Sociabilidades vegetais

O que o Brasil e a etnobiologia, nova disciplina latino-americana, têm a ensinar ao mundo sobre o estudo das florestas

Nina Gazire

Publicado em: Vol. 10, N 50, Abril/ Maio/ Junho 2021

Categoria: A Revista, Destaque

Detalhes das capas dos livros Vozes Vegetais e Floresta É o Nome do Mundo (Foto: Reprodução)

O botânico norte-americano Richard Evans Schultes e o naturalista britânico Richard Spruce exploraram as selvas da América Central e da América do Sul entre os séculos 19 e 20, deixando inúmeras publicações que servem até hoje como referência para determinar uma história botânica da Floresta Amazônica. Estudos recentes confirmam a hipótese desses pioneiros de que as florestas latinas são alteradas por humanos há pelo menos 11 mil anos – delimitando esse trajeto desde o México até a Amazônia continental, abrangendo Colômbia, Equador, Peru e Brasil. O que muda na visão atual é um novo e polêmico paradigma, que toma como entendimento a necessidade de uma abordagem da Floresta que seja mais etnogênica do que antropocêntrica, como as ciências biológicas e sociais determinaram durante séculos, no binômio selvagem e doméstico determinado por Teofrasto, discípulo de Aristóteles, há 2.300 anos.

A visão etnogênica prepondera sobre outras perspectivas, graças a pesquisadores latino-americanos que vêm trabalhando de maneira transdisciplinar nos campos da arqueologia, antropologia, botânica, biologia e genética, em favor de uma relação não dicotômica entre o humano e a natureza. Esta foi a razão para o Simpósio Vozes Vegetais: Diversidade, Contradomesticação, Feminismos e História da Floresta, realizado na Unicamp em 2019, com o objetivo de fomentar a ideia de que não são somente os povos coletores e ribeirinhos que alteram a paisagem da Floresta e a filogenia de suas espécies, mas o contrário também acontece.

Contradomesticação amazônica e a memória das plantas
Há um afeto das plantas que modifica os humanos. “Esse debate nasceu na Academia, quando eu estava concluindo o meu doutorado a partir de 2017 e comecei a estudar o povo Banawá, com quem trabalhava há 20 anos, como indianista e antropólogo”, diz Miguel Aparicio Suárez, professor adjunto da Universidade do Oeste do Pará, que esteve em campo com as etnias Banawá e Suruwaha. “O professor norte-americano Charles Clement é um dos pioneiros nesse campo e resolveu montar um curso pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) fazendo um cruzamento entre biologia e antropologia, dedicado especialmente aos antropólogos, já que os biólogos sempre tiveram mais interesse nesse fenômeno”, diz à seLecT. Aparicio estudou a relação interespécies entre os índios Banawá e as castanheiras, as flecheiras (Gynerium Sagittatum) e o tabaco (Nicotiana Tabacum).

Foi por intermédio de Charles Clement, que é professor do Inpa, e de sua observação do cultivo da pupunha, que Aparicio descobriu as mudanças genéticas das plantas provocadas pelos povos tradicionais e como a pupunha alterou paisagens e demarcações à medida que foi “contradomesticada”. A descoberta é explorada por Miguel Aparicio em “Contradomesticação na Amazônia Indígena”, um dos 17 artigos que compõem o livro Vozes Vegetais (Ubu, 2021).

Clement tornou-se uma grande influência para o nascimento da etnobotânica praticada por Aparicio em suas pesquisas com os Banawá, na Bacia do Purus, rio que percorre o Peru e os estados do Acre e do Amazonas. “Esse povo vive dessas tecnologias há séculos. Eles poderiam ganhar mais dinheiro com as castanhas ou conseguir mais peixes com o veneno do timbó, mas, por estarem cada vez mais criminalizados em seus hábitos ou por terem seus territórios sujeitados à domesticação (manejadas pelo agronegócio), passaram a praticar o que chamo de botânica de precaução”, diz o professor. “As mulheres e os xamãs narram aquilo que eles consideram ‘caça em excesso de peixes’ ou a perseguição da entidade dona do igarapé após a pesca com timbó, atitudes que causaram inúmeras mortes.”

No artigo, Aparicio registra como a convivência com as castanheiras mowe (Bertholletia excelsa) marca de modo expressivo as trajetórias vegetais dos Banawá. Ele afirma que, além de serem imprescindíveis em sua dieta alimentar, as castanheiras, associadas à história de Mowewawa, o menino nascido de um ouriço de castanha, foram igualmente protagonistas na instauração de relações pacíficas com os extrativistas do interflúvio.

