#tbt Belkis Ayón: O eterno retorno de Sikán

A invisibilidade de mulheres entre grupos racializados é um assunto central nas gravuras de grandes dimensões da artista cubana

Leandro Muniz

Publicado em: 04/06/2020

Categoria: #tbt, Destaque

A Ceia (1991) não teria por que estar inspirada na famosa cena bíblica, mas seria originada em qualquer reunião ou refeição caseira (Foto: Michel Pou/ Cortesia Estate Belkis Ayón)

Na edição 32 da revista seLecT, lançada em setembro de 2016 e dedicada ao tema segredo, Orlando Hernández analisa as gravuras de grandes dimensões da artista  Belkis Ayón (1967-1999). Em Belkis Ayón: O eterno retorno de Sikán, o pesquisador cubano discute como as sociedades místicas representadas nas imagens ganham sentido de universalização em uma discussão sobre a morte e os dramas humanos individuais, como o medo ou a inquietação. 

Os personagens nas gravuras são membros da Sociedade Secreta Abakuá, uma comunidade fraterno-religiosa afro-cubana estritamente masculina, na qual a participação de mulheres é vetada. Uma das poucas artistas a discutir o assunto criticamente, Ayón contextualiza os mitos em seu cotidiano e aborda o aspecto psicológico das figuras, incluindo também na sua leitura referências biográficas que podem ser vistas até mesmo pelas semelhanças de algumas personagens com a própria artista. Para Hernández, a paleta de cor com predominância do preto e do branco, que são explorados pelas múltiplas tonalidades de cinza, próprios da gravura, geram uma sobriedade em relação ao movimento e à dinâmica da sociedade de Abakuá. 

As grandes dimensões das gravuras impõem tanto desafios técnicos quanto um questionamento da suposta intimidade dessa linguagem, trazendo as experiências subjetivas para um debate social. A técnica de transferência da imagem a partir da matriz também gera um efeito residual de modo que as figuras apresentadas por Ayón parecem existir na penumbra.

Para além do contexto onde foram produzidas, essas figuras, entre sombras e fantasmas, parecem demonstrar espanto diante da realidade, como se elaborassem dúvidas e questionamentos sobre as coerções raciais e de gênero que sofrem. As enigmáticas figuras de Ayón seguem atuais e eloquentes enquanto, nas últimas semanas, vemos reiterados casos de violência do Estado contra a população negra, no Brasil e no mundo, seguidos de protestos e manifestações que ocorrem tanto nas ruas como nas telas.  Leia ou releia a matéria aqui

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