Sobre borboletas e arte

Angélica de Moraes

Publicado em: 13/11/2012

Categoria: Crítica, Reviews

30ª Bienal de São Paulo sucumbe na lógica curatorial da classificação e desperdiça o espaço do pavilhão

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Legenda: Detalhe da obra Photonotes, de Hans Eijkelboom (Foto: Divulgação)

Há quem goste de colecionar borboletas e espetar lado a lado, em estreitas e burocráticas fileiras, o que antes era liberdade de voo e amplidão de espaço. Há quem veja graça em tornar estático algo que era vivo e animado pela surpresa da descoberta, do voo a revelar a cor e o movimento de um instante especial. Submetida à lógica hirta de colecionador de borboletas, uma exposição de arte pode resultar na contrafação do que Mário Pedrosa tão sabiamente definiu como arte, ou seja, “o espaço experimental da liberdade”.

Presa a grades classificatórias e conjuntos tão extensos de pequenas coisas que eliminam a graça do voo amplo e livre de uma ideia artística, subtraindo ao olho o golpe de vista iluminador de uma visualidade, a cara da 30ª Bienal de São Paulo resulta mais adequada a um museu de história natural do que a sua missão de espelho da contemporaneidade. Classificar, como nos ensinou este jovem século 21, é uma tarefa vã diante da complexidade do real. Classificar é utopia dos enciclopedistas do século 18. Não funciona mais.

O imenso pavilhão, de generosos espaços a convidar para a ousadia rara dos grandes formatos, impossíveis de serem abrigados na maior parte do circuito exibidor de galerias e museus, restou com muitas paredes em branco extremamente visíveis, desperdiçadas. Os estratégicos locais no entorno do vão central são os que mais sofrem desse problema de distribuição de obras, para não falar no absoluto desperdício do próprio vão central. Situar a excelente mas sutil e intimista obra de Franz Erhard Walther no térreo do vão central é algo assim como escrever uma ópera e esquecer que ela tem árias. Walther não é um tenor. Nunca pretendeu ser. Colocado no lugar de um tenor, sua arte resulta achatada pelo enorme volume de ar de três pavimentos sobre seu trabalho que, visualmente, é apenas uma caixa de tecidos e um tapete negro. Sim, são performances. Mas elas não acontecem em tempo integral, claro, o que estabelece uma ausência incômoda no próprio coração do espaço expositivo.

Um dos poucos pontos altos da 30ª Bienal é o conjunto de fotografias de August Sander e seu diálogo com as coloridas imagens de Hans Eijekelboom. Mas mesmo aí, na excelência da captura de personagens de leitura sociológica e psicológica, perpassa o fantasma do entomologista que os reuniu desta forma. Se a escolha fosse menos numerosa e as imagens em cópias maiores, teríamos proporção mais confortável ao olho do espectador. O olhar tão próximo é característico do livro, não de uma exposição de arte. Isso acaba gerando uma contaminação do foco do olhar pelas imagens do entorno, reduzindo a força do trabalho dos artistas homenageados, um deles absoluto clássico da fotografia de todos os tempos.
Felizmente os artistas brasileiros comparecem em grande número e garantem conjuntos consistentes em meio a um todo que não consegue sustentar coesão. Essa presença reflete a competência e protagonismo da arte produzida no país nas últimas décadas, claro. Mas também pode ser lida como algo reparador do grande erro que foi comemorar os 60 anos da Fundação Bienal, em setembro de 2011, com uma exposição (Em nome do Artista) em que os brasileiros estiveram alijados da festa que, por direito e mérito, era também e principalmente deles.

Entre os brasileiros, uma das presenças mais marcantes desta 30ª Bienal é Paulo Vivacqua, com instalações que resolvem de modo eficaz e enxuto a visualidade da sound art, estabelecendo um diálogo lúdico que perpassa a memória minuciosa da infância. Sim, em um deles os sons são classificados, mas Vivacqua os liberta em vôos solo ou os reúne em divertidas formas orquestradas. Atitude que faltou no conjunto desta edição da Bienal. Mas, como sempre, os artistas conseguem salvar pela competência de suas participações individuais os escorregões da curadoria. São bravuras assim que contribuem para a vitalidade e permanência desta mostra sexagenária.

*Concorda? Discorda? Envie sua crítica aqui. Ela pode ser publicada no web app da Trigésima Bienal. 

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De espectador a articulador

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