#TBT seLecT 40, 41 e 42

A revisão da história, a pulsão sexual e a necessidade de ação guiaram a seLecT quando o país vivia um choque de (ir)realidade ao entrar no governo Bolsonaro

Da redação

Publicado em: 09/12/2021

Categoria: #tbt, Destaque

Operação Lava Jato (2017), de Dora Longo Bahia (Foto: Cortesia da artista)

Setembro de 2018. A um mês das Eleições Gerais 2018 que colocariam o inominável na presidência do Brasil, mergulhando o país no obscurantismo, a 33ª Bienal de São Paulo evocava Goethe e Mario Pedrosa para, paradoxalmente, falar em “afinidades eletivas”. As ruas pegando fogo – Mulheres contra Bolsonaro, Indígenas contra Bolsonaro, #EleNão – e o curador Gabriel Perez-Barreiro, em entrevista à jornalista Márion Strecker, mais preocupado em ressaltar o “respiro espacial” e o reduzido número de artistas convidados a fim de “não sobrecarregar o espaço”.

“A impressão que temos é que depois da curadoria de Charles Esche (2014), houve um movimento de afastar a Bienal de uma arte mais política”, insistiu Strecker, a quem Perez-Barreiro se limitou a responder que “a política na arte não é a representação de assuntos pontuais do momento; é a política de mudar a sensibilidade das pessoas”.

Mas a posição do curador espanhol à frente da Bienal de São Paulo felizmente não era compartilhada por outras importantes instituições brasileiras, que voltaram sua programação do segundo semestre de 2018 a exercícios de como pensar a arte como resistência política. Na exposição 50 Anos do AI-5 – O Ano que Não Terminou de Acabar, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o curador Paulo Miyada colocava todos os dedos nas feridas da sociedade brasileira ao apontar as reminiscências da ditadura militar na contemporaneidade. Para a repórter Luana Fortes, Miyada declarou que queria ter montado uma exposição em rede, mas que o projeto político não foi bem recebido por outras instituições.

Mas em Estado(s) de Emergência, no Paço das Artes, onde Priscila Arantes e Diego Matos buscavam uma reescritura da história a partir do impasse político de 2018, e na remontagem da censurada Queermuseu, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio, ressoava o chamado das ruas. seLecT juntou-se a esse movimento dedicando a pauta da edição #40, que circulou de setembro a novembro de 2018, às reescrituras da história da arte a partir de óticas contrahegemônicas e decoloniais.

Com venda proibida para menores de 18 anos e, na capa, a foto antológica de Paulo César Pereio nu, de patins, em um balcão de bar dos anos 1980, a edição Sexo e Arte foi ainda mais fundo no projeto de contranarrativa e resistência ao obscurantismo iniciado pela revista. Com textos de Vladimir Safatle, Maurício Ianês e Jan Fjeld, a edição #42 teve co-edição de Dora Longo Bahia e trouxe um extrato de série então inédita da artista que relaciona a Operação Lava-Jato à pornografia, atingindo as sensibilidades extremistas daqueles que, um ano antes, atacaram a exposição Queermuseu, no Santander Cultural, em Porto Alegre, a performance La Bête, de Wagner Schwartz, no 35º Panorama de Arte Brasileira do MAM SP, o grafite Femme Maison, de Panmela Castro, na Trienal do SESC Sorocaba, e o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, rainha do Céu, no SESC Jundiaí.

O que Perez-Barreiro chamava de “assuntos pontuais do momento” pode ser lido como a insurgência de um retrocesso civilizatório de extensão global, com especial agravamento no Brasil de Bolsonaro e nos EUA de Trump. “Esse começo de ano no Brasil aparece, para muitos, como uma longa noite de inverno. Ainda há sol, mas a perspectiva de um longo inverno político muda o nosso estado de ânimo”, escreveu o psicanalista Christian Dunker na seLecT #42. A edição que circulou entre março e maio de 2019 foi produzida ao som do samba-enredo combativo do desfile da Mangueira, História Pra Ninar Gente Grande, que evocava o Brasil das Marias, Mahins, Marielles e malês.

O assassinato da vereadora Marielle Franco completava um ano sem culpados apontados e a revista se colocava como uma incitação à ação.

Encontram-se na edição – e na seção Fogo Cruzado, em que Ailton Krenak e Moisés Patricio, entre outros, respondem à pergunta “qual sua principal crítica ao início do governo Bolsonaro?” – os ativismos negro, indígena, feminista, LGBTQIA+, ambiental e educacional.

Esquentam as páginas um perfil de Wagner Schwartz, um portfolio de Jaime Lauriano e uma entrevista que Giselle Beiguelman realiza com a artista israelense Yael Bartana sobre o projeto E Se as Mulheres Governassem o Mundo? Na matéria de capa, sobre o ativismo ambiental da artista colombiana Carolina Caycedo, está sinalizado o caminho que seLecT tomaria dois anos depois, em 2021, dedicando-se às epistemologias indígenas e florestais. Caminho sem volta, que orientará nossos próximos passos no ano eleitoral de 2022 para o qual estamos preparando uma série de edições sobre Arte e Política.

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