Território de disputa

Oprimidos há mais de cinco séculos, indígenas encontram no rap uma ferramenta de conscientização e reivindicam espaço no movimento

Ramiro Zwetsch

N° Edição: 52

Publicado em: 30/04/2022

Categoria: A Revista, Destaque, música

Brô Mc's (Foto: Cortesia dos artistas)

Os povos indígenas do Brasil lutam pela defesa do território desde a chegada das primeiras caravelas em 1500 e a discussão em torna da demarcação de terras torna-se cada vez mais urgente com o avanço desenfreado das queimadas, do desmatamento, do garimpo e da perseguição à população nativa. Nos últimos anos, o rap tornou-se uma manifestação artística fundamental para a causa. Artistas pioneiros nessa linguagem empenham-se em veicular letras que chamam atenção à luta e esse movimento ganhou uma visibilidade maior – mesmo que ainda pouco noticiada pela grande mídia – durante setembro deste ano, em meio às idas e vindas no Supremo Tribunal Federal em relação à votação do Projeto de Lei 490, que, caso aprovado, favorece o agronegócio e dificulta ainda mais a demarcação.

A comunidade indígena fez uma mobilização histórica com o acampamento Terra Livre, que levou 6 mil pessoas a Brasília para sensibilizar o STF e a sociedade sobre o impacto negativo que o PL traria. Até o fechamento desta reportagem, a votação encontrava-se suspensa por causa de um pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes. Os rappers, claro, marcaram presença na capital do Brasil. O grupo Brô MC’s e os artistas Brisa Flow, Katu Mirim e Owerá são destaques dessa cena e alguns dos nomes mais comprometidos com a causa: eles se posicionam nas redes sociais, comparecem aos protestos e, cada um à sua maneira, lutam por território também no rap nacional. Se a natureza da cultura hip-hop está, desde a origem, ligada à demanda por direitos sociais, é de se questionar por que uma reivindicação tão relevante de um povo historicamente oprimido não encontra ressonância maior entre os rappers não indígenas.

“O rap dos não indígenas acaba sendo racista, quando não dá oportunidade de a gente ocupar aquele espaço que nos pertence. A gente vê festivais de rap onde as pessoas vão fantasiadas de índio, onde não tem indígena, onde os próprios MC’s acabam fazendo músicas que são racistas com os povos originários”, observa a artista Katu Mirim, da etnia Boibororó, moradora da periferia de São Paulo. “No meu contexto é muito mais difícil, porque sou uma mulher lésbica e o rap brasileiro tem sua parte machista e lesbofóbica. Então, chego nesses espaços tendo de me explicar: ‘Cara, eu não sou a indiazinha que tá correndo pelada no meio do mato. Sou rapper, eu também sou da periferia, não queira me ensinar como é viver na periferia’.” Críticas a Bolsonaro, conteúdos feministas e afirmação da identidade indígena são marcas de sua música no EP Nós (2020) e nos diversos singles já lançados.

Katu Mirim (Foto: Cortesia da artista)

Contra o feminismo que reproduz o discurso europeu
Outro destaque entre as mulheres é Brisa Flow. Ela tem três discos lançados: Newen (2016), Selvagem Como o Vento (2018) e Free Abya Yala (2020). Criada em Belo Horizonte e hoje moradora de São Paulo, ela é filha de artesãos araucanos (povo indígena do Chile). Suas letras falam muito de amor e também do prazer erótico feminino. Ela, no entanto, não se reconhece mais como feminista. “Já me declarei feminista, mas não me vejo mais assim, a partir do momento que comecei a entender que o feminismo que a gente estava seguindo não me contemplava como mulher marrona, da América Latina, periférica”, explica. “Acredito, sim, que as minhas letras empoderam mulheres, e isso, de certa forma, está dentro da luta feminista. Mas eu sou uma mina que está procurando resolver tretas de território. Acredito que o feminismo não une mulheres de todas as etnias, porque a gente ainda está reproduzindo discursos feministas europeus.” Entre 4 e 12 de setembro, aconteceu a terceira edição do evento Indígenas.Br – Festival de Músicas Indígenas, com uma programação on-line que envolveu bate-papos, shows, mostra de documentários e videoclipes. Brisa Flow foi uma das atrações. “São muito importantes as narrativas femininas dentro do rap indígena, porque permitem amplificar as vozes de muitas mulheres que até hoje enfrentam a grande questão de seus corpos serem vistos como objetos da nação brasileira”, observa Renata Tupinambá, jornalista, poeta e uma das curadoras do festival. “Artistas como a Katu, a Brisa, a Anarandá e muitas outras têm mostrado questões relacionadas ao direito das mulheres e, principalmente, o respeito aos corpos indígenas e às diferentes pluralidades e realidades que a mulher indígena vive no Brasil.”

A MC Anarandá lançou neste ano uma das músicas mais contundentes da produção indígena recente. O rap Feminicídio (2021) fala sobre o assassinato de uma mulher que sofria constantes agressões do marido, até o dia em que morreu espancada. A história é real e traumatizou a artista e educadora, quando ainda era criança, em seu povoado. Além de ser mãe biológica de um menino de 4 anos, ela adotou duas sobrinhas que eram violentadas por um padrasto. Anarandá, inclusive, teve a casa incendiada pela mãe das meninas e sua ex-cunhada. Da etnia Guarani-Kaiowá, ela vive em Dourados, Mato Grosso do Sul, região onde o conflito por terras com os ruralistas é intenso e massacra indígenas há décadas.

