Sobreviver na roça

Projeto de Maria Thereza Alves, com micro-histórias e fotografias da vida no interior do Brasil, é pura literatura

Paula Alzugaray
Detalhe de uma das fotografias que integram o livro de Maria Thereza Alves (Foto: Cortesia da artista)

Em 1964, Antonio Candido publicou Os Parceiros do Rio Bonito: Estudo Sobre o Caipira Paulista e a Transformação de Seus Meios de Vida, sua tese de doutorado em Ciências Sociais, defendida na USP, em 1954. O estudo partiu de pesquisa de campo em agrupamento rural perto de Botucatu, no interior de São Paulo, onde o autor observou o processo de decadência e depauperamento da vida de populações caipiras, voltadas à agricultura de subsistência e a um sistema de cooperação entre vizinhos e familiares, à margem dos latifúndios.

Em 1983, quando era estudante de fotografia na Cooper Union, em Nova York, Maria Thereza Alves viajou para os vilarejos nativos de seu pai, no interior do Paraná, e de sua mãe, no interior de São Paulo. Na viagem feita aos 21 anos, produziu um riquíssimo material, em fotografia e textos, hoje publicado em Recipes for Survival. Ao olhar para tradições e problemas vividos no meio rural, o livro é, por um lado, uma contribuição aos estudos sobre a formação social do brasileiro e para o entendimento da história do País. De outro, é pura literatura. Teria sido de grande interesse ao jovem sociólogo Antonio Candido, que se tornou o maior crítico literário do Brasil.

Recipes for Survival é composto de historietas sobre personagens da região, retratados em diferentes episódios da vida na roça: conflitos de terra, visita de políticos em campanha, cultivo de mandioca, casos de violência doméstica e memórias da escravidão que deixou marcas profundas nas pessoas e nas terras. Casos prosaicos, como quando Rui foi picado por uma jaracuçu, levado ao hospital e obrigado a passar a noite no setor de distúrbios mentais, por ter se recusado a tirar seu short e vestir um avental. Ou a prosa poética que narra a vida de 13 famílias afundadas no barro, carregando bananas e caminhando 17 quilômetros para chegar até a venda mais próxima. Os textos incluem, ainda, conteúdos como receitas de biscoito, doce de abóbora e listas de pássaros, bichos e plantas da região.

As fotografias são um capítulo à parte. De uma potência avassaladora, são comparadas por Michael Taussig, no prólogo da edição, com nada menos que a série American Classics, de Walker Evans. Pela intensidade expressiva das personagens retratadas – flagradas em sua mais comovente e constrangedora vulnerabilidade –, o trabalho poderia remeter ainda aos pacientes psiquiátricos de Diane Arbus, transferidos ao contexto das roças do Sul. Maria Thereza Alves nasceu em São Paulo, mas reside nos EUA, onde desenvolve um corpo de pesquisa voltada a criar espaços de agenciamento e visibilidade para culturas oprimidas, por meio de práticas relacionais.

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