Travessa Dona Paula: novo hub artsy

A Gentil Carioca, Projeto Vênus e Coleção Moraes-Barbosa ocupam vila na Consolação, em SP, com propostas que oxigenam sistema da arte

Leandro Muniz

Publicado em: 26/08/2021

Categoria: Da Hora, Destaque

Vila Dona Paula (Foto: Paula Alzugaray)

Em 2019, o curador e galerista Ricardo Sardenberg fundou o Projeto Vênus, mas só em 2020 a galeria ganhou uma sede definitiva: uma das casas da Travessa Dona Paula, no bairro da Consolação, no centro de São Paulo, foi escolhida por uma série de contingências e acasos felizes. De longa atuação tanto no circuito comercial quanto institucional, a relação de Sardenberg com os gestores da galeria A Gentil Carioca e com o colecionador Pedro Barbosa foram estímulos para que estes também ocupassem espaços na vila.

Estrategicamente localizadas, pela centralidade e facilidade de acesso, e pela variedade de instituições culturais e galerias nas proximidades (inclusive a revista seLecT habita a região, desde 2011), as casas da Travessa Dona Paula foram criadas na década de 1940 para abrigar operários que trabalhavam na construção de Higienópolis, um bairro nobre da região. Embora o projeto interno das casas não siga um modelo, algumas são tombadas e todas mantêm o padrão de fachadas de tijolos à vista.

A presença de três espaços de arte nesse contexto não busca reproduzir o modelo do cubo branco e suas propostas curatoriais também trazem novos ares ao sistema artístico: do bom humor carioca, à ênfase no processo, ou na pesquisa sobre arquivo, são três iniciativas privadas que contribuem para um meio artístico mais oxigenado.

Janina McQuoid no Projeto Vênus (Foto: Paula Alzugaray)

Práticas de ateliê
Em 2018, Ricardo Sardenberg começou a visitar o ateliê de jovens artistas, como Janina McQuoid, Paula Scavazzini, Flora Rebollo, Yan Coppeli, entre outros, que, para o curador, traziam uma nova visualidade para a cena artística paulistana. Naquele momento, após a eleição de Bolsonaro, Sardenberg via nesses artistas, que hoje representa, uma ênfase no processo, na experimentação dos materiais e no fazer. Com interesse no surrealismo, o curador também vê reflexos indiretos daquela vanguarda nessas produções.

O Projeto Vênus começou como um espaço de exposição, mas foi se transformando em uma galeria, como alternativa possível para sua viabilização. “Tenho um lado galerista e um lado curador, que articula a vila e também pensa projetos autônomos”, diz à seLecT. Sardenberg também afirma que busca retomar outros modelos de galeria, baseados naqueles que existiam até os anos 1990, focados nas exposições e não nas feiras, como acontece desde os anos 2000.

Com um programa centrado na apresentação de exposições individuais, em dezembro de 2020 o Projeto Vênus já ocupava a casa na Travessa Dona Paula, mas a inauguração foi apenas em maio deste ano. “Quando veio a pandemia, todo mundo achou que ia quebrar, mas a grande descoberta é que temos um meio de arte com muita resiliência e profissionalismo”, afirma. “Ao mesmo tempo, com a reabertura, tem toda uma nova energia e deslocamento geográfico”, complementa, referindo-se às reaberturas de agosto e à abertura de galerias como a HOA ou a Verve, na região central da cidade.

  • Vista da exposição BumbumPaticumbumPrugurudum (Foto: FilipeBerndt)
  • Vista da exposição BumbumPaticumbumPrugurudum (Foto: FilipeBerndt)

Cariocas em São Paulo
Na sede original, no centro do Rio de Janeiro, a galeria A Gentil Carioca ocupa dois prédios, em um cruzamento, ou encruzilhada, como dizem. Além de um programa de exposições, a galeria é conhecida por promover um edital anual para apresentar novos artistas, inaugurado com uma grande festa no início de cada ano, o Abre Alas, e outras ocupações do espaço público. No próprio Rio, a galeria teve um terceiro espaço na região da Lagoa, entre 2012 e 2015, e já havia um desejo, de longa data, de ter uma sede em São Paulo.

Inaugurando a sede na Travessa Dona Paula com a coletiva Bum-bum Paticumbum Prugurundum, com curadoria do time da galeria, a primeira apresentação em São Paulo é de obras inéditas, concebidas para ou apresentadas pela primeira vez nesse contexto.

“O interesse por essa casa veio, inclusive, do diálogo com o Sardenberg”, conta Márcio Botner, diretor da galeria. “A arquitetura também conectava com os dois espaços que a galeria ocupa no centro do Rio, que são prédios históricos”. O projeto de reforma é da Canoa Arquitetura, com um híbrido entre conservação de elementos originais e adaptação de outros, como o chão, que tem uma temperatura mais quente, ou o jardim interno, que tem uma árvore de cupuaçu.

Além de individuais dos artistas representados, a Gentil buscará replicar em São Paulo os projetos de ocupação do espaço público, tão recorrentes em sua atuação. “Espero que a gente possa construir parcerias e diálogos, porque a arte é a união entre os agentes desse sistema, ainda mais hoje, com esses ventos que tentam destruir nossa cultura”, continua Botner. “Nos interessa a arte como um ponto de encontro que possa fazer pensar um mundo diferente.”

Novo espaço de Pedro Barbosa (Foto: Divulgação)

A liberdade do espaço privado
Desde 1999, a Coleção Moraes-Barbosa tem foco em trabalhos conceituais e efêmera, que inclui publicações, revistas e materiais gráficos de exposições — um escopo ainda pouco explorado no Brasil. Há cerca de dois anos, um grupo de pesquisadores, com o artista Deyson Gilbert à frente do time, tem mergulhado nesse material, catalogando e propondo leituras. Mas a ocupação da casa número 120 da Travessa Dona Paula, com abertura prevista para outubro, não será apenas uma apresentação desse acervo para o público. Segundo o colecionador Pedro Barbosa, o modelo é muito mais o de um project space, sem programação definida, mas focado em propostas arriscadas e de forte teor crítico. Além de exposições, o espaço também buscará fomentar pesquisas e comissionar textos, trabalhando com uma tabela de valores baseada no Working Artists and the Greater Economy (W.A.G.E.).

Para a exposição inaugural, estão sendo realizadas pesquisas na coleção e leituras a partir do catálogo da 54ª Bienal de Veneza. Outros desejos do colecionador são expor a produção gráfica da banda New Order, que teve colaborações com artistas como Lawrence Weiner, John Baldessari e Barbara Kruger, e uma coletiva, com Stanley Brown, Mark Lombardi e Walid Raad, discutindo a ideia de coleta de dados.

“O grande desafio é construir alguma coisa que crie fricção e debate. Vou colocar capital naquilo pelo quê ninguém se interessa, investir em gente nova, com pensamento crítico”, diz Pedro Barbosa à seLecT. “Vão ser zonas de turbulência e eu quero estar envolvido nelas. Não quero coisas convencionais, temos que deixar as pessoas experimentarem. Não tenho compromisso com patrocinador, lei Rouanet, galeria, nem colecionador, e, dessa posição confortável, podemos correr riscos.”

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