olimpíada em 2008 em diante, virou palco de uma revolução arquitetônica, com projetos que se tornaram ícones de sua nova paisagem urbana. A torre da China Central Television, de Rem Koolhaas, o terminal aeroportuário, de Norman Forster, e o Estádio Nacional, de Herzog e De Meuron, mais conhecido como Ninho de Pássaro, entre outros não menos impactantes, são fruto dessa explosão construtiva.

Todas essas obras mostravam ao mundo a força de uma China moderna e poderosa que rompia com seu passado arcaico e estagnado. Evidenciavam uma nova era de poder, transformando Pequim em um statement sobre as ambivalências do capital simbólico investido nessas obras. Ao mesmo tempo que essa “cirurgia plástica” na capital chinesa mostrava sua eficiência, atraindo novos players (de turistas a empresários) e mudava a imagem do Estado diante do mundo todo, desencadeava uma série de protestos que potencializavam discursos críticos sobre o país.

Um dos mais famosos foi o de Ai Weiwei. O artista, mundialmente conhecido e que esteve recentemente em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, participou ativamente do projeto do Estádio Olímpico de Herzog e De Meuron. Contudo, arrependeu-se e decidiu boicotar a abertura dos jogos. Argumentava, conforme escreveu no jornal britânico The Guardian, em 7 de agosto de 2008, que o Ninho de Pássaro simbolizava “o espírito olímpico da concorrência leal, mostrando às pessoas que a liberdade é possível, mas demanda justiça, coragem e força”. Para Weiwei, “a liberdade de escolha é a base da concorrência leal”. Como a China mantinha seu controle sobre a mídia, não fazia sentido para o artista participar da cerimônia.

Além dos protestos de Weiwei, que correram o mundo, os projetos de reurbanização provocaram uma série de debates sobre a demolição de lugares tradicionais, os custos das obras e o processo de privatização do espaço público, suscitando “diversas formas de contestação popular aos discursos hegemônicos”, conforme assinalou Anne-Marie Broudehoux, da Universidade de Quebec, em artigo traduzido no Brasil pela revista Novos Estudos (no 89, 2011).

Impossível não associar essa reflexão com os protestos em torno da privatização do Maracanã. Recapitulando, a reforma do Maracanã para a Copa previa a demolição do edifício que abrigava o Museu do Índio, construído em 1862, para que lá fosse construído o estacionamento do estádio. Em 1978, o Museu foi transferido do para o Botafogo. Entre liminares, protestos e recursos, que se arrastaram entre novembro último e meados de fevereiro deste ano, ficou decidido que o museu não será derrubado. Contudo, será transformado em Museu Olímpico. O que também deixou os membros da Aldeia Maracanã e seus apoiadores – ativistas, acadêmicos, pesquisadores e estudantes, entre outros setores da sociedade civil – nada satisfeitos.

Pequim é aqui

Ninho_de_passaro

O Estádio Ninho de Pássaro, dos arquitetos Herzog e De Meuron, em Pequim, emblema da conversão dos espaços esportivos em espaços de consumo

O imóvel foi ocupado por índios de diferentes tribos que constituem a Aldeia Maracanã há seis anos. Segundo algumas fontes, 150 pessoas provenientes de 20 distintas tribos vivem ali. O dado é polêmico e há também quem afirme que esse número foi fermentado pela notícia da demolição. Se havia apenas meia dúzia de pessoas ou não no local, hoje isso é o tópico menos relevante. O fato é que o lugar se constituiu numa lente de aumento sobre as contradições que acompanham os processos de reurbanização correlatos à Copa do Mundo. Como na China, aqui também a Copa é um momento estratégico para o Brasil confirmar sua imagem mundial de modernidade, arrojo e pujança econômica, distanciando-se do estereótipo de país do Carnaval, Cacau e Suor. Assim como na China, esse processo implica desapropriações, redesenho urbano e ressignificação do espaço. O que institui os conflitos. Moradores da região do Maracanã são contrários à demolição de uma escola pública que existe nas adjacências, a Escola Municipal Friedenreich, considerada uma escola-modelo. Serão demolidos também o Parque Aquático Julio Delamare e o Estádio de Atletismo Célio de Barros, considerados patrimônios da cidade.

A justificativa para essas obras são as novas necessidades de circulação no estádio, espaço para os novos estacionamentos e para os investimentos comerciais da futura concessionária (bares, lojas, restaurantes etc.). Em outras palavras, o lado shopping center do estádio passa a ser tão relevante quanto o campo. Praças de alimentação, restaurantes de diferentes portes e estacionamentos garantem. Mas nem só de entretenimento vive a humanidade e todo time que se preze é uma marca, no melhor estilo do que se entende por branding hoje. Uma “experiência”, um “estilo de vida”. E esse “espírito” tem de prevalecer por meio do consumo e da introjeção de seus símbolos. Canecas, camisetas, bonés, bandos de loucos que o digam. Lojonas, lojas e lojinhas entram no jogo. Paixão, lembrancinhas e souvenires. Curioso pensar que os museus atuais seguem a mesma lógica…

*Publicado originalmente na #select11.

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