Super-heróis caseiros

seLecT falou com quadrinistas, editores e críticos para entender: o Brasil chegou à Era de Ouro dos quadrinhos?

Ronaldo Bressane

N° Edição: 4

Publicado em: 26/03/2012

Categoria: A Revista, Reportagem

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Quadro do livro Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli.

Mauricio de Sousa dar autógrafos por cinco horas seguidas é uma cena normal – afinal, trata-se de uma lenda viva dos quadrinhos: seus personagens já venderam 1 bilhão de exemplares no mundo todo. Mas presenciar autores independentes autografando e rabiscando fanzines durante o mesmo período era impensável anos atrás. O clima de beatlemania em relação aos quadrinistas nacionais, com direito a assédio de marias-nanquim e paparazzi mirins rolou em novembro no FIQ 2011, o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte.

O tradicional evento reuniu 150 mil pessoas em cinco dias – há dois anos, havia a metade disso –, culminando uma sequência que começou na Gibicon de Curitiba, em julho, e se popularizou na RioComicon em outubro. O estilo yes we can dos três festivais, somado à emergência de novos artistas e expressivas vendagens – só a Companhia das Letras, que publica quadrinhos há apenas dois anos, vendeu mais de 160 mil exemplares de seus romances gráficos –, faz formular o diagnóstico: o Brasil vive sua Era de Ouro da HQ. Quem é do meio confirma, mas vários pedem calma e outros até refutam a tese.

Grampa

Quadrinho da hq inédita Furry Water, de Rafael Grampá

“Sim, a HQ brasileira vive sua Era de Ouro”, afirma categoricamente Rogério de Campos, diretor editorial da Conrad, que trouxe ao mercado tanto luxuosas edições de gringos como Milo Manara e Robert Crumb quanto graphic novels de Marcelo Quintanilha e Allan Sieber. Campos acredita que houve momentos em que os quadrinhos eram mais fortes nas bancas de revista e tinham tiragens maiores que as atuais – e também houve um tempo em que o gênero tinha mais influência cultural (como no Pasquim, por exemplo). “Mas nunca tivemos tantos quadrinistas com tanto domínio técnico e tanta variedade de estilos e gêneros sendo explorados ao mesmo tempo”, analisa.

“O reflexo desse momento vai aparecer mais tarde e, enquanto isso, é preciso manter o trabalho”, diz André Conti, editor do selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras. “Nossas vendas excelentes mostram duas coisas: que há público para os mais diferentes tipos de quadrinhos e que o crescimento das HQs nas livrarias demonstra que há um público novo, ou que parte do público das bancas migrou para as livrarias”, explica.
O quadrinista e editor Odyr Bernardi sublinha: “Agora, além de termos mais roteiristas – alguns vindos do cinema e da literatura –, temos artistas pensantes, com um jeito todo particular de contar histórias e gerir a carreira”. Bernardi também tem uma graphic novel no forno da Quadrinhos na Cia.

Jornalista especializado em quadrinhos, Delfin lembra que a HQ nacional viveu uma época dourada nos anos 50/60 com sua superpopulação de gibis de terror e mistério, e também nos anos 70, quando surgiram Laerte, Angeli, Glauco e Luiz Gê. “Mas acho que temos uma nova Era de Ouro despontando diante de nossos olhos, desde a publicação do primeiro fanzine 10 Pãezinhos, de Fábio Moon e Gabriel Bá”, diz.

10paezinhos

Quase nada, de Fábio Moon & Gabriel Bá, autores que já figuraram na lista dos mais vendidos do New York Times.

De fato, a carreira dos gêmeos paulistanos os coloca como os pop stars dessa Era. Agraciada com o prêmio Eisner, considerado o Oscar do gênero, sua HQ Daytripper figurou entre os livros mais vendidos da lista de quadrinhos do jornal New York Times, provando ser possível debutar no mercado americano desenhando super-heróis e mais tarde devolver para o mesmo mercado uma história brasileira e nada heroica – como é a trajetória de Brás, um obituarista que sonha em levar uma vida menos ordinária.