Fotografias tiradas pela antropóloga Priscila Ambrósio durante sua pesquisa com os frutos da árvore Cuia; abaixo, instrumentos para o preparo do rapé banawá e do tabaco temperado com cupui e cumaru, em imagem captada pelo antropólogo Miguel Aparício (Foto: Priscila Ambrósio/ Miguel Aparício)

Árvores que cuidam dos humanos
No artigo “História das Memórias sobre as Cuias: O Que Contam os Quintais e as Florestas Alagadas Brasileiras?”, também presente em Vozes Vegetais, Priscila Ambrósio, doutora em biologia e pesquisadora do Museu do Índio, traça o caminho da espécie mais nobre de Cuia (árvore que rende um fruto que pode ser transformado em vasilhame abaulado). A bióloga pesquisou, inicialmente, a espécie Crescentia (Bignoniaceae), originária do México, que, ao longo de 11 mil anos, se espalhou por “contradomesticamento” humano ao logo da Bacia do Alto Rio Negro. O projeto começou em Manaus, em 2010, sob a supervisão de Charles Clement. “A ideia inicial era fazer uma coleta de folhas para saber de onde as pessoas começavam a selecionar as plantas e como essa seleção modifica o corpo daquelas plantas”, diz Ambrósio à seLecT. “Eu escolhi a Cuia por ser estranha. Sempre tive curiosidade em saber como as pessoas resolvem os problemas usando materiais vegetais. A planta não é comestível, mas é usada como remédio, está ligada a questões mágicas e a questões tecnológicas na história da Amazônia”, completa.

Na América do Sul, o convívio dessas árvores com humanos data de, pelo menos, mil anos no Equador, e 5 mil no Peru. Originária da América Central, a Cuia foi usada como demarcação de território e seu fruto usado durante a colonização europeia no Brasil. “Foram produzidos inúmeros relatos, com breves descrições sobre seu uso. As Cuias eram vendidas e usadas como copos ou tigelas produzidas nas ‘casas das índias’, de onde partiam remessas para Lisboa”, aponta Ambrósio no artigo. O estudo também ressalta a diversidade genética que o fruto ganhou em sua relação com os povos caçadores e coletores da Amazônia, principalmente nos quintais alagados das mulheres das comunidades ribeirinhas, onde cresceram descendentes da Cuia Crescentia.

As Cuias são árvores que cuidam dos humanos, além de serem usadas para tratamento da fertilidade feminina e possuírem propriedades abortivas; sua polpa é usada para tratar catarro, resfriado e febre. “Minha ideia inicial no trabalho era buscar a rota do DNA”, diz Ambrósio. “Mas consegui perceber, depois de sete anos de intimidade com a cuia e de viagens por toda a Bacia Amazônica, que elas têm seus duplos: há a entidade Cuia que é a Sombra, que vaga pelas florestas alagadas, e tem a Cuia cultivada para mudanças como forma de marcar a terra e marcar o início de uma comunidade. É uma planta que está sempre cheia de gente ao redor, porque ela também trabalha o corpo das pessoas”, diz a bióloga.

O professor Miguel Aparicio e a doutora Priscila Ambrósio compartilham em suas pesquisas uma mesma visão da Floresta como lugar de negociações e “contrarrespostas” das plantas. Para Aparicio, a visão antropocêntrica é responsável, por exemplo, pelo desmonte da Funai no contexto brasileiro de políticas ambientais cada vez mais escassas. “Os Banawá foram acompanhados diversas vezes pela Polícia Militar na coleta das castanhas, porque os Yaras (os homens brancos, como assim os denominam os Banawá) roubam a coleta cuidadosa desses povos tradicionais”, diz o pesquisador. Já Ambrósio acha que ainda é cedo por uma opção entre as duas possibilidades. “Esse saber, se antropocêntrico ou antropogênico, não está em questão porque o que estamos investigando é o verdadeiro afeto, as negociações que as relações entre humanos-plantas geram sem uma ordem hierárquica precisa.”

Pré-poéticas florestais
Na colônia terráquea imaginada pela escritora norte-americana Ursula Le Guin, em 1973, Floresta é o nome do mundo, ou melhor, Athshe, um planeta povoado por parentes dos humanos que, como os daqui, são caçadores, coletores e sonhadores de inúmeras florestas, flores, arbustos, árvores e outras espécies de plantas, sem as quais não se reconhecem. Isto até a chegada de exploradores do planeta Terra ávidos por madeira e pela transformação de áreas em monocultura de sementes, como, por exemplo, a soja. Um antropólogo chamado Lyubov, participante da missão predatória, é o único capaz de demonstrar compaixão e de traduzir, aproximadamente, a complexa relação simbiótica entre os creechies – hominídeos habitantes das florestas do Novo Haiti, como foi chamada a colônia de Le Guin, Athshe bem poderia ser o nome do planeta Terra: Floresta é o nome do mundo.

A história que a escritora narra acontece hoje, talvez com a diferença de que o povo de Athshe tenha uma resolução de seu conflito colonial mais feliz do que os povos das florestas do Brasil vêm tendo. Afinal, a arte oferece outros futuros possíveis e essa obra literária tem sido fundamental para diversos teóricos criarem uma base transdisciplinar para o conceito de Antropoceno. Em suas inúmeras críticas, eles não apontam saídas para o nosso planeta, mas suas análises influenciam novas disciplinas, como a Etnobotânica. Le Guin, quase 50 anos à frente de seu tempo, vislumbrou o nascimento de uma disciplina que ainda não tinha nome. Mas o título de sua obra, Floresta É o Nome do Mundo (Morro Branco, 2020), bem que poderia sê-lo.

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