Toda fronteira é uma ferida aberta

Em cartaz no Sesc Santos, a exposição Portos se configura como lugar de trocas e reflexões

Vinicius Spricigo

Publicado em: 10/08/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Exposição Portos no Sesc Santos (Foto: Bruna Quevedo)

Com o destaque cada vez maior da figura do curador no cenário da arte contemporânea há pelo menos 50 anos, foi ficando evidente que uma exposição é um encontro mediado com o trabalho dos artistas. A ideia de simplesmente entrar no espaço neutro de uma galeria e apreciar obras de arte sem qualquer interferência parece cada vez menos plausível. A experiência de uma exposição inicia muito antes do encontro com as obras apresentadas e, muitas vezes, o primeiro contato se dá por meio do título, tema ou conceito escolhido pelo curador. Estratégias de comunicação institucional e, sobretudo, a linguagem verbal determinam a nossa atenção e a vontade de visitar uma exposição de arte. O grande número de exposições temáticas realizadas nas últimas décadas não é um acaso.

No caso de Portos, trata-se em primeiro lugar, para quem vive na capital, de um convite para ir até o litoral sul do Estado de São Paulo. Vale lembrar que museus de arte e espaços culturais têm sido um dos principais atrativos para se frequentar cidades e áreas portuárias, embora o processo de revitalização urbana santista não tenha alcançado ainda os mesmos recursos, resultados e visibilidade quando comparado com similares, como o Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. De qualquer modo, a exposição Portos nos transporta até uma experiência contemporânea de arte mediada pelo Serviço Social do Comércio (SESC), que abriga a exposição, e pela curadoria da antropóloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ilana Goldstein.

Após uma breve viagem serra abaixo, entrando no edifício de concreto aparente e pé direito alto da unidade do SESC Santos, avistamos imediatamente a exposição no piso térreo. A palavra Portos está ali, sinalizando aos visitantes o local da mostra. Ao ultrapassar essa primeira camada de mediação, deparamos com uma série de trabalhos, sobretudo em suportes bidimensionais, como pintura, gravura e fotografia, retratando a paisagem marítima da Baixada Santista. Certamente, o mar é a principal característica da região, caminho de chegada e partida de viajantes, fonte de sustento dos habitantes e atrativo para os turistas. O mar é também uma imensidão, e a fotografia de Fabiano Ignacio nos convida ao mergulho na experiência da exposição, atravessando a superfície das imagens; como imagem de abertura, um jovem executando um salto mortal antes de mergulhar nas águas escuras.

Exposição Portos no Sesc Santos (Foto: Bruna Quevedo)

Nas profundezas desse oceano, numa espécie de rotunda, encontramos destroços de um barco feito artesanalmente na própria região e ossos de baleia suspensos, instalação de Mauricio Adinolfi no espaço central, bem como, ao fundo, redes de pesca, objetos pessoais e peixes desenhados com escamas sobre discos de vinil pela artesã Dona Isaura. Se, por um lado, esse conjunto chama a nossa atenção para a expografia da mostra, outro aspecto da curadoria de Goldstein e sua equipe merece destaque, a saber, o diálogo proposto entre artistas reconhecidos no circuito da arte contemporânea e aqueles ditos populares. Em lados opostos da mesma sala temos um grande relevo abstrato em madeira pintado em gradientes de cor por Fabrício Lopez, artista, assim como Adinolfi, residente em Santos, mas com trânsito por instituições paulistanas e um circuito de arte cada vez mais globalizado, e os barcos feitos pelo Sr. Domingos, autodidata que viveu e trabalhou em meio a pescadores em Mongaguá.

Deixando esse receptáculo de um tesouro naufragado, retornamos à terra. Aqui a riqueza cultural dos Tupis e Guaranis está representada na Cestaria Guarani Mbya, de Elida Andreia Escobar, e nos Bichinhos esculpidos em madeira nativa da Mata Atlântica por Thiago Vera Benites da Silva e Elizeu Werá Tukumbo da Silva. Exposições são espaços de atribuição de valor e incluir a produção artística dos povos nativos é uma estratégia curatorial importante em Portos. Para além da inclusão dos objetos, Goldstein e os curadores convidados Cristine Takuá e Carlos Papá apresentam textos e vídeos explicativos, situando uma produção que aos poucos começa a ser reconhecida pelas instituições culturais e artísticas e pelo grande público. Se o local expositivo é um território em disputa, no qual espaços são compartilhados e redistribuídos, e hierarquias e hegemonias, questionadas, a intervenção de Maurício Ianês nos lembra que as fronteiras são arbitrariedades impostas aos povos originários pelos colonizadores europeus. Adesivadas em vermelho nos vidros fumê da entrada do SESC Santos, frases como “Toda fronteira é uma ferida aberta” integram o trabalho do artista santista.

