Sobre pais, filhos e o tempo

A White Cube São Paulo apresenta Lions and Unicorns, a primeira individual no Brasil de Gary Hume, expoente da geração Young British Artists

Kiki Mazzucchelli, de Londres

Publicado em: 26/06/2014

Categoria: A Revista, Crítica

Um dia antes de seus trabalhos embarcarem para São Paulo, numa manhã ensolarada de feriado, Gary Hume recebe seLecT em seu ateliê, no leste de Londres. O edifício é moderno, localizado numa área nobre de “East London”, como convém a um artista com uma carreira estabelecida. Afinal, faz 25 anos desde que Hume se destacou na cena artística britânica, quando participou da mítica exposição Freeze, organizada pelo então estudante Damien Hirst num galpão abandonado nas Docklands, em 1998.

A mostra coletiva incluiu trabalhos da geração de alunos da Goldsmiths College, que viria a ser conhecida como YBA (Young British Artists), entre eles Matt Collishaw, Sarah Lucas, Michael Landy e, claro, o próprio Hirst. Foi ali que Hume exibiu um corpo de trabalhos que viria a definir seu estilo até hoje: suas famosas Door Paintings, baseadas nas portas de um hospital londrino e reproduzidas em cores vivas e formas simples em camadas lustrosas de tinta esmalte sobre alumínio. Essas pinturas um tanto sóbrias, situadas no limite da figuração e da abstração, com sua alusão discreta à ideia de morte, foram prontamente arrematadas por Charles Saatchi, e a partir daí Hume se firmou como um dos grandes nomes de sua geração. No entanto, diferentemente de muitos de seus pares – como Tracey Emin e os irmãos Chapman, que ganharam notoriedade com trabalhos repletos de escatologia e sensacionalismo –, sua obra é consistentemente marcada por uma certa sobriedade e discrição. Pessoalmente, é uma figura extremamente gentil e sem egocentrismos, que conversa sem pressa sobre sua próxima exposição.

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Photograph 1 (2014), fotografia em P&B sobre cartão espelhado, pertencente a uma série de intervenções sobre retratos de crianças tirados por fotógrafos profissionais (Foto: Stephen White/Cortesia White Cube)

 

Sua individual na White Cube em São Paulo acontece 20 anos após sua primeira e única visita ao Brasil, quando participou da 23ª edição da Bienal de São Paulo, em 1996, no segmento das representações nacionais – e, ironicamente, numa bienal cujo tema era a desmaterialização da arte no fim do milênio. Sob o título Lions and Unicorns, a exposição apresenta um conjunto de novas obras que incluem pinturas, esculturas e, pela primeira vez, fotografias. Encontradas por acaso em um brechó nos Estados Unidos, onde vive por alguns meses do ano, as imagens são retratos em preto de branco de crianças tirados por fotógrafos profissionais sobre os quais Hume realiza pequenas intervenções. “Quando vi essas imagens, imaginei que tivessem sido tiradas nos anos 1950.

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Purple Pauline (1997), pintura sobre alumínio (foto: Stephen White/Cortesia White Cube)

Mas descobri que eram da década de 60, quando eu era criança, portanto, essas crianças provavelmente têm a minha idade hoje. Creio que é porque não nos lembramos dessa época da vida, portanto, a tendência é pensar que se trata de um passado anterior ao nosso”, conta. Nesta série, as imagens são invertidas e geralmente atravessadas por faixas diagonais ou horizontais precisamente executadas em papel espelhado.

A cor é um elemento fundamental na obra de Hume, e as tonalidades das pinturas apresentadas na exposição também remetem ao universo infantil: o lilás, o rosa-pálido, o azul-claro e o turquesa. O motivo predominante são as formas triangulares das bandeirinhas de festividades, que curiosamente possuem para o artista uma conotação completamente diferente do que seria no Brasil, onde as associações mais óbvias seriam as festas juninas e a obra de Alfredo Volpi. “Penso nas bandeirolas usadas para receber os soldados que retornam da guerra traumatizados ou aleijados como elementos que marcam um momento de celebração coletiva que precede o retorno a uma existência solitária”, conta. A infância, segundo ele, possui uma qualidade semelhante, pois é o momento da vida no qual ainda estamos emocionalmente ligados aos nossos pais. “Meu filho tem 26 anos e apenas recentemente percebeu que está sozinho no mundo, que é o único responsável por sua própria vida.” O tema aparece ainda na série de esculturas Mums and Dads, que completa a exposição, em que cada peça é formada por duas esferas empilhadas em mármore pintado em tons pastel.

Quando perguntado sobre o contraste entre sua abordagem e a de seus colegas de geração, Hume diz que, ao contrário deles, não se sente confortável em empregar uma tática de chocar o público ou em fazer um trabalho político, e menciona que já não acredita no socialismo. Em Lions and Unicorns, o que transparece sob o verniz pop de suas formas é o sentimento de melancolia que vem da realização de que inevitavelmente vivemos e morremos sozinhos.

A seção Vernissage é um projeto realizado em parceria com galerias de arte, que prevê a publicação de um texto crítico sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição.

*Publicado originalmente na #select18

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