Télio Navega, que cobre quadrinhos no jornal O Globo, também aponta os gêmeos como principais nomes dessa cena otimista, mas tempera a euforia com o fator econômico. “A boa fase está atrelada à estabilidade brasileira e ao grande número de livros comprados pelo governo federal através do Programa Nacional Biblioteca da Escola”, lembra.

Pera lá!

Há, no entanto, quem prefira ir devagar com o andor. É o caso do jornalista Eduardo Nasi, que recorda: a expressão Era de Ouro nos quadrinhos apareceu nos EUA dos anos 50, quando os títulos de super-heróis vendiam milhões – e nem sequer eram considerados uma forma sofisticada de arte, como hoje. “Ainda temos um mercado pequeno tentando acomodar muitos talentos emergentes. Dados concretos? Só a diversidade e a qualidade dos trabalhos que surgem. Mas, tirando Mauricio de Sousa e Disney, não se sabe tiragem e vendagem de quase nada de uma forma concreta”, alerta Nasi.

Lourenco_mutarelli

Quadro do livro Quando meu Pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli.

O escritor Joca Reiners Terron é frio ao analisar o momento. Responsável pelo projeto que idealizou a série de graphic novels reunindo escritores e quadrinistas publicada pela Companhia das Letras, Terron detesta expressões do tipo “Brasil, celeiro de gênios”. “A Era de Ouro continuam a ser os anos 40/50/60. Mas talvez estejamos assistindo a uma época dourada de divulgação das HQs, do papel à webcomic”, pondera.

Cadê o meu?

Mais realistas, os próprios quadrinistas se ressentem da falta do ouro nos bolsos para consolidar essa Era. “Economicamente estamos no bom caminho, mas falta muito para a tal Era Dourada”, avalia Rafael Coutinho, desenhista e corroteirista da graphic novel Cachalote e (não custa lembrar) filho de Laerte Coutinho, “o Buda das HQs”, segundo Eduardo Nasi.

Rafael_coutinho

“Temos de lidar com o baixo consumo de livros e HQs em comparação com Argentina, França, Japão, EUA e Bélgica. Mas há cinco anos não havia uma estante de quadrinhos nas principais livrarias do País, e hoje todas têm, nem tanto editor gringo vinha pessoalmente rastrear a cena.”

“Vivemos é a Era do Fervor”, prefere Rafael Grampá, também detentor de um prêmio Eisner, faturado com sua revista Mesmo Delivery – aliás, em processo de adaptação para o cinema. “Temos boas HQs, muitas medianas e inúmeras ruins, mas pouquíssimas excelentes”, condimenta.

Todos os profissionais ouvidos por seLecT lembram: o bom período da arte serial pode ser só o início de uma fabulosa convergência, no meio digital, de plataformas artísticas, editoriais e comerciais. Tudo bem, mas digamos que essa Era de Ouro do quadrinho brasileiro se consolide e se multiplique em livros, revistas, games, tablets e telas. Teremos um estilo único, forte para brigar na cena internacional?

“Já ouvi que temos um estilo solto e ‘sinuoso’, que valoriza o traço gestual em detrimento da precisão realista”, conta Coutinho. Terron e Nasi lembram que o estilo brasileiro funda-se no humor dos cartuns. Já Navega e Delfin acham que nossa HQ prescinde de uma marca. “E torço para que não tenha: quanto mais plural, melhor”, pede Navega. “A HQ brasileira pode se alegrar de não ter estilo nem estigma”, define Delfin. Grampá lembra que, para sobreviver, os brasileiros já fizeram de tudo. “Têm artistas que passaram por design, animação, graffiti, artes plásticas e HQ de super-herói. Tudo isso influencia o quadrinho. Daí nosso estilo ter mais… ginga!

*Publicado originalmente na #select4.

Ronaldo Bressane é jornalista e escritor, autor do livro Céu de Lúcifer, entre outros. Em 2012, lança pela Companhia das Letras sua primeira graphic novel, VISHNU.

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