Tecnoartesanato

Juliana Monachesi

Publicado em: 28/05/2012

Categoria: Reportagem, visuais

Economia criativa e tecnologia social unem-se em Sergipe para requalificar a cultura artesanal

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Legenda: Colares de fibra de tucum, tingidos com corantes naturais em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas (Foto: Rogério Assis)

No extremo sul do polo turístico da Costa dos Coqueirais (como é chamado o litoral do estado do Sergipe), o município de Santa Luzia do Itanhy pode parecer uma localização inusitada para um centro de inovação tecnológica com foco social. Mas foi por isso mesmo que o Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI) decidiu transferir sua sede de São Paulo para lá, em 2009. O povoado do Crasto, com 2 mil habitantes, é uma vila de pescadores reconhecida como uma comunidade quilombola. Entre diversos outros projetos nas áreas de educação, saúde e economia criativa que possui em andamento na região, o IPTI pretende construir ali um museu vivo. Plantado no mangue, o empreendimento deve coroar, em 2016, a empreitada de consolidar um centro de referência em tecnologias sociais, por meio do desenvolvimento e aplicação de conhecimento científico e tecnológico e da interação com as comunidades, marcas da atuação do IPTI desde 2003.

Com o know-how de projetos como o Cultura Digital, que realizou para o Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, contando com parcerias com especialistas internacionais como Bronac Ferran e Roger Malina, o IPTI concebeu um modelo de desenvolvimento local estruturado na relação entre arte, ciência e tecnologia, que foi denominado The Human Project. “Pensamos que arte, ciência e tecnologia, atuando juntas, poderiam constituir um modelo alternativo viável de promoção de desenvolvimento sustentável, especialmente para regiões desprivilegiadas”, conta Saulo Faria Almeida Barretto, responsável pela área de Relacionamento Institucional e Novos Negócios.

O passo seguinte foi a identificação desse local propício para a implantação de um projeto voltado para economia criativa, saúde e educação, ou seja, uma experiência real do The Human Project, e a escolha recaiu sobre Santa Luzia do Itanhy – um dos municípios mais pobres do Brasil e que possui o segundo mais baixo IDH de Sergipe. Quando se transferiu para o Crasto, o IPTI diagnosticou que a economia local baseava-se na agricultura familiar e na pesca, e que a atividade artesanal encontrava-se desestruturada. A primeira ação do instituto foi identificar as tipologias do trabalho artesanal, das tramas com fibras vegetais e araticum (raiz do man-guezal que se parece com madeira-balsa) aos tecidos, para iniciar o trabalho de requalificação. Atualmente, os artesãos reunidos na Associação dos Artesãos de Santa Luzia do Itanhy fazem objetos que têm padrão de qualidade do melhor design brasileiro contemporâneo: o processo de formação (profissionalização e qualificação) levou 14 meses e consistiu em aprimorar a qualidade dos produtos, mantendo a identidade local e tendo por objetivo uma inserção global.

Segundo Renata Piazzalunga, cofundadora do IPTI e pesquisadora responsável pela linha de projetos relacionados à economia criativa no instituto, “a pesquisa que antecedeu a implementação do projeto identificou o baixo capital social da região. Não existe colaboração: o nível de confiança é muito baixo e a forma de comando ainda é herdeira do coronelismo, ou seja, os moradores estão acostumados à explAproporação. Percebemos que a relação entre as pessoas também se encontrava desgastada: a maioria deles não tem iniciativa”.

Para promover essa dupla requalificação, do artesanato e da cooperação, foram organizadas, dentro do projeto Cultura em Foco, a partir de 2009, diferentes oficinas que trabalharam desde a sensibilização dos participantes para aspectos pouco valorizados da cultura local até treinamento básico em administração, para habilitar os artesãos a definir as metas de trabalho e participar dos processos de difusão da marca e comercialização.

Apropriação da tecnologia social

Bonequinhas

Legenda: Poltrona Multidão, de Fernando e Humberto Campana, feita com bonecas de pano produzidas em Esperança (PB). (Foto: Mariana Chama)

No processo de mapeamento das fibras, além daquelas que já eram utilizadas pelos artesãos para confeccionar cestos, vassouras e instrumentos para a pesca, foram identificados outros tipos de palmeiras e capins como matéria-prima. Kelley Brian White, designer norte-americano residente no Brasil, especialista em fibras naturais, foi convidado em 2010 para desenvolver um modelo de persiana de fibras vegetais para ser confeccionado pelos artesãos de Santa Luzia. Desde então, ele presta consultoria à associação e já desenhou luminárias e jogos americanos para serem produzidos pelo grupo.

