Torre de papel

Marilá Dardot realiza série de trabalhos sobre livros de autoras mulheres que ficaram proibidos por 40 anos em Portugal

Paula Alzugaray

Publicado em: 25/09/2017

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Biblioteca Maldita (2017), composta de 15 livros proibidos, com marcadores vermelhos (Fotos: Cortesia da Artista)

A palavra é nuclear na poética da artista mineira Marilá Dardot. Seu tradicional suporte, o papel, também é sua matéria-prima frequente. Sua estratégia, o corte e a seleção. Esses elementos se combinam em Interdito, sua primeira exposição individual em Lisboa, que ocupa a totalidade da Galeria Filomena Soares e é inteira elaborada em papel.

Os trabalhos foram criados a partir da leitura de 15 livros de autoras mulheres, proibidos em Portugal durante o regime ditatorial do Estado Novo, entre 1933 e 1974. Entre eles, Amanhecer, de Joan Baez, e Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correa. “Sintomaticamente, no Brasil isso também acontece, a maioria dos livros de mulheres foi proibida por questões morais. Tem autoras políticas, como Rosa Luxemburgo, mas a maioria é considerada obscena e pornográfica”, diz Dardot à seLecT.

Livros encontrados por Marilá Dardot

 

A exposição é composta de cinco trabalhos dispostos nas duas grandes salas da bela nave industrial, no bairro de Xabregas. Na sala principal, a instalação Interdito (2017) é composta de três torres de papel picado, prensado e embalado. No corpo das torres ficam esmagados os livros originais. A presença enigmática desses totens funciona como um texto interditado, cujo conteúdo jamais será decifrado.

Na segunda sala, os textos referentes aos livros proibidos aparecem de forma velada ou indireta – por exemplo, em Leitor (2017), que são os relatórios dos censores datilografados sobre papel azul (a cor da censura, em Portugal), usando tinta vermelha para destacar palavras apresentadas como censuráveis. A força das palavras também é o cerne de Dito (2017), coleção de 12 arquivos criados a partir de 12 palavras selecionadas pela artista como “subversivas”: alegria, amor, canto, corpo, desejo, liberdade, mulher, orgasmo, palavra, poeta, silêncio e minorias (arquivo genérico com as palavras homossexual, lésbica, puta, negro, travesti, mexicanos etc.). A exposição integra o evento Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-Americana de Cultura.

Dito (2017)

 

Serviço
Interdito, Marilá Dardot
De 28/9 a 11/11
Galeria Filomena Soares
Rua da Manutenção, 80 – Lisboa
gfilomenasoares.com

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