Sobre relógios e filmes

Paula Alzugaray

Publicado em: 17/02/2012

Categoria: Crítica, Reviews

Martin Scorsese presta homenagem ao mestre Georges Méliès em seu primeiro filme para crianças

http://www.youtube.com/watch?v=hR-kP-olcpM

Legenda: Trailer do filme, em inglês.

Martin Scorsese conduz a cena de abertura de seu primeiro filme, realizado em 3D e destinado a públicos de todas as idades, com uma trilha sonora ostensiva e um plano-sequência com movimento de câmera de tirar o fôlego. A câmera logo acalma, mas a trilha prossegue grandiloquente, acompanhando o drama do menino órfão e maltrapilho Hugo (Asa Butterfield), que vive de pequenos furtos e de dar corda nos relógios de uma estação ferroviária na Paris do início do século 20.

Hugo passa seus dias entre as fugas de um policial pastelão (Baron Cohen), as duras disputas com um velho ranzinza proprietário de uma loja de brinquedos e as tentativas frustradas de consertar um boneco autômato, herdado do pai. Sob a tensão de longos acordes sentimentais, a melancolia dá o tom do primeiro terço do filme.

Mas Scorsese começa a revelar a que vem no momento em que conclui a fase de apresentação dos personagens. O flerte com o clichê e a sensação de déjà vu ganham um acorde final no momento em que o nome Méliès é pronunciado. Em uma cena luminosa, Hugo descobre que Tio Georges (Ben Kingsley), o vilão da loja de brinquedos e padrinho de sua única amiga, Isabelle (Chloe Grace Moretz), é, na realidade, um grande mestre do cinema, do ilusionismo e dos efeitos especiais. Esquecido.

Como num passe de mágica, o que era sentimental torna-se comovente. Ilumina-se ahistória e volta-se aos primórdios, quando a ideia de cinema nasce para o ator e prestidigitador Georges Méliès, depois de assistir às primeiras projeções de Atualidades dos Irmãos Lumière.

São deslumbrantes os remakes que Scorsese faz dos filmes de Méliès, que foram mais de 500 – com personagens tão fantásticos quanto sereias, diabos e lagostas alienígenas –, mas que foram em sua maioria destruídos com a Primeira Guerra Mundial, juntamente com os sonhos e as fantasias da sociedade europeia da época. De escola realista, o diretor de Touro Indomável e Os Bons Companheiros não se deixa impregnar pelo lirismo surrealista de Méliès.

Em vez dos truques ilusionistas do mestre a quem homenageia, prefere dedicar-se às metáforas entre relógios e cinema. Ainda assim, o espectador não vê o tempo passar, até que o grande diretor de Uma Viagem à Lua (1902) seja redescoberto na estação de Montparnasse.

*Publicado originalmente na edição impressa #4.

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