“Percebemos que projetos como esse acabam gerando uma relação muito sofisticada entre o artesão e os recursos naturais locais (no caso, a palha), com um impacto positivo na consciência ambiental. Antes eles desprezavam a palha e hoje veem a matéria-prima de outra maneira; em parte isso tem a ver com a renda que ela gera para as famílias, mas, por outro lado, também tem a ver com a questão estética, a beleza dos produtos gerados pelo trabalho deles, e o reconhecimento do mercado e das pessoas”, diz Barretto.

Além de Brian White, o projeto conta com a consultoria do Estúdio Nada Se Leva, que desenvolveu uma padronagem de fuxico sofisticada para confecção de mantas e almofadas pelo núcleo de tecidos na Associação Cultura em Foco. O estúdio paulistano revisitou o fuxico criando um pixelado de pied de coq, pied de poule e tartan. O núcleo começou com três mulheres de Santa Luzia do Itanhy, que recentemente convidaram outras artesãs para ampliar o projeto (para dar conta da crescente demanda).

No fim de fevereiro, a coleção de luminárias Fellicia teve seu lançamento nacional em showroom em São Paulo. Fellicia é o nome da empresa, criada em 2011, que comercializa os produtos da associação. O modelo de negócio desenvolvido pelo IPTI prevê que a comercialização não precisa ser feita pelos produtores, que nem sempre têm perfil de vendedores, ainda mais em um mercado global. Desse modo, a divisão de trabalho está hoje formatada para que a produção seja feita por integrantes da Associação dos Artesãos de Santa Luzia do Itanhy, a estrutura para captação contínua de recursos siga a cargo do IPTI e as vendas e o atendimento aos clientes sejam realizados pela loja virtual Fellicia (www.fellicia.com.br).

Aproximação entre desing e artesanato tem história

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Legenda: Luminária Fellicia, fruto da parceria entre o designer Kelley Brian White e a Associação dos artesãos de Santa Luzia do Itanhy (SE). (Foto: divulgação)

Praticamente inaugurando uma bibliografia brasileira séria a respeito de design artesanal, Adélia Borges, autora de Design + Artesanato: O Caminho Brasileiro (editora Terceiro Nome, 240 págs., R$ 80), explica logo na introdução de seu livro a dificuldade de aproximar design de artesanato: o antagonismo histórico, no Brasil, entre esses dois campos. Temas como o artesanato e a identidade brasileira, afirma, eram “rechaçados em bloco pelo pensamento predominante no establishment do design”, nos anos 1970.

A obra apresenta um problema que eclode nos anos 1960 – a importação acrítica de ideias da Bauhaus e o estabelecimento de uma metodologia funcionalista na “fundação” do design brasileiro – e para o qual se vislumbram saídas possíveis apenas no fim da década de 1990, com a implantação do Programa Sebrae de Artesanato e a criação do projeto Artesanato Solidário. As duas iniciativas de revitalização do artesanato somam-se à aproximação entre designers e comunidades de artesãos que tivera início na década anterior – com o protagonismo de profissionais como Renato Imbroisi e Heloísa Crocco, Janete Costa e Maria Teresa Leal – na conformação de um novo contexto, que a autora é perspicaz em circunscrever como “o caminho brasileiro”.

Significância cultural

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Legenda: Luminária Pet, de Nido Campolongo, construída com material fornecido pela Cooperativa de Coleta Seletiva Cooperaacs. (Foto: divulgação)

Um movimento de revitalização fez-se necessário por duas razões, segundo a autora. Por um lado, a produção manual sofreu uma perda de significância cultural, quando as tradições artesanais perderam espaço para produtos industriais importados da China: “Os artesãos passaram a repetir as formas industriais e/ou adotar estereótipos em sua produção. (…) Cenas de neve e fofos ursos-polares, para não falar dos gnomos e de toda a dinastia de Patópolis, grassavam nos mais variados suportes artesanais, da cerâmica aos bordados e pinturas nos panos de prato”, escreve. Por outro lado, o modelo fundante do design de produtos no Brasil provocou a cisão entre os dois universos, com perda para ambas as partes.
A autora, que dirigiu o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, entre 2003 e 2007, e concebeu, em 2008, o projeto do Pavilhão das Culturas Brasileiras, identifica seis eixos principais no processo de revitalização: melhora das condições técnicas, potencialidades dos materiais locais, identidade e diversidade, construção das marcas, artesãos como fornecedores e ações combinadas entre estes e os designers. Um capítulo é dedicado a cada um dos eixos no livro.

