#tbt seLecT #9

Museus de velhas novidades e a ansiedade pelo novo são tema de edição lançada na virada de 2012 para 2013

Da redação

Publicado em: 18/03/2021

Categoria: #tbt, Destaque

Pintura de Franz Ackermann em Buenos Aires (Foto: Divulgação)

Circulou em dezembro de 2012 e janeiro de 2013, a seLecT #9,discutindo “O novo novo”. Naquele momento, o pesquisador inglês James Bridle havia lançado no Tumblr a ideia de uma “nova estética”. Mas, passados cerca de cem anos das vanguardas artísticas e sua ansiedade pelo ineditismo, era fácil perceber que não havia nada de novo sob o sol ou no front ou em lugar nenhum. A edição,dedicada a pensar os cruzamentos entre arte, tecnologia e comportamento, encontrou nessa “nova” teoria, um prato cheio para análises da sociedade e cultura contemporâneas.

Na seção Tribos do design, a questão do novo, e seu oposto, o velho, é problematizada ao se discutir a tendência retrô. Objetos com aparência de outro tempo, mas com materiais e tecnologias de ponta, como carros, berços, sapatos e uma infinidades de itens funcionais, apontam para um futuro que “entra em ritmo de retrospectiva”.

O ensaio “Um museu de grandes novidades (velhas)”, de Giselle Beiguelman, discute as idealizações do passado promovidas pela cultura pop, do cinema à música comercial. Citando o crítico britânico Simon Reynolds, Beiguelman comenta como os anos 2000 são um momento de “remakes, regravações, reedições, revivals”, refazendo um passado que não se viveu e obliterando o presente. O teórico da estética relacional, Nicolas Bourriaud, que três anos depois dessa edição lançaria o livro “Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo”, é entrevistado por Beiguelman e Alzugaray. “O modernismo do século 20 foi ‘continental’ em seu princípio, baseado em um esperanto formal, cuja abstração geométrica era o principal componente. Essa grade abstrata foi a chave para a ‘modernização’ do mundo, tornou-se a nossa realidade cotidiana: em sua essência, o capitalismo é abstração”, aponta.

Cultura pop também é assunto de reportagem de Nina Gazire. Discutindo a produção de superstars como Grimes, Ariel Pink, John Maus, Rainbow Arabia e Dudu Tsuda, a jornalista recorre ao conceito de “hauntologia” para apontar como suas obras se valem de produções anteriores, utilizando remixes ou pastiches para sua construção. “Em português, significa “fantasmagologia”, mas costuma ser traduzido por “hauntologia”, e o termo vem da junção das palavras haunt (assombrar) e ontology, campo da filosofia que estuda a realidade e a natureza do ser”, escreve. 

Em entrevista à seLecT, a cantora canadense Grimes comenta as influências da tecnologia em sua produção. Misturando mangá e música pop norte-americana, ela usa a ideia de “pós-internet” para definir sua obra e alguns aspectos da cultura pop, como sua alta disseminação internacional, em uma costura de elementos de diversos lugares do mundo. 

Antenada na quarta onda feminista que ganhava terreno naquele ano, Gazire discute em reportagem os novos feminismos na cultura contemporânea, apresentando as ações do Pussy Riot, Jazz Domino Holly, do coletivo Femen entre outras artistas e grupos que transtornam os clichês em torno da mulher em prol de fortes afirmações políticas sobre a liberdade. 

Um mapeamento das tecnologias do futuro é o tema do Mundo codificado. Com prospecções até 2050, o infográfico mostra os avanços esperados em tecnologias que já são de ponta e os desenvolvimentos possíveis nos campos da energia, da biotecnologia e da internet. 

A jornalista Mara Gama também analisa o futuro da tecnologia, dizendo que a ampliação do acesso a impressoras 3D causaria uma Terceira Revolução Industrial. A generalização e o barateamento de custo no uso dessas máquinas, segundo ela, permitiriam a prototipagem e produção de objetos altamente customizados e detalhados. De acordo com a autora, os birôs de fabricação “dividirão as esquinas com os carrinhos de pipoca e cachorro-quente”. Uma entrevista com a arquiteta Gabriela Celani complementa as discussões em torno da estética 3D sobre aa arquitetura e o design. 

O Portfólio da edição é dedicado ao artista, designer e professor norte-americano Casey Reas, que traduz o funcionamento dos algoritmos para imagens. Trabalhando basicamente com imagens generativas e estética computacional, Reas também é autor de diversos livros e artigos que discutem esses temas, em trânsito rigoroso entre teoria e prática. Outros artistas discutidos na seLecT #9 que também partem de procedimentos tecnológicos, mas para a produção de imagens que ecoam as composições da abstração geométrica do século 20, são os norte-americanos Wade Guyton e Tauba Auerbach e o francês Bernard Frize.

Se internacionalmente as pesquisas com novas mídias ganhavam espaço e fomento institucional, no Brasil esse campo passava por crescente sucateamento. Em reportagem sobre a política cultural dedicada à  área, Juliana Monachesi analisa essas mudanças, que só pioraram desde então. 

Outra investigação de Monachesi é em torno do atravessamento de papeis no sistema da arte, em um estudo de caso emblemático: replicando a ação do artista Ai Weiwei de destruir um vaso da dinastia Han, o colecionador suíço Manuel Salvisberg destruiu a obra Han Dynasty Urn with Coca-Cola Logo, de Weiwei, em múltiplas associações e embaralhamentos de funções.

 Outro entrevistado é o artista alemão Franz Ackermann, que então inaugurava projeto de pintura em escala monumental no Faena Arts Center, em Buenos Aires. Utilizando recursos digitais e uma intensa construção pictórica que se relaciona conceitual e fenomenologicamente com o contexto onde é apresentada, sua obra é composta por mapas mentais e cores artificiais que replicam a estética do mundo digital.

Naquele momento, o uso das redes sociais da forma como temos hoje estava apenas em seu início. Na seção Curto Circuito, a psicanalista Anna Verônica Mautner, o teórico da cibercultura André Lemos e o presidente da Agência Click e da Isobar no Brasil, Abel Reis, respondem à pergunta: Estamos ficando doentes por compartilhamento em redes sociais ou obcecados por nós mesmos?

Em literatura, Ronaldo Bressane apresenta a corrente do new weird, os novos bizarros que misturam horror e fantasia, ultrapassando os limites do bem e do mal. O Obituário é dedicado à televisão, e, em sua primeira colaboração com a revista, a jornalista Márion Strecker imprime sua crítica impiedosa, apontando as disfunções do Iphone 5 na seção Delete. 

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