Torre de papel

Marilá Dardot realiza série de trabalhos sobre livros de autoras mulheres que ficaram proibidos por 40 anos em Portugal

Paula Alzugaray
Biblioteca Maldita (2017), composta de 15 livros proibidos, com marcadores vermelhos (Fotos: Cortesia da Artista)

A palavra é nuclear na poética da artista mineira Marilá Dardot. Seu tradicional suporte, o papel, também é sua matéria-prima frequente. Sua estratégia, o corte e a seleção. Esses elementos se combinam em Interdito, sua primeira exposição individual em Lisboa, que ocupa a totalidade da Galeria Filomena Soares e é inteira elaborada em papel.

Os trabalhos foram criados a partir da leitura de 15 livros de autoras mulheres, proibidos em Portugal durante o regime ditatorial do Estado Novo, entre 1933 e 1974. Entre eles, Amanhecer, de Joan Baez, e Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correa. “Sintomaticamente, no Brasil isso também acontece, a maioria dos livros de mulheres foi proibida por questões morais. Tem autoras políticas, como Rosa Luxemburgo, mas a maioria é considerada obscena e pornográfica”, diz Dardot à seLecT.

Livros encontrados por Marilá Dardot

 

A exposição é composta de cinco trabalhos dispostos nas duas grandes salas da bela nave industrial, no bairro de Xabregas. Na sala principal, a instalação Interdito (2017) é composta de três torres de papel picado, prensado e embalado. No corpo das torres ficam esmagados os livros originais. A presença enigmática desses totens funciona como um texto interditado, cujo conteúdo jamais será decifrado.

Na segunda sala, os textos referentes aos livros proibidos aparecem de forma velada ou indireta – por exemplo, em Leitor (2017), que são os relatórios dos censores datilografados sobre papel azul (a cor da censura, em Portugal), usando tinta vermelha para destacar palavras apresentadas como censuráveis. A força das palavras também é o cerne de Dito (2017), coleção de 12 arquivos criados a partir de 12 palavras selecionadas pela artista como “subversivas”: alegria, amor, canto, corpo, desejo, liberdade, mulher, orgasmo, palavra, poeta, silêncio e minorias (arquivo genérico com as palavras homossexual, lésbica, puta, negro, travesti, mexicanos etc.). A exposição integra o evento Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-Americana de Cultura.

Dito (2017)

 

Serviço
Interdito, Marilá Dardot
De 28/9 a 11/11
Galeria Filomena Soares
Rua da Manutenção, 80 – Lisboa
gfilomenasoares.com

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