Há mais de 1000 anos o litoral sul de São Paulo vem sendo habitado por diferentes etnias indígenas, às quais se somaram a partir de 1500 colonizadores europeus, africanos escravizados e imigrantes de diferentes nacionalidades, característica expressa na cultura da região. Enquanto algumas figuras um tanto deslocadas do cotidiano aparecem retratadas por Fred Casagrande em meio aos escombros e cinzas de um incêndio em casas de palafita, ou numa travessia solitária de balsa, fotografias de participantes de festas populares do mesmo artista servem a uma antropologia visual das formas de convívio na Baixada Santista. Portos são, antes de mais nada, lugares de trocas, tanto de mercadorias e produtos, quanto simbólicas e afetivas, além de espaço que serve de suporte para artistas da Baixada Santista. A arte urbana é outra manifestação não-hegemônica que ganha cada vez mais visibilidade no circuito de arte. Em Portos, ela ocupa grandes painéis representando o juízo final, pintados em preto e branco por Jhoni Morgado numa sala imersiva, convidando o visitante a olhar para o teto como no interior de uma capela. Temas como a poluição dos mares e a diversidade sexual aparecem, respectivamente, nos grafites de Wilis Graffiti e Nenê Surreal, nos quais vemos uma criança boiando com o lixo jogado nas águas do litoral e um casal de mulheres retratadas num beijo apaixonado.

Portos reúne um número expressivo de artistas, 59 no total, selecionados a partir de um mapeamento prévio nas cidades de Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe e Cubatão, bem como em territórios indígenas da região. O conjunto de trabalhos expostos é marcado pela diversidade de técnicas, suportes e linguagens artísticas. As gravuras em ponta seca de Rachel Midori representam a atmosfera e o horizonte da zona portuária, em que as montanhas, os navios e as gruas aparecem perfilados. Embora perceba-se na exposição a predominância de uma linguagem figurativa, as relações formais e cromáticas são exploradas na pintura acrílica de Mai-Britt Wolthers. Ao lado dos suportes, destacam-se também objetos inusitados como miniaturas de casas de palafita da Vila Gilda, feitas por Wilson Santos, ou um enorme bonde construído com arame por Laércio Alves. Temos ainda as intervenções do Coletivo A(gente), lambe-lambes com versos da escritora e jornalista Madô Martins, propondo diálogos com os trabalhos da exposição, ou da própria curadoria e expografia imprimindo sobre voil o registro de uma inscrição sobre um elemento arquitetônico típico da cidade, uma mureta, que aparece no trabalho de artistas como Maria Inês Veríssimo e Tomzé Scala.

Por fim, a mostra oferece uma aproximação relevante da produção contemporânea com a história da arte, por meio do diálogo transtemporal entre Paulo Von Poser e Benedito Calixto. Pesquisador da obra de Calixto, Poser recupera fotografias feitas pelo importante artista que registram Santos na passagem do século 19 para o 20. O atual centro histórico da cidade é retratado em grande formato em pintura e desenho sobre papel e madeira. No Brasil, as pinturas de paisagens são também registros da nossa história Da formação de um império até uma república democrática vacilante, as transformações da paisagem natural e do espaço urbano retratam, à sua maneira, uma experiência “civilizatória” nos trópicos, repleta de contradições e impasses. Se hoje em dias as áreas portuárias são resignificadas e revitalizadas pela arte e a cultura, são também lugares privilegiados para refletirmos sobre diferentes temporalidades e abordagens presentes na experiência artística contemporânea. Portos é, assim, uma plataforma que nos convida a embarcar nessa reflexão.

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Vinicius Spricigo é membro do Grupo de Pesquisa “Política e Crítica da Arte Contemporânea” (CNPq), dedica-se, no âmbito acadêmico, ao estudo das exposições, e é professor no Departamento de História da Arte da Unifesp.

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