Solar dos refugiados

O Solar dos Abacaxis é um projeto de instituição de arte, educação e desaceleração, com o interesse de catalisar o encontro de indivíduos e grupos capazes de criar um mundo mais justo, saudável e prazeroso

Adriano Carneiro de Mendonça, Bernardo Mosqueira, Bruno Balthazar e Ulisses Carrilho
Adriano Carneiro de Mendonça, Bernardo Mosqueira, Bruno Balthazar e Ulisses Carrilho são sócios no espaço independente Solar dos Abacaxis

O Solar dos Abacaxis é um projeto de instituição de arte, educação e desaceleração, com o interesse de catalisar o encontro de indivíduos e grupos para construir o presente, desenvolvendo maneiras originais de estar junto, capazes de criar um mundo mais justo, saudável e prazeroso. O Solar que dá nome e sede à instituição fica no bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro, e é composto de um edifício neoclássico construído em 1843 e uma exuberante floresta de 5 mil metros quadrados. O imóvel está vazio há quase dez anos, tem cerca de mil metros quadrados de área construída e mais mil metros quadrados de área externa além da mata. Tombado pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, talvez tenha sido o primeiro edifício neoclássico projetado por um brasileiro, o arquiteto José Maria Jacinto Rebelo, discípulo de Grandjean de Montigny. Hoje em dia, o Solar é de posse dos netos de uma antiga moradora, Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, responsável pela adição dos abacaxis de ferro nas sacadas da fachada e uma liderança feminista histórica no Brasil. Anna Amélia, que também era poetisa, escreveu sobre o casarão nos anos 1950 o poema Utopia, que começa com os impressionantes versos “Essa casa vai ser algum dia / Um centro da ciência e da arte / Um refúgio da história e da poesia / Onde os jovens virão sonhar (…)”.

O projeto para o Solar dos Abacaxis envolve espaços para exposições, ateliês e residências, salas para ensaios e apresentações, escola em turno invertido para crianças, cursos livres para jovens e adultos, cozinha-escola para investigar a cultura gastronômica e um parque-jardim para práticas ligadas ao meio ambiente. Os povos indígenas, a cultura negra e de terreiro, o feminismo, as lutas sociais pelos direitos LGBTQI, o Antropoceno e as questões de meio ambiente e saúde, a produção cultural dos subúrbios e periferias, o pós-colonialismo e as relações internacionais Sul-Sul, as redes sociais e a ciberdemocracia, o amor livre e as novas famílias, a permacultura e as novas comunidades não urbanas e os estudos experimentais de arquitetura e urbanismo são alguns exemplos do que será a base política e conceitual deste novo espaço.

Vista de salão do Solar dos Abacaxis, casarão neoclássico de 1843 que terá atividades mesmo antes do restauro (Foto: Joana Cseko)

Vista de salão do Solar dos Abacaxis, casarão neoclássico de 1843 que terá atividades mesmo antes do restauro (Foto: Joana Cseko)

Porém, antes mesmo do restauro necessário para que o Solar dos Abacaxis aconteça em sua maior potência, está recebendo ações em modelo de ocupação temporária. O primeiro desses projetos acontece durante as Olimpíadas de 2016 e se aproveita da sua condição de Ágora Mundial para promover uma reflexão coletiva sobre as questões de refúgio e migração – assuntos de urgência e relevância globais. No mundo há mais de 65 milhões de refugiados e, entre 2010 e 2016, houve um aumento de 2.800% no número de pedidos de refúgio no Brasil. Hoje há mais de 43 mil haitianos no País e mais de 28 mil refugiados de 79 diferentes nacionalidades, em sua maioria crianças e mulheres. O título de nosso programa, Solar dos Abacaxis: Território Liberdade, faz referência à obra Faça Você Mesmo: Território Liberdade (1968), de Antonio Dias, uma instalação que funciona como uma marcação no chão que instaura um espaço de ação, decisão e liberdade e que será exposta no salão central do Solar. Além dessa obra serão hasteadas na fachada “bandeiras mestiças”, flâmulas que fazem referência não a um país, mas à mistura de povos, trabalho do poeta visual mineiro Guilherme Mansur. Também fazem parte de nossas ações os dispositivos de cozinha coletiva do OPAVIVARÁ!.

A programação acontece entre os dias 6 e 27/8, sempre às quintas, sextas e sábados. Nas quintas-feiras de agosto acontecem encontros experimentais, chamados MANJAR, com trabalhos que tratam das questões de refúgio e migração seguidos de música, bar e comidas de imigrantes e refugiados. As sextas-feiras recebem mesas de debates (com pesquisadores acadêmicos e artistas), seguidos de entrevistas em que refugiados e imigrantes de diferentes origens conversam sobre as particularidades de suas experiências.

Ao fim da noite haverá sempre um espetáculo de dança. Aos sábados acontece o Mercado Mestiço, uma espécie de feira na qual estarão presentes barracas com elementos representativos da matriz cultural brasileira (com acarajé da Bahia, tapioca do Norte, adereços de miçangas e penas indígenas, artesanatos de barro, barraca de ervas medicinais e de fundamento, antiguidades judaicas etc.) e, entre essas, tendas dos recentes refugiados e imigrantes (com esfihas sírias, tecidos do Congo, comidas haitianas, artesanato boliviano etc.), para construir espacialmente esse novo corpo cultural brasileiro, já composto também de recém-chegados. Mais do que a hospitalidade (simbolizada pelos abacaxis da fachada do Solar), esta é uma ação de encontro, mistura, fusão, amor, mestiçagem. Hoje em dia, mais de 50% dos refugiados que chegam ao Brasil têm menos de 15 anos e, por isso, aos sábados, há uma programação de oficinas para crianças brasileiras, imigrantes e em situação de refúgio propostas pelos artistas Anna Costa e Silva, Ricardo Càstro, Glaucia Mayer e Isabela Sá Roriz. Para que possa haver um contato mais dinâmico entre o Solar dos Abacaxis e colaboradores ou curiosos foi criada, é claro, a página do Solar no Facebook.

Adriano Carneiro de Mendonça, Bernardo Mosqueira, Bruno Balthazar e Ulisses Carrilho são sócios no espaço independente Solar dos Abacaxis 

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