#tbt seLect #12

Das cidades clonadas às vinícolas chinesas, edição de 2013 aborda o ceticismo da China sobre a ideia de original versus cópia

Da redação

Publicado em: 08/04/2021

Categoria: #tbt, Destaque

We Are From The Century (2010), de Jia Ali (Foto: Cortesia do artista)

Na edição #1, com tema Abaixo a originalidade, a seLecT questionava as marcas de autenticidade em um momento de entrada no digital. Lançada em junho de 2013 e dedicada à China, o número 12 da revista retoma algumas daquelas discussões. “Desapegue-se de tudo o que você pensa sobre a relação entre inovação e cópia. Na arte contemporânea, na arquitetura ou na moda, os chineses mostram-se céticos sobre a ideia convencional de original versus cópia”, escreve Paula Alzugaray no editorial. 

Capa da seLecT #12

O editorial também aponta para o gigantismo e a megalomania do país. Seja nos rankings no mercado de arte, em seu território, número de habitantes ou volume de importações de vinho, abordado na seção de Gastronomia pela jornalista Rachel Costa. Na seção Navegação, uma nota dedicada ao turismo cultural chinês mostra que o país, em 2011, lançou cerca de 300 museus dedicados à arte moderna e contemporânea, em um boom institucional. Outra nota, abordando a exposição China China, em cartaz no Pinchuk Art Centre, na Ucrânia, comentava os efeitos da globalização na produção artística do país. 

Os fluxos globais também colocam o sistema de arte brasileiro em contato com o chinês e jornalista Gabriela Longman discute a estreia, naquele momento, de galerias brasileiras, como a Nara Roesler e a Triângulo, na edição de Hong Kong da Art Basel. Já na produção artística, Ana Maria Maia analisa como o artista Alberto Baraya cria um ponto cego entre original e cópia, autóctone e estrangeiro, ao utilizar objetos made in China. 

As conexões entre Brasil e China aparecem no Mundo Codificado, que mostra os dados da poluição, de extensão do metrô e do número de habitantes em São Paulo e Pequim. Se há pontos de contato, ressaltam-se as diferenças, em especial no volume de bicicletas nas ruas ou na densidade populacional. Em continuidade com o infográfico, o jornalista Marcos Diego Nogueira apresenta reportagem comparando a efervescência cultural das duas megalópoles. 

A ocupação informal das cidades chinesas é tema de Giselle Beiguelman, que discute como o acelerado crescimento populacional e urbano no país geram organizações espaciais ao mesmo tempo subversivas, considerando o alto nível de controle daquela cultura, mas também extremamente precarizadas. “Em Hong Kong, a população pobre vive em porões, onde se alugam gaiolas de menos de 2 metros quadrados. Mais de 10 mil pessoas vivem nessas condições. Outras dezenas de milhares espalham-se em cubículos de menos de 10 metros quadrados no topo dos prédios”, escreve. 

Na arquitetura, os chineses também são ponta de lança no quesito cópia. Cidades clonadas presentes por todo o território reproduzem trechos de Manhattan, Toscana ou Paris. Construídas com recursos dos novos ricos locais, essas cidades foram projetadas para abranger altos contingentes populacionais, mas são, na verdade, praticamente desertas. 

Em entrevista à jornalista Mara Gama, o curador de design Aric Chen diz que quem promove a ideia de cópia é o ocidente. “O que está acontecendo na China hoje é um processo cultural fascinante que não pode ser entendido pelo simplismo das noções de original versus cópia resultante de visões estereotipadas e xenofóbicas sobre os chineses”, responde o curador, que também afirma ter interesse pela produção de Lina Bo Bardi. Outra contribuição de Gama para esse debate é uma crítica sobre o livro A Originalidade da Cópia.  

Já em “Muralha de bits”, a jornalista Nina Gazire apresenta reportagem sobre a censura, o controle e os lucros por trás da internet chinesa. Partindo da exposição On|Off, então em cartaz no Ullens Center of Contemporary Art, o texto discute liberdade de expressão em um país regido por um governo comunista e as estratégias de resistência que a população utiliza para driblar o bloqueio digital das autoridades. Em outra matéria, Gazire discute como os games são parte fundamental da cultura digital chinesa. 

A historiadora da arte Tereza de Arruda aborda a obra de Yang Fudong na seção Portfólio, que é dedicada a seus filmes e fotografias. Usando o preto e branco para a criação de um passado imemorial, o artista cria fotos que sugerem frames de filmes que, na verdade, não existem. Fudong começou sua produção no início dos anos 1990 e é informado pela pluralidade do país, a estrutura de governo autoritária e o comportamento “oscilante entre instâncias oficiais e não oficiais da sociedade”, como escreve a autora. 

Em colaboração com a seLecT, Peifeng Sung, consultora de arte asiática e editora da Harper’s Bazaar Art China, aborda os sucessores dos quatro artistas que, no início do boom da “arte contemporânea chinesa”, nos anos 1990, ficaram conhecidos como os “Quatro Reis Celestiais” (Fang Lijun, Yue Minjun, Zhang Xiaogang e Wang Guangyi). Pertencentes à geração “Pós-Reis Celestiais”, Jia Ali, Sun Xun e Xu Zhen valem-se de pintura e fotografia para discutir temas tão diversos como autoria, animação ou o sublime. “Não são reis ou deuses, mas simplesmente artistas que produzem obras relevantes para o seu tempo, tentando personificar o zeitgeist atual”, escreve Peifeng Sung.  

Definido por Sung como “um pintor do sublime”, Jia Aili e sua série Terras Desoladas (2007) é quase premonitório da atual situação de devastação global sob a pandemia da Covid-19. “Além de criar uma paisagem sublime, o fascínio de Aili pela viagem espacial, que o levou à sua última série de astronautas, revela seu desejo de escapar de um mundo catastrófico”, escreve a editora sobre o artista que, então, costumava-se a se apresentar com máscaras de proteção. 

Já da geração de artistas nascidos nos anos 1980, a revista apresenta Chen Man, capa da edição. A fotógrafa mistura tradição e tecnologia em seus editoriais de moda, que circulavam por veículos como i-D, Elle, Vogue e Marie Claire

No Fogo Cruzado, Marcos Diego Nogueira lança a dúvida: Compartilhar ou piratear, eis a questão. O escritor Milton Hatoum, a jornalista Márion Strecker, o músico Fred Zero Quatro, entre outros, respondem à pergunta. 

Dedicada à questão da inovação, a Coluna Móvel de Marcelo Bicudo torce mais uma vez o sentido de originalidade: “Ser copiado é bom. A cópia só se desenvolve se a marca for fortemente desejada pelos consumidores”, comenta o especialista em branding, alertando para a simultaneidade entre novidade e cópia. 

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