Tapeçaria urbana

Angélica de Moraes

Publicado em: 01/09/2015

Categoria: Crítica, Review

Regina Silveira cria obra permanente na calçada do entorno da Biblioteca Mário de Andrade, reafirmando uma postura que norteou sua atividade como docente

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Legenda: Paraler, obra permanente de Regina Silveira em calçada paulistana (Foto: Bruna Goldberger).

Regina Silveira é, comprovadamente, uma artista que sabe inscrever seus trabalhos com eficácia nos desafiadores espaços urbanos das megalópoles. Quem não se lembra do plotter vinílico Tramazul, com surreais nuvens bordadas sobre céu azul, que envolveu as quatro faces de vidro do Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 2010? Tão marcante que se tornou cartão-postal ainda encontrável nas bancas de jornais da Avenida Paulista, somado ao imaginário de um dos ícones da cidade. A obra efêmera, de enorme potência gráfica, podia ser vista com nitidez de longe e até em sobrevoo.

Há pouco, em janeiro, a artista criou e instalou outra imagem indelével na cidade, que descende das nuvens do Masp, mas adquire permanência material: Paraler, a calçada que envolve a Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo. Novamente, o grafismo potente destaca-se no caos visual das ruas e prédios do entorno, catalisando o olhar do transeunte para a percepção de um trabalho feito para integrar-se à topografia urbana, como uma pele.

Essa pele é constituída de inúmeras “células” de porcelanato de alta temperatura, material tão ou mais durável do que pedras portuguesas. Sem contar o tempo de projeto, foram dois anos para a produção e posicionamento dos quase 2 milhões de peças (losangos e triângulos, em seis cores baixas) na tapeçaria em ponto de cruz que borda no chão a palavra “Biblioteca”, em diversos idiomas. Além dos hegemônicos inglês, francês ou espanhol, há caracteres cirílicos (russos), ideogramas japoneses e muitas outras formas de escrita de culturas em torno do planeta.

“Busquei criar nessa obra uma analogia entre o conhecimento e o trabalho manual do bordado e da tapeçaria”, observa a artista em entrevista à seLecT. “Ambos crescem lentamente, são um processo de agregação e entrecruzamentos de fios.” A obra Paraler (que já foi Paving the Way no projeto original, de 2003, vencedor do concurso público para a biblioteca do Bronx, em Nova York, irrealizado) é um logotipo multicultural. “As agulhas de metal e alguns alinhavos do bordado dão a dica de que faltam alfabetos e línguas, porque o conhecimento é processo, nunca acaba.”

Paraler abre-se para o mundo e reafirma o que Regina Silveira aplica à sua obra e norteou a vivência de professora: o verdadeiro conhecimento ultrapassa barreiras geográficas e culturais. Um con- ceito cada vez mais necessário ao mundo, acuado pelos fundamentalismos de crenças e ideias.

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