#tbt seLecT #8

A violência social, o surrealismo midiático e os horrores do mundo-cão são temas de edição de 2012

Da redação

Publicado em: 11/03/2021

Categoria: #tbt, Destaque

Who's Afraid of Red? (Carneiros) (2002), de Dora Longo Bahia (Foto: Edouard Fraipont)

Lançada em outubro de 2012, a seLecT #8, com tema Mundo-cão: A banda podre da política, da notícia e do entretenimento, foi elaborada na época dos julgamentos dos esquemas do mensalão, e outros escândalos políticos do momento, que encontravam sua repercussão em meios sensacionalistas da grande imprensa. Em contra-ataque a essa situação, a edição lida com a estética do choque, em antídoto ao veneno do espetáculo. 

Na imagem de capa, uma pintura de Dora Longo Bahia feita especialmente para a edição, o cineasta Quentin Tarantino é retratado com uma arma na cabeça, como ícone desse mundo-cão. O trabalho de Longo Bahia também é tema da seção Portfólio, que discute a violência como problema central de sua obra – a artista tinha entre seus procedimentos realizar autorretratos a partir de manchetes de jornais ou transpor fotografias de guerra para a pintura.

Capa da seLecT #8

A obra de Tarantino também se desdobra em outras seções e é esmiuçada pelo jornalista Alexandre Mathias, que discute as continuidades e recorrências dos filmes do diretor norte-americano, especulando a possibilidade de que eles constituam uma peça única. Um ensaio visual, editado por Paula Alzugaray, discute também o cinema, reunindo imagens, de diversos momentos da história dessa linguagem, que abordam cenas de catástrofe e destruição. Isso tudo no tempo em que a ficção ainda superava a realidade. 

Quando o pornosoft Cinquenta Tons de Cinza batia recordes de bilheteria, seLecT voltava-se para a antiga prática do sadomasoquismo, em ensaio fotográfico de Rui Mendes. Já o jornalista André Forastieri recorre ao documentário Mondo Cane, de 1962, para analisar as imagens e chamadas dos fluxos informacionais daquele momento. “Mundo-Cão significa transformar a miséria alheia em entretenimento, com fins lucrativos. É só business. É diabólico”, escreve.

Outros exemplos dessa situação estão no Mundo Codificado. Replicando a estética dos jornais sensacionalistas, com suas imagens de baixa resolução, variações tipográficas e recortes toscos, esta seção apresenta crimes com requintes de crueldade que ocorreram no Brasil naqueles últimos 20 anos. O infográfico mostra as estratégias e punições dos assassinos, mas também o volume de informação relacionada aos acontecimentos. 

O jornalista Antonio Carlos Prado analisa a forma midiática de circulação de crimes e como nós, enquanto espectadores dessas violências, nos tornamos “voyeurs-perversos-mórbidos-adictos-negativos” ao consumirmos essas imagens. Tema que é também desenvolvido na Coluna Móvel de Cristina Padiglione, que discute como a televisão se alimenta dos horrores do mundo-cão, incentivando-o.

O nosso consumo direto ou indireto da violência aparece na seção Mundo Digital. Nela é apresentado o site Slavery Footprint, que mapeia as formas contemporâneas de escravidão usadas na manufatura e industrialização de diversos produtos que compõem nosso cotidiano, do tungstênio usado nas pontas de canetas esfereográficas, ao algodão das roupas. 

Os fotojornalistas André Liohn e Zé Maria da Silva, que estiveram no front da cobertura de conflitos, rebeliões e violências de Estado são tema de reportagem assinada pela dupla Ronaldo Bressane e Fernando Costa Netto. O autoritarismo governamental também é discutido pela urbanista Raquel Rolnik, que mostra como os projetos de “revitalização” da Cracolândia, em São Paulo, só abriram caminho para as construtoras e a especulação imobiliária, em um apagamento da problemática dos usuários de drogas que habitam a região. 

Se em um dos lados do mundo-cão há a agressividade e euforia, ele também leva à paralisia e à melancolia. Angélica de Moraes vai da clássica gravura de Dürer sobre o tema até a tribo dos emos para mostrar as nuances desse estado de espírito. Em Curto-Circuito, Moraes pergunta a Luiz Cláudio Cunha, Geneton Moraes Neto e Mario Cesar Carvalho quanto tempo se leva para uma bomba jornalística explodir. Além da distância entre os acontecimentos e sua repercussão, os jornalistas discutem a situação da reportagem em tempos de acesso remoto às fontes.

Em reportagem, Nina Gazire discute a psicologia canina e suas capacidades de aprendizagem. O cão também é o tema de uma curadoria de Juliana Monachesi, que aborda as obras de Rodrigo Braga, Graziela Kunsch e do coletivo General Idea. Se o primeiro se reconhece na figura do rottweiller, a segunda tem interesse pelo vira-lata e o coletivo canadense vê no poodle uma metáfora perfeita para o mundo contemporâneo. 

A jornalista também entrevistou o artista Santiago Sierra, conhecido por performances, ações e vídeos em que as mediações de valor do trabalho e as assimetrias de poder são postas em evidência. 

Em reportagem de Giselle Beiguelman, ilustrada com imagens do artista Guto Lacaz e do fotógrafo Fernando Laszlo, embalagens desprovidas de função, profusões de cabos e tomadas ou informações ilegíveis em produtos químicos são cunhados pela autora como “design canalha”. 

Para aliviar a barra e introduzir algum humor, a seção Tribos do Design apresenta produtos inspirados nos pets ou dedicados a eles. E quase na contramão das defesas desenvolvidas ao longo da edição, a entrevista com o curador Massimiliano Gione, da Bienal de Veneza de 2013, é uma recusa da arte que ilustra a agenda política. “A arte não deve tocar flauta para a Revolução”, diz. 

Reler a edição Mundo Cão hoje é ver em perspectiva a realidade distópica brasileira atual. 

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