Terras por arar

Ao descrever sua iniciação ao mundo da arte contemporânea durante participação na Documenta 13, Enrique Vila-Matas reinventa a crítica

Paula Alzugaray
Detalhe de Untilled (2012), obra de Pierre Huyghe que integrou a Documenta 13 e ilustra capa do livro de Vila-Matas (Foto: Cortesia Cosac Naify)

O leitor que opte pelo original em espanhol Kassel No Invita a La Lógica – e que, portanto, não tenha de passar pelo texto de orelha da edição em português do novo Enrique Vila-Matas – vê-se induzido a entrar no site da Documenta 13 para confirmar se o autor esteve realmente entre os artistas convidados por Chus Martinez e Carolyn Christov-Bakargiev para a edição de 2012. Ao longo da leitura do romance, a dúvida repete-se a respeito da realidade de um ou outro personagem. O leitor contumaz de Vila-Matas se lembrará, então, de ter sido levado a buscas similares em Bartleby e Companhia, por exemplo – qual a veracidade da lista de criadores que são subitamente impedidos para sempre de escrever? Mas o que sempre se acaba por concluir é que pouco importa o que é fato e o que é ficção, se estamos no território da autoficção de Vila-Matas.

Como em romances anteriores, acompanhamos a viagem de um escritor dominado pelo ceticismo. Se até aqui seu grande tema havia sido a morte da literatura, em Não Há Lugar para a Lógica em Kassel, ele repisará terras batidas por exércitos pós-modernos, enfrentará o fim da arte e “os detratores da arte contemporânea”. E, ao viver um processo de “colapso e recuperação”, entrará em sintonia com o leitmotiv da Documenta 13.

Em capítulos breves, que descrevem três longos dias de imersão em Kassel, o autor apresenta-se como leigo em arte contemporânea – embora definitivamente não o seja – e habilmente introduz o leitor a um “novo modo de ver as coisas”. Como Alice correndo atrás do coelho no País das Maravilhas, ele (ou o leitor) recebe a advertência: os trabalhos de Documenta não devem ser contemplados, mas vividos. Essa percepção do invisível nasce de uma corrente de ar, O Impulso Invisível, de Ryan Gander, e ganha maturidade entre as névoas da instalação Untilled (Sem Cultivar), de Pierre Huyghe, o intrigante campo de esterco, onde o escritor passa as lentas horas da última noite.

Entre esses dois cumes narrativos, assistimos à desconstrução de noções preconcebidas. Diante da instalação This Variation, de Tino Sehgal, o escritor-viajante descobre que não existe inovação em arte contemporânea. “Deixemos isso para o mundo dos sapatos e dos carros.” A partir do estranhamento do trabalho de Pratchaya Phintjong com moscas tsé-tsé, ele realiza, atônito, que a instância política é inseparável da investigação artística. Acaba por desistir da ideia de vanguarda, mesmo que reconheça que o impulso invisível da arte contemporânea tenha sido dado lá atrás, por Mallarmé, quando este disse a Manet para não pintar a coisa em si, mas o efeito que ela produz.

O escritor (ou o leitor) entende, afinal, que arte não tem a ver com lógica, mas é um lugar “para duvidar”. (Sua próxima viagem literária poderia ser ao Lugar a Dudas, projeto de residências artísticas em Cali, na Colômbia.) Como Huyghe, que transformou a natureza ordenada do Parque Karlsaue em um espaço de construção e destruição, por cultivar, Vila-Matas reinstaura a crítica de arte dentro de um romance literário.

Não Há Lugar para a Lógica em Kassel Enrique Vila-Matas, Cosac Naify, 288 págs., R$ 47

*Publicado originalmente na #select27

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