Relações delicadas

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Legenda: Saia de face dupla da marca Amaria, de Muzambinho (MG), mostra trabalho de patchwork com retalhos de tecido feito com tear manual e bordado com fios tingidos com restos da colheita de café (Foto: Norio Ito)

Sobre as duas posturas de interferência no design das peças (mínima possível, para preservar as tradições, ou radical, para adequar a produção às demandas de mercado), ponto nevrálgico do assunto abordado no livro, Adélia Borges toma o cuidado de não defender um modelo “correto” absoluto. Cita como exemplar de “ancoragem das referências formais dos objetos na realidade local” o projeto desenvolvido pelo Laboratório Piracema de Design, em Inhamus (Ceará), que consistiu em realizar oficinas para as bordadeiras locais redescobrirem em seu entorno as particularidades da vegetação do sertão e da composição das fachadas coloridas.

Mas termina o capítulo dedicado ao tema, o mais longo do livro, Relações Delicadas, defendendo pa- râmetros éticos, metodologias baseadas em compartilhamento e o respeito aos “signos que resistem há tempos” e “por todo o sistema de símbolos que se encerra num objeto”, que implica não levar aos artesãos nenhum projeto pronto nem limitar a ação de consultoria a uma oficina breve que não tem continuidade. “O designer tem de ter humildade. Ele não tem a prerrogativa do bom gosto ou da capacidade projetual. Não é por ter frequentado uma faculdade que ele será melhor ou terá um senso estético mais apurado”, escreve.

Museu no mangezal

A experiência do IPTI em Sergipe pode servir como exemplo de envolvimento ético entre os propositores de projetos de revitalização do artesanato e a comunidade local. Isso porque o instituto não apenas se transferiu para a região em que pretendia atuar, como vem desenvolvendo projetos que focam problemas sociais crônicos que também afetam, indiretamente, o desenvolvimento do artesanato. “O IPTI opera segundo uma espiral evolutiva: projetos desencadeiam novas ações e fortalecem a capacidade de apropriação local”, defende Saulo Barretto.

Em abril de 2010, o instituto foi qualificado como OS estadual, cujo objeto da parceria com o governo de Sergipe é “aplicar o conhecimento científico e tecnológico para o diagnóstico e a produção de inovações tecnológicas de interesse social”, explica ele. Naquele  momento, teve início a primeira parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Santa Luzia do Itanhy, o projeto Educação Inclusiva, que consistiu no desenvolvimento de um software que funciona como um quiz para identificar problemas neurocognitivos que dificultam a aprendizagem.

Ao desenvolver uma tecnologia social de apoio ao ensino, amparada no que há de mais avançado no conhecimento contemporâneo das neurociências, o projeto participativo (que envolve as equipes da Secretaria de Educação e dos diretores e professores de seis escolas de Santa Luzia do Itanhy) verificou, entre os 336 alunos atendidos em atividades complementares, que a partir do oitavo atendimento ocorre uma significativa melhora do desempenho desses alunos.

O Hb, um projeto voltado para a saúde que engloba as 22 escolas municipais e uma escola estadual de Santa Luzia, identificou que 27% dos alunos sofrem de anemia. Em implementação piloto, o equipamento para detecção nos níveis de hemoglobina no sangue que foi desenvolvido com baixo custo identificou e tratou crianças com anemia, provando que o processo de controle é viável e pode ser reaplicado.

Já o Museu Guigó de Arte, Ciência e Tecnologia, espaço científico-cultural idealizado pelo IPTI para ser construído em pleno manguezal, com passarelas de observação científica para estudantes da região e também com grande potencial turístico, está na etapa de captação de recursos para a primeira fase, aprovada pela Lei Rouanet, que envolve um concurso internacional de arquitetura e pesquisa para conteúdo da instituição. Ao que tudo indica, o Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho (MG), finalmente vai ter “concorrência” à altura no Nordeste.

*Publicado originalmente na edição impressa #5.

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