Soma dos Dias desaponta crítico do NYT

Juliana Monachesi

Publicado em: 04/09/2011

Categoria: media reader, new york times

Instalação de Carlito Carvalhosa no MoMA é vítima do recente interesse do artista pelo mínimo

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A Soma dos Dias, instalação no átrio do Museum of Modern Art (Chester Higgins Jr./The New York Times)

As sextas-feiras são, para o meio de arte nos Estados Unidos, dias de glória ou de fracasso, a depender do julgamento de Roberta Smith e companhia. É o dia de publicação das críticas e reviews de artes visuais no New York Times. Na semana passada, a estréia de um artista brasileiro no MoMA, em espaço dedicado a projetos especiais (como a série de exposições no Octógono da Pinacoteca, guardadas as devidas proporções), deixou algumas pessoas do meio de arte daqui ansiosas pela chegada da sexta-feira seguinte (como eles devem se sentir semanalmente por lá). Mas a espera não teve um desfecho muito favorável. Ken Johnson (porque Roberta Smith nem se dignou a resenhar a intervenção de Carlito Carvalhosa no átrio do museu) considerou a obra do brasileiro decepcionante. E ainda teve extenso espaço para se justificar, como é característico das sextas-feiras.

Na resenha intitulada Diaphanously Draped in Yards of Art (Diafanamente drapeado em jardas de arte, na tradução literal, ou, no sentido mais específico que o crítico deve ter pretendido, Drapeado diáfano nos pátios da arte), Ken Johnson começa com uma descrição da instalação: “Como uma obra de arte, A Soma dos Dias, de Carlito Carvalhosa, que preenche o átrio do Museum of Modern Art, é tão rarefeita quanto o fino tecido branco de que é quase toda feita. Estendendo-se 60 pés do teto até poucas polegadas acima do piso, mais de 18 mil pés quadrados de poliéster translúcido peso-mosca formam uma dupla espiral penetrável — um percurso levando até um espaço aberto no centro, outro levando para fora. (…) No alto, microfones pendurados por longos cabos capturam o som ambiente, que é gravado e repetido por meio de caixas de som suspensas no dia seguinte. Nos dias subseqüentes microfones continuam a captar o barulho real e o som gravado de todos os dias anteriores, que é acumulado e fundido digitalmente”.

Para reconhecer tantas sutilezas, o visitante precisaria estar em um estado de atenção excepcionalmente suscetível, alfineta o crítico. E apesar do aspecto onírico que a instalação parece ter em um vídeo no site do MoMA, “quando eu a visitei, a experiência real, entretanto, foi decepcionante. Som real e gravado se misturavam de modo indistinguível, e passear em espiral entre as paredes de tecido não foi remotamente tão instigante quanto adentrar um dos atordoantes labirintos de aço enferrujado de Richard Serra. Por outro lado, em seu minimalismo senso-comum, tem pouco da inacreditável leveza do ser que a psicodélica instalação em vídeo de Pipilotti Rist gerou no átrio do MoMA três anos atrás”, escreve.

Após enumerar considerações como “um dos artistas brasileiros mais celebrados” e “escultor de considerável ambição e engenhosidade”, Johnson afirma que é compreensível o convite dos curadores Luis Pérez-Oramas e Geaninne Gutiérrez-Guimarães ao artista para ocupar o espaço do átrio. E contemporiza ainda que, quando o happening interativo era ainda novidade, “a instalação do sr. Carvalhosa poderia ter sido emocionante para aqueles recentemente despertados do torpor consumista e burocrático dos anos 1950. Para pessoas dos anos 1960, despertas ou não por substâncias alucinógenas, a fenomenologia da experiência ordinária combinada com feedback sonoro poderia ter sido mágica”. Segue-se um parágrafo confuso acerca da presença do “feedback auto-reflexivo em loop” na arte moderna, tradição em que se inscreveria Carvalhosa.

“Em tese visitantes que se renderem completamente à sua delicada poesia imersiva podem desfrutar uma consciência aumentada dos fundamentos de ser humano: ver, ouvir, mover-se pelo espaço e pelo tempo, lembrar e refletir sobre a natureza da experiência.” O problema, resume, é que nas últimas quatro décadas muitos artistas levaram adiante o gênero minimalista da expansão da consciência, de Bruce Nauman e Dan Graham a Urs Fischer e Tino Sehgal. “Vista contra o pano de fundo de ambientes transformadores produzidos por outros artistas, a instalação do sr. Carvalhosa carece de uma certa audacidade indispensável de concepção e execução. Ela pode ser elogiada por sua sutileza, mas ela precisa de uma virada mais surpreendente”, conclui.

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What did Mr. Johnson miss?

O conhecimento um pouco mais extenso da produção de Carlito Carvalhosa, ou que ao menos não se resumisse a uma olhada rápida no site do artista (que foi o que admitidamente o crítico se restringiu a fazer), permitiria ao autor da resenha comparar a vista aérea da instalação A Soma dos Dias com a visão que se tinha do mezanino do Santander Cultural da escultura de gesso Surda (2001) no átrio do espaço, em Porto Alegre, durante a 3a Bienal do Mercosul, ou com a visão arrebatadora, também do alto, da exposição Duas Águas no MuBE, em 1999, onde estavam expostas diversas peças feitas também de gesso. A partir desta simples comparação, não haveria de escapar à percepção aguçada do crítico a implicação de uma mudança tão radical de materiais, do gesso ao diáfano tecido branco da instalação no MoMA. Nada poderia, de fato, estar mais longe da labiríntica, atordoante e opressora experiência das pesadas esculturas de Richard Serra.

Isso para falar do que Ken Johnson não percebeu, mas poderia ter percebido. Há muito também que escapou à sua percepção e que não haveria como não ter escapado, uma vez que ele vive em Nova York, como, por exemplo, o fato de que quando uma versão menor do mesmo trabalho de Carvalhosa foi exibida no Octógono da Pinacoteca do Estado, em São Paulo, a “soma dos dias” não se restringiu à soma e sobreposição de sons gravados e reproduzidos no decorrer da exposição, mas se mostrou impregnada e impressa no “diáfano tecido branco”. Nos últimos dias da mostra, o material da instalação estava cinzento e opaco. A virada que Johnson finalizou seu texto solicitando? Talvez. Talvez não, mas ao menos uma virada na visão diáfana, onírica e ligada à “leveza do ser” que o crítico quis imprimir ao trabalho quando ele á tão mais (e além) que isso.

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