Rap na linha de frente
É de lá também o grupo Brô MC’s, reconhecido como o pioneiro na cena, que, ao lado de Owerá e Souto, participa do sexto episódio da primeira temporada do podcast ceLesTe, dedicado ao rap indígena . O quarteto formado em 2009 reúne dois irmãos Guarani (Bruno e Clemerson Veron) e dois irmãos Kaiowá (Charlie e Kelvin Peixoto). Com letras cantadas em Guarani, eles dedicam a maior parte das músicas a denúncias do abuso praticado pelos fazendeiros da região e à luta pela demarcação. Nem poderia ser diferente: trata-se, em síntese, do cotidiano das comunidades em que vivem. “Nessa semana, queimaram a casa de uns parentes”, conta Clemerson. Na linha de frente, eles já sofreram ameaças e tiveram de dar um tempo com os shows logo após a posse do atual presidente da República, em janeiro de 2019. “Nos ameaçaram de morte e picharam o símbolo nazista em nosso estúdio”, lembra Kelvin Peixoto. “Muitos dos nossos líderes foram calados, morreram de tanto falar. Essas ameaças nos fortaleceram. Parece que, espiritualmente, os nossos líderes que já se foram nos deram força”, completa Bruno. O compromisso com a causa indígena ajudou o grupo a vencer a resistência que eles sofreram no começo da carreira. Os anciãos não viam com bons olhos um projeto artístico que envolvesse jovens nativos com a linguagem do rap – forma de expressão surgida na comunidade negra dos Estados Unidos, no fim dos anos 70. “No começo, teve preconceito. As lideranças não entendiam. Quando eles ouviram o nosso CD, fomos aceitos. A gente fala, em nossas letras, coisas que estão engasgadas na goela dos nossos mais velhos há muito tempo e eles entenderam que podiam ser ouvidos através do Brô MC’s”, afirma Bruno.

“O trabalho do Brô MC’s tem uma importância imensa, pois conquista muita adesão nas redes sociais e mobiliza uma audiência muito grande junto aos não indígenas”, observa o antropólogo e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais Rodrigo Amaro. “O grupo tem uma atuação muito intensa também em várias manifestações políticas, como pudemos observar nos últimos dias em Brasília, contra o PL 490, mas também em manifestações por demandas locais nas rodovias que margeiam suas aldeias em Dourados.” Owerá é também reconhecido por seu ativismo. Em 2014, ele participou da cerimônia de abertura da Copa do Mundo e, sem autorização, abriu uma faixa com a frase “demarcação já”. Ele tinha 13 anos na ocasião. De lá para cá, sua carreira deu um salto: ele já gravou uma música em parceria com seu ídolo Criolo (Demarcação Já, Terra, Ar, Mar, de 2019) e é um dos personagens do documentário Sangue Vermelho, lançado em setembro, com direção de Graci Guarani, Marcelo Vogelaar, Thiago Dezan e Tonico Benites. Antes identificado como Kunumi MC, o rapper também é um dos artistas convidados pelo DJ Alok, um dos mais famosos do mundo, para um projeto que resultará em álbum e uma série documental. Ele é morador da aldeia Krukutu, em Parelheiros, bairro periférico da Zona Sul de São Paulo. “A cultura hip-hop nasceu com o povo preto”, diz o artista. “Eu vejo os negros como irmãos, porque até hoje eles sofrem, como nós. Não há muita diferença nessa luta por sobrevivência.”

Owerá (Foto: Igor de Paula)

Apropriação de linhagens não indígenas
Nas comunidades ou no contexto urbano, os jovens indígenas se identificaram com as letras e perceberam que o rap poderia ser uma ferramenta para veicular discursos de protesto. A discussão em torno da apropriação de uma linguagem artística não indígena, nesse contexto, torna-se irrelevante. “A música sempre foi um idioma muito privilegiado nas trocas, nos rituais e nas guerras na história da América do Sul. A gente está falando de rap, mas há casos no Brasil de artistas indígenas fazendo forró, música sertaneja, heavy metal, cumbia e reggaeton”, observa a professora Deise Lucy Montardo, especialista em música indígena. “Não é uma novidade. No caso do rap, é recente porque o gênero é recente. Mas a troca já é antiga. O que é realmente novo é a visibilidade que a internet propicia.”

Em um país com centenas de etnias indígenas, é de se esperar que cada artista traga diferentes referências relacionadas aos respectivos povos – desde os adereços usados no palco até os elementos musicais que se misturam às batidas eletrônicas do rap. Há, porém, aspectos comuns a todos esses trabalhos, no que diz respeito ao conteúdo lírico: a luta por demarcação de terras e contra o preconceito sofrido pelos nativos são recorrentes nos versos de um movimento em ebulição. Enquanto a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado queimam e povos historicamente oprimidos seguem ameaçados, a juventude indígena usa as ferramentas que tem para se expressar e reivindica maior atenção do rap nacional.

“O rap é, sim, um território de disputa – não pela essência do hip-hop, mas por ele estar dentro de um contexto de mercado musical. E, assim como todo mercado que funciona de uma forma muitas vezes rápida ou baseada em números, ele acaba não dando espaço para artistas indígenas e LGBTQIA+. Eu sinto que o rap precisa ainda abrir espaços para esses cenários”, defende Brisa Flow. “É um espaço que a gente está cada vez mais lutando para ocupar. O rap nacional precisa urgentemente escutar a voz dos indígenas. Nós só vamos falar de representatividade e de rap antirracista quando incluirmos indígenas nisso”, completa Katu Mirim. A hora é agora.

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